Domingo, Maio 23, 2004
Então, moçada, tenho me sentido culpado em relação a esse blog. Na verdade depois que escrevi o último post onde dizia que escreveria com menos assiduidade, eu não tive nenhuma inspiração para continuar a história. Talvez o problema não seja exatamente falta de inspiração e sim falta de tempo ou de estímulo para sentar e escrever. Dá trabalho essa coisa de escrever. Sabe quando você quer fazer uma coisa direito, com calma, e acaba nunca começando a fazer? Pois então, essa história começou a crescer, eu comecei a gostar e acabei não conseguindo seguir a diante. Pode ser crise de autor, pode ser natural, pode ser que eu retome um dia desses, pode ser que essa história acabe num livro, mas no momento não vou fazer nada. Podem ficar tranquilos que se eu voltar a escrever eu aviso no Instante Anterior. Desculpe pelo transtorno, desculpe pela frustração de parar a história pelo meio mas é isso aí. A vida é assim, prega mesmo essas peças, e segue a diante. Novas histórias surgirão...
posted by BRUNO MEDINA at 1:15 AM
Quinta-feira, Abril 22, 2004
Caros Leitores:
como vocês podem perceber já há um tempo que não atualizo a história. A boa notícia é que isso está acontecendo por um motivo nobre; me parece que a história que começou como brincadeira foi ganhando força e importância dentro de mim, de forma que não tenho mais conseguido produzir capítulos com a mesma frequência. Para muitos pode ser decepcionante perceber que a história mudou de ritmo, mas saibam que o intuito é escrever com mais calma, e melhor. Portanto se você vem aqui todo dia para ver o que há de novo, passe a vir de 5 em 5 dias. Acho que era minha obrigação dividir isso com vocês. Para quem ficou chateado com essa pausa no "meio" do caminho peço desculpas, mas estejam certos que é necessário.
posted by BRUNO MEDINA at 12:01 PM
Quarta-feira, Abril 14, 2004
-- Eu imaginei que isso pudesse acontecer -- respondeu Claire sem demonstrar nenhum tipo de emoção.
-- ...Não temos mais nada um com outro, já acabou. --respondeu Jean mesmo sem ser questionado.
-- Está bem, vamos jantar, não quero mais falar sobre isso.
E com isso a conversa se encerrou. Sentaram no restaurante e procuraram não tocar mais no assunto, mudaram o rumo do inevitável desconforto e conseguiram fazer o jantar se tornar agradável. Foi impressionante a forma como Claire lidou com o problema, era como se ela aceitasse que Jean tivesse se envolvido com outra mulher por saber que ela mesma tivera criado uma situação propícia para tal. Não quis saber quem era nem como ou quando tinha acontecido, simplesmente passou à diante com a costumeira frieza que tanto assustava Jean. O jantar se encerrou e nesse dia despediram-se afetuosamente porém não dormiram juntos. Parecia que Claire estava absorvendo as informações novas, preparando-se para saber lidar com elas, Jean sabia que ela estava fechada para balanço, estava a caminho de sua plataforma, e que só conheceria realmente a reação dela tendo passado alguns dias. Não custou muito a chegar a resposta, na forma de carta, na casa de Jean:
Jean:
Tenho certeza (acho que já sabia, mas agora está mais forte) que ter vivido tanta coisa com você mudou, e está mudando, a minha vida. A maneira firme como você procurou resolver uma situação que não era a que você quer pra si me deixou mesmo de queixo caído, e me fez pensar no jeito como eu conduzo as coisas na minha vida. Você realmente possui a invejável característica de prezar pelo seu bem estar a qualquer preço, e faz isso sem passar por cima de outras pessoas, talvez eu precisasse mesmo de um pouco disso dentro de mim.
Adoro perceber sua preocupação comigo, com meu bem estar, isso me faz muito bem, mas sinceramente não espere muito dessas minhas mudanças, você pode se decepcionar. Nós realmente somos diferentes: você parece que organiza sem esforço seus sentimentos e isso pra mim parece um total absurdo, as coisas que eu sinto não são verbalizáveis, organizáveis. Acho que sei o que eu quero por ser o contrário do que eu não quero e tenho a consciência da confusão que isso pode causar em você. Enfim, não é tão fácil quanto parece e quando eu tento organizar acabo com a sensação de que isso tudo é uma verborragia inútil. Acho que estou confusa também, preciso de uns dias para colocar em ordem meus sentimentos, ou pelo menos tentar faze-lo. Não sei exatamente o que esperar de nós quando as coisas finalmente se esclarecerem para mim. Pode ser que demore muito, pode ser que eu simplesmente desista no meio desse processo, mas a verdade é que tenho mesmo dificuldade de encarar o fim, uma ausência que eu não possa interromper, Jean. Entretanto nossas conversas e tudo o que vivemos juntos me servem como bússola, estão ainda muito presentes, muito vivos em mim. Qualquer memória é parcial, mas não importa, porque eu sei que estas estão me fazendo bem. Portanto agora me retiro do campo real e me refugio nessas memórias até que tudo faça um tanto mais de sentido. Espero que você esteja aqui quando eu voltar, mas não espere por mim.
Um beijo,
Claire.
A resposta foi enviada no mesmo dia:
Claire:
Fico muito feliz em saber que pude de alguma forma te ajudar a rever coisas em sua vida, isso significa muito pra mim, me deixa orgulhoso, mas o mais importante é pensar que isso pode efetivamente melhorar a sua forma de lidar com seus problemas. Francamente não me interessa quem é responsável pelo seu processo de mudança, eu quero que você seja feliz, do fundo do coração. Se você precisa ver minha preocupação para medir o quanto gosto de você, que seja. Se suas mudanças são fogo de palha, só o tempo vai dizer, e prever não faz mais parte das minhas intenções. Se eu te pareço muito direto com essas frases que mais se assemelham a dizeres de livro de auto-ajuda é porque muitas vezes eu me sinto elucidando o óbvio.
Mas o que é óbvio pra mim não é pra você, e isso, minha cara, eu preciso aceitar. Se a vida me impõe essa barreira, ou eu tento pular o mais alto que consigo, ou eu meço a altura antes e desisto sem precisar passar pelo inconveniente de fracassar. Já bati com a cara no muro e, francamente, preciso manter meus dentes no lugar. Essas metáforas só servem para tentar encobrir de fantasia uma situação que pra mim dói de tão real; eu começo a disparar essas frases de efeito para tentar contaminar você com um pouco de faz-de-conta, porque para você, Claire, no fundo é tudo preto no branco. Por mais largo que seja esse lugar que você se supõem entre duas certezas, no fundo mesmo, pra você o que é é contrário do que não é. E eu acho que eu não sou. Parece-me que vou ter que aprender a lidar com o fato de que o jeito que você gosta de mim não é o que eu quero. Gostei de conversar com você da última vez, não me fez mal, estou sereno, contemplativo e consciente de que esse é o melhor jeito para ficar bem. Conversaremos quantas vezes forem necessárias, e quantas forem as que não me fizerem mal. Se você me permite, sendo ou não o responsável por suas mudanças, eu ainda sim me sinto orgulhoso de ser o gatilho, ou o dedo que dispara, tanto faz, quero te ver feliz, e eu sei que a felicidade urge sempre, mesmo quando você pensa que não. Minhas convicções eu ponho de lado agora, simplesmente porque as consigo colocar. A mim não importa mais o que é certo fazer, se eu puder fazer, se estiver ao meu alcance, eu faço.
Encontro-me rodando em pensamentos conflitantes, tudo que vivemos foi muito intenso e rápido, muito recente, e a impressão que tenho é que ainda está difícil de enxergar. Parece que preciso estar de fora para ver melhor. Esse tempo será importante para que nós dois avaliemos nossa condição. Gostaria de poder continuar participando desse processo, mas sinceramente não sei como. Eu só posso ficar do seu lado na medida que você quiser, permitir e que eu estiver me sentindo bem. Ao mesmo tempo só posso torcer, porque me parece que você tem que se mover sozinha. Não adianta que eu ache que sei o que é melhor pra você, as coisas só vão melhorar efetivamente quando você tomar consciência de que a vida é sua e a maior prejudicada é você própria. Bem, me incomoda um pouco ser só um flashback em sua vida, eu estou aqui e gostaria...Ah, não sei o que eu gostaria. Claire, eu estou aqui. Você sabe como me encontrar. Estarei torcendo.
Um beijo,
Jean
Com está troca de cartas foi selado um tempo de reflexão entre eles. E por muitos dias não souberam um do outro. As aulas na faculdade se encerraram e Jean entrou de recesso no trabalho. Sentia falta de Claire, queria saber como ela estava, mas sabia que era preciso esperar que algo acontecesse espontaneamente. Mais uma vez era o caso de confiar no destino ou fazer algo por ele. O mês de dezembro começou e o inverno era cada vez mais palpável; nos dias de neve Jean saía pelas ruas porque sempre se encantava com o manto branco que fazia tudo parecer sonho. Em sua cidade natal, no mediterrâneo, não neva e por isso ele adorava o inverno rigoroso de Paris. Algumas vezes ele passava pela frente do prédio de Claire e ficava apenas observando, sem coragem de bater em sua porta. Torcia para que ela saísse de casa e que se encontrassem, que ele pudesse ao menos vê-la, mas nunca aconteceu. Ele, que já havia lutado tanto contra esse sentimento, que tantas vezes já tentara se convencer de que devia esquece-la, dessa vez apenas aceitava a saudade que sentia e queria amenizar aquela dor da forma que fosse. Já não era mais possível passar o inverno sem Claire, Jean precisava ter-la ao seu lado naqueles dias tão bonitos. Resolveu dar uma mãozinha para o destino e satisfazer sua curiosidade, ligou para ela.
Claire atendeu o telefone surpresa porém sem grande euforia. Disse que aquele não era um dia bom, que havia passado todo tempo trancada dentro de casa, pensativa, e que Jean era a primeira pessoa com quem ela falava naquele dia. Começou a remoer suas maselas, a se queixar dos mesmos problemas de sempre, das mesmas dúvidas, e Jean procurava ser otimista, sentia que era preciso ajudá-la a se desafogar daquele mar de amargura. Parecia que Claire estava num daqueles dias de querer ser elogiada e paparicada, e Jean não se incomodou de desempenhar esse papel. A conversa se estendeu por um longo tempo e Claire parecia estar melhor, Jean então aproveitou para introduzir a pauta que mais o interessava:
-- E então, Claire, quando vamos nos ver novamente?
-- Não sei, ainda não tinha parado para pensar nisso, não estou com tanta saudade, apesar de você estar me convencendo de que seria bom.
Jean ficou mudo.
-- Ah Jean, me desculpe... Eu te magoei? Desculpe, hoje não está sendo um dia bom pra mim, não deveria ter falado isso.
Jean havia passado mais de uma hora no telefone com ela, tentando apontar os caminhos para a resolução de seus problemas, tentando enchê-la de otimismo, prestando-se a não responder suas provocações, a não notar sua falta de tato e a forma como foi recompensado por tamanha dedicação implicava em ouvir a fase mais insensível que já lhe disseram em toda sua vida:
-- Claire, não se diz a uma pessoa que não se está com saudade dela.
-- Eu sei, me desculpe.
-- Acho que por hoje já é suficiente. Pelo visto sua amargura é irreparável, vou desligar.
Claire ligou-o novamente:
-- Jean, eu gosto de você! Você me faz bem, me faz sorrir, cuida de mim. ¿ disse Claire numa tola tentativa de reverter a ofensa.
-- Isso não me basta, se não se importa vou desligar, não quero conversar com você agora.
Passaram-se alguns minutos e a raiva de Jean atingiu níveis inéditos. Ele começou a pensar em tudo que já havia se passado, em todas as vezes que Claire havia o decepcionado e percebeu que precisava dizer algo para que não explodisse. Ligou para ela novamente:
-- Quero dizer que você me faz me proteger de sentimentos bons e isso é um grande prejuízo. Se eu ainda me relaciono com você é porque tenho um problema de auto-estima, preciso de tratamento profissional. Você me faz mal, quero que suma da minha vida. Você não acredita na humanidade, não acredita em sentimentos bons, e isso me contamina como uma doença. Por favor, não me procure mais.
E desligou o telefone. A conversa em si não era tão relevante, mas servia como exemplo de como Claire se relacionava com tudo. A amargura, a insensibilidade, a falta de consideração, ele estava farto. Percebeu que nenhuma saudade adoçaria aquele coração, que nenhuma palavra que fosse dita a faria querer ser uma pessoa melhor, e se fizesse ainda sim não seria suficiente. Claire era um caso sem solução e Jean simplesmente se cansou, decidiu tirá-la de sua vida, definitivamente.
posted by BRUNO MEDINA at 9:53 AM
Segunda-feira, Abril 12, 2004
Jean divertiu-se imaginando qual seria a reação de Claire ao acordar sozinha. Sair da casa dela na calada da noite poderia até soar de alguma forma desrespeitoso, mas a verdade é que ele simplesmente não deseja correr o risco de ver nos olhos dela que era estranho estarem juntos novamente pela manhã. Dormiu bem em sua cama e acordou pensando em Olívia; agora era tempo de imaginar como seria revê-la depois de ter estado com Claire. No início da tarde estava de volta a faculdade e lá a encontrou sentada na primeira fila e não mais na terceira, como tinha sido costume nas últimas aulas. Isso poderia significar que tudo havia voltado ao normal ou que a moça sentia necessidade de estar mais próxima dele. É um fato quase que comprovado cientificamente que as mulheres pressentem a presença de outras mulheres e talvez alguma coisa em Jean, que nem ele mesmo sabia, denunciasse que ele tinha estado com Claire. Acabada a aula Olívia permaneceu sentada, como já era de se esperar, e os dois novamente conversaram:
-- E então, Olívia, como foi o seu final de semana?
-- Foi muito bom, Jean, estive com meus pais, viajamos para o interior. O clima do campo sempre me acalma, ameniza minhas angústias, meus pensamentos... e o seu final de semana, como foi?
-- Foi bom também, foi agradável -- respondeu Jean querendo mudar de assunto.
-- E então, podemos fazer alguma coisa agora?
-- Sim, podemos, vamos sair para jantar.
Jean estava bastante confuso. Respondeu que sim para Olívia impulsivamente, mas na verdade não tinha certeza que queria estar com ela. Convida-la para jantar parecia um reflexo de culpa por ter estado com outra. A noite com Claire havia sido muito boa, e o fez lembrar da intensidade de sentimentos que havia entre eles e de como aquilo tudo ainda significava bastante. Começou a sentir-se muito mal por estar com Olívia, porque não queria usa-la como contraponto, não queria transforma-la meramente numa resposta ao pouco caso de Claire, não era justo que a jovem servisse para preencher as lacunas que Claire deixava em sua vida. Mais do que isso, Jean sabia que Olívia nunca teria o seu amor e era claro que o mais sensato a fazer seria parar de encontrar com aquela moça. Jean percebeu isso no meio do jantar, enquanto Olívia contava o que havia ocorrido em seu final de semana no campo, ao lado da família. E ela era tão doce, falava da família com tanto carinho, parecia que tudo era tão certo em sua vida que Jean chegou a conclusão de que a moça não merecia ser envolvida numa história complicada como a que ele tinha com Claire. Terminaram de jantar e Jean levou-a até sua casa, Olívia imaginou que iriam para a casa dele, mas não fez perguntas e nem comentou nada. Beijou-o na entrada do prédio em tom de despedida, sabendo que provavelmente aquele jantar seria o último encontro dos dois. E Jean seguiu para sua casa com o peso tirado das costas.
Iniciava-se o mês de novembro e o inverno aos poucos chegava em Paris. A cidade escurecia, as pessoas se vestiam melhor, e isso combinava tanto com Claire, parecia que ela estava presente em todos os lugares, começava a sua temporada, o inverno era definitivamente sua estação. Esse era o último mês de aulas no curso em que Jean lecionava, outra turma viria e não seria mais necessário estar frente a frente com Olívia todos os dias, e isso o confortava. Seria melhor para os dois não se verem mais, principalmente para ela, porque Jean desconfiava que o envolvimento da moça havia sido maior do que deveria. Os dias se passavam e Olívia agia normalmente e de fato cabe destacar a maturidade da moça, que em momento algum relaxou o cuidado que tinha para não trazer problemas para Jean. A cada dia ela tornava-se mais apenas uma aluna, parecia ter entendido perfeitamente que o que havia entre eles não poderia ir muito além, e se conformava com isso. Claire ainda não havia comentado nada sobre a noite em que ele deixara sua casa sorrateiramente. Talvez porque essa fosse uma atitude que ela própria poderia ter tomado e no mais eles já estavam acostumados com os pontos de interrogação que permeavam a relação. Chegava até a irritar Jean a indiferença de Claire e o fato dela não ter solicitado maiores explicações sobre o que exatamente havia o motivado a sair de sua cama daquela forma, o que também o levava a concluir que essa tinha sido realmente uma decisão acertada.
Já fazia mais ou menos umas duas semanas que não se falavam e Jean percebeu que o próximo passo deveria ser dele, resolveu então ligar para Claire e marcar um encontro. Em poucas horas ambos estavam caminhando juntos na beira do rio Sena rumo a um restaurante onde jantariam e conversariam. A falta de intimidade que o tempo tratou de criar se desfez com o frio daquela noite, que os obrigava a estarem muito perto um do outro. O vento cortante parecia desestimular qualquer iniciativa de diálogo, mas Claire conseguiu transpor essa barreira e pôs-se a falar:
-- Jean, acho que estou mudando.
-- Sempre estamos mudando, o tempo todo, mas o que te leva a dizer isso?
-- Não sei, acho que nossa convivência e a forma como tudo se dá em nossa relação estão transformando minha maneira de ver o mundo. Mas pode ser que seja só impressão, pode ser que eu esteja querendo ver mudanças em mim que de fato não estão ocorrendo. É porque você o tempo todo me cobra que eu mude e eu posso apenas estar tentando te agradar, estar a altura das suas expectativas. A propósito, porque você deixou minha casa no meio da noite naquele dia?
-- Achei que você nunca iria perguntar! Eu pensei que você não gostaria de me ver na sua cama, ao seu lado, quando acordasse...
-- E o que te fez pensar isso?
-- Você mesma me disse que sentia falta de privacidade, que precisava ver-se sozinha para se sentir à vontade, preferi não forçar uma situação desnecessária. No entanto acho que sair da sua casa no meio da noite não se parece com uma atitude minha. Porque é frio, e é algo que poderia ter sido evitado com uma conversa. Acho que estou abrindo mão de conversar, de expor meus pontos de vista, e penso que isso se deve a convivência com você. Assusta-me porque não quero deixar de sentir as coisas do jeito que eu sentia, essa é uma lição que me recuso a aprender, você entende?
-- Entendo. Mas não impute a mim as coisas que mudam em você, nós dois escolhemos viver essa história, escolhemos estar aqui hoje, e isso pouco tem a ver com o outro, mas sim com nós próprios.
-- Claro. Existe um ditado que diz que só fazem conosco aquilo que nós mesmos permitimos. E, se às vezes eu tendo a pensar que você me causa sofrimento, sei também que este poderia ser evitado se eu realmente desejasse. Eu poderia me afastar em definitivo de você, por exemplo.
-- E porque você não faz isso? -- perguntou Claire já sabendo qual seria a resposta.
-- Porque eu sempre acredito que vamos nos entender, que as coisas vão melhorar. Já faz quatro meses que nos conhecemos e já passamos por muitas fases, por muitos estágios, por muitas sensações. Penso que em nome de tudo isso vale a pena continuar tentando. Mas é difícil. Porque somos pessoas muito diferentes e nossas diferenças pesam.
-- Sim, pesam. Desde nosso último encontro andei pensando e cheguei a conclusão que você é muito diferente de mim e de meus amigos. Existem certos assuntos que não posso conversar com você.
-- Meu Deus, como isso é estúpido! Claro que existem assuntos que você não pode conversar comigo, assim como eu também tenho assuntos que não te interessariam ou sobre os quais você não saberia opinar! E é pensando nisso que você considera que não encaixamos? Como se nossa relação fosse uma ciência exata ou um quebra-cabeça? -- disse Jean claramente irritado -- porque sinto que quando ficamos juntos um tempo, quando é bom, você começa a me julgar e a reparar em todos os meus defeitos. Quando você percebe que começo a fazer mais parte de sua vida é com se eu precisasse ser testado severamente para que você saiba se eu sirvo ou não. Mas quando o teste se inicia a relação se tenciona, piora, e então você acaba concluindo que não temos muito em comum. Você não consegue perceber que essa é uma forma implacável de auto-sabotagem? Quanto mais eu me aproximo mais perigoso eu me torno. Claire, eu não quero ser uma ameaça, porque você insiste em me ver assim?
-- Jean, essa é minha forma de agir, eu te disse que eu era complicada, na primeira vez em que estivemos juntos, porque você não acreditou? Pode ter a ver com minhas outras relações, pode ter a ver com você especificamente, não sei.
-- Por que você não me deixa fazer parte da sua vida?
-- Porque não sei se eu quero, eu não sei o que eu quero na verdade.
-- Nossa, às vezes me parece que você gosta de ter problemas, como é possível saber tão pouco sobre suas próprias vontades?
-- Já estou acostumada a viver assim, não creio que seja possível mudar isso.
-- Acho que você gosta de viver mal, só não sei porque. Viveria muito melhor se derrubasse esse muro que te separa do mundo real. Você fica do outro lado, olhando tudo como se estivesse numa trincheira, se defendendo de um possível ataque, como se as pessoas pudessem ou quisessem te fazer mal. Quando temos um problema específico com alguém é sempre melhor se aproximar, resolver, ao invés de criar um abismo, porque à distância as palavras se perdem.
-- Talvez você realmente tenha razão.
O momento de vulnerabilidade de Claire inspirou-o a contá-la sobre Olívia. Porque foi exatamente a distância que Claire insistia em manter o que o jogara nos braços de outra mulher. Contá-la que havia se envolvido com outra pessoa não se tratava de um ato de crueldade, mas sim uma forma eficiente de mostrá-la o que estava em risco, o que poderia se perder diante de tamanha falta de certezas. Jean encantou-se com Olívia porque precisava estar com alguém que acreditasse no amor, o pessimismo de Claire fazia-o mal. Fazia-o mal também viver numa relação de regras pouco claras, e essas regras nunca mencionaram o envolvimento com terceiros. A verdade é que nunca tiveram um compromisso oficial, mas mesmo assim Jean achou justo que Claire soubesse a verdade:
-- Claire, eu me envolvi com outra pessoa -- disse Jean com firmeza e em tom de lamento.
posted by BRUNO MEDINA at 5:43 PM
Quarta-feira, Abril 07, 2004
-- E então, Jean, o que diz? -- perguntou Théodore com a curiosidade de quase uma semana.
-- Diz que Claire precisa falar comigo -- respondeu secamente Jean
-- E você? Não precisa falar com ela?
-- Não sei. Tanto já foi dito, tenho sempre a impressão de que é preciso viver ao invés de teorizar. Claire me parece sincera ao dizer que sentiu minha falta, e isso é positivo porque normalmente ela perde muito tempo investigando as sensações e não percebe o caráter volátil que essas possuem. Parece-me uma evolução também dizer que sofreu por minha causa, porque ela dificilmente deixa transparecer qualquer coisa relativa ao coração. Tenho que encontra-la, vai ser importante para nós dois.
Jean sentia que queria encontrar Claire novamente. Era difícil, porém, perceber nele um desejo de compara-la a Olívia. Parecia-lhe um sentimento mesquinho, mas era absolutamente compreensível que depois de se relacionar com Olívia ele pudesse perceber Claire de uma outra maneira. No mais sentimentos mesquinhos não lhe chocavam tanto depois que voltara de Nova York, talvez fosse mais justo referir-se a eles como sentimentos humanos. E repleto de humanidade Jean foi encontrar Claire. Tocou a campainha de sua casa fazendo a mesma surpresa que já fizera tantas outras vezes. Dessa vez a moça atendeu a porta mais contida, era possível perceber um certo receio em seu olhar, como se o que fora vivido entre eles estivesse passível de nova regulamentação:
-- Olá Jean, até que enfim você apareceu. Entre.
-- Se você não se incomodar prefiro conversar num lugar público, um bar talvez.
-- Como quiser. Está com medo de alguma coisa? -- perguntou Claire ironicamente
-- Não, quem costuma ter medo é você, só não me sentiria bem de ter essa conversa com você na sua casa agora, prefiro um lugar neutro.
-- Lugar neutro? Trata-se de uma batalha?
-- Sempre...
-- Vejo que você está rancoroso...
-- Conversemos sobre isso no bar.
E os dois partiram para um bar muito próximo a casa dela, até porque o clima de funeral não poderia se estender até a próxima quadra. Sentaram no bar e puseram-se a desatar o nó:
-- Pois bem, você me chamou e aqui estou -- disse Jean acomodando-se na cadeira como quem se prepara para ouvir um longo discurso.
-- Nossa, você está diferente, não parece o Jean que conheci.
-- Esse é o ponto, o Jean que você conheceu não existe, faz muito tempo. Esse novo Jean pensa e age diferente.
-- Olha Jean, eu não vim aqui para brigar. Quero conversar com você, estou surpresa com sua reação, você está agressivo.
Jean percebeu que não contribuía muito para a situação implicar com Claire, decidiu tentar agir naturalmente, sem rancor, e esperar que a conversa se encaminhasse sozinha. Porque sabotar era uma atitude infantil. Se ele não suportava mais a moça era melhor que não estivesse ali, e ele sabia que não era o caso. Claire percebeu a brecha que teve e começou seu show; sabia que era momento de reconquistar Jean, e ela normalmente era muito competente nessa função.
Só que dessa vez Jean estranhava tudo, inegavelmente ter conhecido Olívia mudara sua forma de ver a si mesmo naquela situação. Claire falava sobre artes plásticas, cinema, literatura, música, arquitetura, política e relações pessoais com a mesma petulância e inteligência que o encantavam, mas era tão densa e tão cheia de si. E isso que um dia já chegou a ser um atributo hoje o incomodava. Claire segurava um cigarro na ponta dos dedos e bebia, discursava com tanta propriedade, vestida de preto, parecia tão fechada para o mundo exterior, tão indisposta a absorver. Jean lembrava de Olívia e seus olhos brilhantes, seus braços abertos em paralelo dispostos sobre a mesa da sala, sua cabeça levemente inclinada, querendo ouvir tudo, querendo saber de tudo, querendo abraçar o mundo com as pernas, fazer parte dele. Claire não queria fazer parte do mundo, queria ter o seu próprio, onde estivesse salva das pessoas, dos julgamentos e dos sentidos.
Ela continuava a falar e pedia a opinião de Jean, que já não conseguia prestar atenção no que era dito e sim na forma como era dito. Claire pareceu-lhe chata, dissertando sobre suas crises, sobre suas angústia, Jean sentia que sua energia era sugada pouco a pouco naquela mesa de bar. A sua alegria e o seu otimismo eram insuficientes para os dois e sempre fora assim, ele constatou. O tempo passava e Jean agora só queria sair dali, precisava absorver tantas mudanças ocorridas nele próprio. Claire percebia que dessa vez seus truques precisariam melhorar, sentia-se impotente com o não envolvimento de Jean:
-- Vamos pedir a conta -- disse ele.
-- Está bem, vamos embora.
E os dois caminharam novamente em silêncio até a porta da casa de Claire:
-- Então até logo, Claire -- ela permaneceu parada e sorriu, como se não acreditasse que Jean desejasse realmente ir embora.
-- Você quer mesmo ir embora Jean? Tem certeza que não quer entrar? -- disse Claire com a cara mais inocente e despretensiosa que conseguira fingir.
-- Sim, é melhor que eu vá...-- nesse momento Claire foi se aproximando dele, olhando o nos olhos e abraçou-o. Jean manteve-se inerte, sem retribuir o abraço. Claire então partiu para o último recurso que lhe restava, o beijo. A essa altura Jean já se esforçava muito para manter-se firme, mas depois do beijo isso se tornou impossível e ele acabou entrando na casa de Claire.
Dessa vez, no entanto, estar com ela pela primeira vez tinha um sabor de derrota. Jean sentia que havia fraquejado, que o certo seria ter seguido dali para sua própria casa e dormir sozinho aquela noite, mas o que acabou acontecendo fora imposto por seu desejo. Abrir mão de convicções para saciar desejos faz parte dos tais sentimentos humanos, mas o perigo é quando estamos à mercê deles. Porque quem vive em função de satisfazer suas próprias vontades não tem tempo para plantar o que julga ser certo. E os desejos são insaciáveis, são fragmentos incompletos, insuficientes e sempre é preciso ter um pouco mais. Jean sabia que o melhor para sua vida era estar longe de Claire, isso agora era uma certeza, mas o difícil é efetivamente cumprir o que decide a razão. Porque a razão é distante, fria, não tem manejo com as palavras, não tem senso de oportunidade, é como um conselho de um parente chato. O coração é burro, irresponsável, e sabe que precisa de uma retórica emocionada para se fazer constante no campo das decisões. Foi o coração quem levou Jean para dentro da casa de Claire, a razão o esperava do lado de fora, para cobra-lo a consciência de seus atos ao sair pela manhã. E ela não se importa em esperar o tempo que for para proferir sua argumentação e convencer-nos que o melhor é investigar antes mesmo de sentir. Apesar das questões morais estar com Claire, fisicamente, havia sido bom como sempre. E enquanto tentava dormir Jean pensava no tênue equilíbrio que existe entre as forças, entre os pólos, entre os pensamentos e os sentidos. Estar ao lado de Claire numa cama já tinha sido seu paraíso e agora era seu purgatório. Jean preferiu sair no meio da noite e dormir em sua própria casa, porque se lembrara de que a moça costuma sentir falta de privacidade ao acordar. A cama era outra mas a pergunta era exatamente a mesma em sua casa: quem sairia vitorioso dessa vez? A razão ou o coração?
posted by BRUNO MEDINA at 10:12 AM
Segunda-feira, Abril 05, 2004
O problema era que não se tratava mais de uma escolha, a decisão já havia sido tomada. E mesmo que dessa vez a razão o condenasse Jean novamente aceitou a vida: decidiu abrir-se com Olívia. Era uma segunda-feira e ele passara todo o final de semana pensando na moça, convenceu-se que o melhor seria aborda-la depois da aula. Contava que ela daria um jeito de estar com ele a sós, como costumava fazer sempre, e dessa vez ele tentaria levar a conversa para longe do ambiente universitário. Findada a aula Olívia previsivelmente dirigiu-se a sua mesa:
-- Muito boa aula, Jean. Pena que não consigo desenhar nada convincente -- disse Olívia esperando receber um elogio.
-- Que isso Olívia! Seu estilo é suave, mas tem personalidade. Tenha um pouco de paciência porque o tempo a fará mais talentosa, porém menos condescendente com sigo mesma. -- disse Jean atendendo a solicitação.
-- Gostaria de fazer o tempo passar logo, me falta paciência para iniciar, para ver as coisas se desenvolverem, quero estar pronta logo, usufruir.
-- Acho que esse é um ímpeto comum a sua idade, em poucos anos você aprenderá a lidar com isso. E talvez nunca aprenda a amenizar essa sensação, eu, por exemplo, sou um pouco mais velho do que você e ainda sou assim. Podemos continuar conversando sobre isso em outro lugar...
-- Claro, Jean, onde você quiser...
Jean sentia que já não falavam mais da disciplina que lecionava e sim sobre eles próprios. Apesar disso sentia-se um patife por usar da condição de professor para levar Olívia para fora da faculdade. Era como um pecador que esconde a cruz para afastar os olhos de Deus de seus atos. Por mais tolo que parecesse Jean sentia culpa em abordar Olívia, principalmente dentro da sala de aula. Pesava a diferença de idade, a condição que os envolvia, a questão ética, mas tudo era também extremamente excitante. Jean carregou sua cruz até um bar e lá se sentou com Olívia, que alternava momentos de parecer saber do interesse dele e de não saber de coisa alguma. Talvez aquilo fosse só um jogo, talvez Olívia soubesse que a condição de aluna a fazia duas vezes mais interessante e se aproveitava disso para neutralizar a culpa de Jean. No bar a conversa fluía muito bem e a condição hierárquica que os envolvia já não pesava tanto. O que havia ali era um homem e uma mulher na iminência de se tocarem, buscando os caminhos que os levariam mais rapidamente ao corpo um do outro. Entretanto existia uma barreira, um impedimento, que era a consciência de Jean. Depois de algumas horas e algumas bebidas -- nesse dia Jean até bebera para aliviar a autocrítica -- nada de significativo havia acontecido e Jean decidiu que o bar já tinha cumprido sua função naquela noite. Saíram juntos ainda sem saber para onde ir e novamente o tempo estava jogando contra, Jean sabia que se não tomasse nenhuma atitude logo o constrangimento da situação levaria a moça embora, e tanto sua angustia quanto sua iniciativa teriam sido em vão. Andaram alguns minutos sem nada falar quando ao longe ouviram música:
-- Está ouvindo? -- perguntou Jean
-- Sim, parece música ao vivo, uma orquestra talvez.
-- Sim, de certo é uma orquestra. Boa música...
Mais a frente perceberam que tratava-se de um clube onde uma orquestra tocava animadamente. Havia muito movimento na porta e aquele lugar de repente tornou-se um oásis no meio da cidade.
-- Vamos dançar? -- perguntou Jean
-- Claro, vamos entrar!
E assim Jean ganhou mais tempo. O lugar não poderia ser mais propício: casais enamorados na pista de dança, meia-luz, músicas românticas para dançar junto. Jean e Olívia juntaram-se aos demais na pista e dançaram graciosamente. Apesar de não ser um grande dançarino, os pés de Jean moviam-se muito naturalmente quando olhava dentro dos olhos quase verdes de Olívia, parecia que estavam sincronizados pelos olhos. Era fácil saber o que fazer, o que viria em seguida, como se estivessem num filme, tudo em volta conspirava a favor deles. As preocupações, a cruz, o peso, nada do que o atormentara combinava com a poesia daquele momento. Os corpos colados, os olhos nos olhos, beijaram-se.
E a noite acabou na casa de Jean. O destino, que o trouxera para Paris por causa de Claire, pregou-lhe uma peça e fez Olívia ser a primeira mulher a deitar-se em sua nova cama. Ela preferiu não dormir por lá, foi embora no meio da noite, o que de certa forma até deixou Jean aliviado; seria um pouco constrangedor acordar com a aluna ao seu lado. No dia seguinte os dois se encontraram na faculdade, dessa vez Olívia sentou-se na terceira fila e não na primeira como de costume, e isso por si só já era muito esquisito. Jean passou todo tempo da aula pensando como seria quando esta acabasse. Será que Olívia ficaria para conversar dessa vez? Como se deve agir numa situação dessas? Como separar o homem do professor? Como não deixar que os outros percebessem o que estava acontecendo? E essa foi a maior aula do semestre. Jean retardou o término pelo quanto pode, não queria ter que enfrentar a situação de hesitação que viria com o fim da aula. Ao mesmo tempo preocupava-se em como Olívia se sentiria, não queria que a moça pensasse que a noite não significara nada pra ele, que ela fora usada, ou que ele tinha o costume de levar alunas para sua cama.
A aula teve que acabar e Olívia permaneceu sentada em sua cadeira, deixou que todos os alunos fossem embora. Jean manteve-se também na sala olhando para seus papéis, demoradamente arrumando sua pasta, esperando que ela tomasse a iniciativa do contato:
-- Bela aula, Jean, um tanto longa, talvez -- disse Olívia divertindo-se com o evidente constrangimento do professor.
-- É, hoje eu me excedi um pouco mesmo. Mas e você como vai?
-- Vou bem, e você?
-- Estou bem também. Interessaria-lhe um outro encontro?
Olívia instintivamente olhou para a porta da sala que estava fechada.
-- Sim, me interessaria um outro encontro -- respondeu Olívia sorrindo, provavelmente achando graça na formalidade de Jean.
-- Percebo que você também se incomoda com nossa condição aqui dentro.
-- Me incomoda porque incomoda a você, sei que é uma situação delicada.
-- Então vamos sair daqui, porque lá fora não devemos nada a ninguém.
E os dois novamente saíram juntos. Passearam pela beira do rio vendo a noite cair e a cidade se acender. Sentaram-se em uma ponte e por lá ficaram conversando, vendo os barcos e as pessoas passarem por horas. O tempo voava quando estavam juntos, a conversa era tão leve, tão relaxada, não havia aquele clima de apreensão e incertezas presentes nas conversas com Claire. A semana passou e estiveram juntos quase todos os dias. Olívia era absolutamente transparente, era possível enxergar através dela, e não havia nada a temer, a não ser o crescente interesse da moça por ele. Ela esteve algumas vezes mais em seu apartamento, e um dia acabou dormindo por lá. Acordaram abraçados, como um casal, e isso o assustou profundamente.
Por mais que Olívia fosse uma moça encantadora, Jean sabia que o que tinham até agora dificilmente apontaria para um relacionamento. Tudo que o encantava em Olívia era exatamente o que o afastava dela, porque Jean não mais conseguia ver o mundo com os olhos que ela via. Sua clareza cristalina, sua transparência, seu brilho lhe doíam a vista. Sentia falta das sombras. O Jean pós-Claire e pós-Nova York havia acostumado-se com as sombras, com a falta de certezas, sentia falta do jogo, da angustia que o remexia por dentro. A verdade é que Olívia nunca chegaria até seu coração, e isso era realmente uma pena. Jean olhava-a dormir, linda e provavelmente sem consciência da crise que lhe atingia. Decidiu que deveria reduzir o contato com a moça, para o próprio bem dela e no fim de semana resolveu passar na casa do amigo Théodore:
-- Como vai amigo?
-- vou bem, e cheio de novidades como sempre. Sente-se que já te conto tudo -- respondeu Jean
-- primeiro eu, então -- Théodore abriu uma gaveta e puxou uma carta -- tome, é para você, deixaram aqui há uns cinco dias. Decidi não te falar nada. Sei que você está tentando reconstruir a sua vida e talvez o conteúdo dessa carta incida sobre isso. Esperei que viesse me procurar para entrega-la a você, aí está.
Pela letra no envelope tratava-se de uma carta de Claire, Jean rasgou o envelope e seu coração se acelerou:
Querido Jean:
Pelo visto nosso último embate causou conseqüências maiores. O fato de não sermos mais namorados não significa que não sinto a sua falta, ou que seja possível tira-lo de minha vida de uma hora para outra só porque isso é o mais prudente a ser feito. Você mesmo me disse que a prudência era uma palavra que não combinava com nossa situação e por isso mesmo agora sou imprudente ao te escrever. Não sei mais o que se passa em sua vida, faz semanas que não nos falamos. Hoje é meu aniversário e passei o dia em casa, chorando e bebendo, pensando em minha vida e nas coisas que me impedem de ser feliz. Gostaria de ter falado com você hoje, mas ninguém atendeu na casa do seu amigo, nem sei se você ainda está aí ou em Marseille. No seu apartamento ninguém atende também, onde você está? Resolvi te escrever porque não vejo outro jeito de dizer que sinto que precisamos conversar. Por favor, quando receber essa carta entre em contato comigo.
Um beijo,
Claire.
posted by BRUNO MEDINA at 10:54 AM
Sábado, Abril 03, 2004
Já era de costume que Jean se surpreendesse com as atitudes de Claire, mas dessa vez, por mais otimista que fosse, não poderia imaginar tal situação; Claire havia o pedido em namoro. Isso contrariava todas as crenças dela, todas as expectativas dele, todas as regras estabelecidas, ele mesmo se prometera nunca mencionar essa palavra. Porque palavras e termos têm o dom de estragar o que na prática funcionam bem. Dizer que a relação deles funcionava bem talvez fosse um pouco de exagero, mas de certo não precisavam de mais problemas. Era preciso ser otimista, a iniciativa de Claire fora admirável e era possível que a partir disso ela pudesse se permitir mais, no entanto era fundamental acreditar. Jean guardou a carta e partiu imediatamente para a casa dela:
-- Olá namorado -- disse Claire ao abrir a porta. Ela já o esperava e sorria como timidez, como quem fizera algo de reprovável.
-- Então quer dizer que somos namorados? -- perguntou Jean abraçando-a.
-- É, acho que sim.
-- E agora, sendo namorados, o que fazemos?
-- Vamos consumar nosso namoro!
Os dois partiram para o quarto e essa vez foi melhor do que todas as anteriores. É incrível a força de transformação que uma palavra pode adquirir, mas o simples fato de Claire ter baixado sua guarda e ter se permitido perder o controle da situação já fazia tudo ser muito mais prazeroso. E eram ótimos os dias como namorados. Jean dava suas aulas pela manhã e a tarde fazia outros trabalhos, não pelo dinheiro, mas sim porque era necessário manter-se presente no mercado e, por mais prazer que tivesse em lecionar, lhe fazia falta o desafio da antiga profissão. Ele continuava estabelecido na casa de Théodore entretanto às vezes dormia na casa de Claire.
Aos poucos se sentia mais confiante em ser professor e a verdade é que vinha desempenhando um bom trabalho. Os alunos eram muito interessados e sua intuição tratava de preencher qualquer lacuna do aprendizado em Nova York. Aos poucos se estabelecia também uma rotina com Claire: almoçavam juntos, passeavam a tarde, havia dias que não se viam devido aos compromissos dela, e assim se passaram duas semanas. Apesar da melhoria que a oficialidade trouxera à relação, eles ainda tinham seus problemas, Claire era uma namorada diferente das outras que Jean havia tido. Ela tinha muita dificuldade em demonstrar sentimentos e por vezes transparecia o esforço que estava fazendo para adaptar-se a nova condição. Jean fingia que não via para dar-lhe o tempo necessário, talvez ela nem quisesse falar sobre suas questões, bastaria o tempo passar para que tudo ficasse bem, e dessa forma algumas brechas se abriram no muro que pretendiam construir juntos. Jean acompanhava o que acontecia calado, quando muito confiava ao amigo Théodore um desabafo e este lhe dizia para ter paciência. Mais alguns dias se passaram e os silêncios começaram a incomodar, era nítido que precisavam conversar, mas Jean esperou que Claire tomasse a iniciativa. Uma manhã acordou no apartamento subterrâneo e ela o observava dormindo, seus olhos queriam dizê-lo alguma coisa, Jean antecipou o assunto:
-- O que foi Claire? Não quer mais brincar disso? -- ela respondeu positivamente com a cabeça.
-- Jean, não me sinto preparada para desempenhar esse papel de namorada. Sinto-me obrigada a agir de uma determinada maneira, a ter hábitos que não quero ter, obrigações, não gosto dessa palavra.
-- A que obrigações especificamente você se refere?
-- Sinto que é conveniente que nos vejamos todos os dias e às vezes eu simplesmente quero estar sozinha ou sair com minhas amigas...
-- Claire, foi você quem me pediu em namoro. Eu mesmo havia me prometido nunca propor nada semelhante porque sei que você teme qualquer palavra que pertença a esse grupo. Francamente o nome que nossa relação tem não me interessa, e os termos para nada servem a não ser justificar algo para quem não importa e quase nada para os verdadeiros envolvidos.
-- Pois então me sinto mais confortável sem o status de namoro. Eu sei que fui eu mesma quem inventou tudo isso, eu estava tentando, mas não consegui.
-- Está certo, não somos mais namorados a partir de agora, mas somos o que então?
-- Não sei, Jean. O que éramos antes disso?
-- Não sei também. Talvez seja melhor que nos afastemos para conseguirmos enxergar a situação de fora. Eu preciso ir a Marseille, vou pedir uns dias no trabalho, pois não estive lá desde que voltei de viagem. Quando eu voltar nós conversamos de novo, está bem assim?
-- Sim, está bem, eu acho...
Jean saiu da casa de Claire e passou na faculdade para pedir dois dias de dispensa. Juntando com o final de semana teria ao todo quatro dias para organizar sua vida em Marseille. Partiu de trem e chegou no mesmo dia, no final da tarde. Seu antigo apartamento estava bastante sujo e cheirava a mofo. Jean começou então a fazer uma grande faxina e aos poucos constatava a pouca relação que tinha com aquele lugar, que sua vida estava enraizada em Paris e que estar de novo naquele apartamento, quase dois meses depois, parecia uma volta ao passado. Era possível também perceber que sem sua grande mala, que ficara na casa de Théodore, poucos bens lhe restavam. Alguns objetos de decoração, poucos móveis, um resíduo de objetos pessoais, nada que fosse de fato relevante. Jean sentiu que sua vida, que sua história, agora pouco tinha a ver com o que estava ali dentro.
No dia seguinte acordou cedo e levou tudo que pode de uma só vez para a casa dos pais, o que achou que ainda poderia precisar colocou dentro de uma mala e levou de volta para Paris. Porque não havia reflexão nenhuma a ser feita em Marseille, era tempo de olhar pra frente e seu futuro decididamente não estava mais ali. Voltou nesse mesmo dia para a casa de Théodore e no dia seguinte mesmo já procurava um lugar só seu em Paris. Com algum custo conseguiu encontrar um apartamento bastante agradável, ali mesmo em Châtelet. De certo não era grande, mas comportava bem seus pertences. Havia janelas do teto até o chão por onde entrava bastante luz e isso era fundamental para desenhar. Uma pequena sala, um quarto menor ainda, era mais do que suficiente. Fechou negócio com a corretora, pegou suas coisas na casa do amigo e a partir desse momento tinha um lar em Paris. Olhando para o apartamento praticamente vazio Jean deu-se conta de que aquele era um desses raros momentos na vida onde é possível reconsiderar, repensar a trajetória, começar de novo, era nítido que outra etapa se iniciava. Ver aquele espaço livre de qualquer atributo que o definisse remetia a ele próprio e ao que poderia ser feito com sua vida.
Na compra dos móveis, na decoração da nova casa, na cidade que escolhera para morar, estaria estampado o novo Jean, aquele que voltara de Nova York consciente de si mesmo, aquele que havia percebido que o melhor e o pior da vida caminham lado a lado e que agora sabia que precisaria abandonar o passado em nome de suas novas convicções. Naquele novo apartamento não haveria mais lugar para a angustia, pelo menos a que fosse causada por Claire. Que viessem novas angustias então, essas seriam aceitas, mas a grande meta, o grande objetivo a ser atingido, era andar para frente, e não mais para o lado. Na semana seguinte dedicou-se integralmente a ocupação de sua nova morada: comprou móveis, decorou as paredes, ocupou os armários, todos os espaços, os cantos, comprou plantas e o resultado ficou bastante satisfatório. Paralelamente seguia dando aulas e não mais temia a condição de professor.
Passada a apreensão inicial do primeiro mês era possível agora interagir com os alunos, trocar experiências, contar casos, e as aulas tornaram-se ainda mais prazerosas. Era possível para ele agora até perceber o interesse especial de uma certa aluna, seu nome era Olívia. Recobrando a memória, Jean lembrou-se de que desde os primeiros dias de aula ela se sentava na primeira fila, sempre fazia perguntas interessadas, sempre continuava na sala depois do término das aulas. Por mais que outros alunos também fizessem o mesmo, ela se destacava. O professor cedeu lugar então ao homem e Jean constatou o óbvio, o que não quis ver durante todo o tempo: Olívia interessava-se por ele e não por suas aulas.
Nos dias que se seguiram a essa constatação foi impossível não notar a moça. Jean preocupava-se, entretanto, em não deixar transparecer sua curiosidade para os demais alunos, não desejava nem que Olívia percebesse que se tornara o centro de suas atenções, a ética não permitia. Mas a moça era inegavelmente encantadora; devia ter no máximo vinte e dois anos, e a pouca vivência estampada em seu rosto tornava seu olhar irresistível. Olívia de certo não sabia o que podia despertar num homem, não podia saber, porque sua candura era absolutamente natural e por isso extremamente envolvente. A forma como cruzava as pernas, como se vestia, o olhar permeado de inocência e interesse, se Olívia tinha noção do que ocorria era fato que conhecia muito bem suas armas de sedução. As conversas depois das aulas assumiram uma outra conotação, sim, Olívia sabia do interesse de seu professor. E enconstava em seu braço, exagerava no perfume, debruçava-se sobre a mesa, desrespeitava a distância sugerida pela condição de aluna, falava de perto com seus longos cabelos estirados sobre a mesa, Jean estava absolutamente envolvido.
Por mais que ainda sentisse alguma coisa por Claire aquela moça era tão leve, tão feliz, tão harmoniosa que era impossível não fazer comparações. Olívia talvez ainda não tivesse sofrido o suficiente, não trazia no rosto as marcas da vida e por isso era tão bela. Certamente desconhecia as artimanhas do amor e a gama de sentimentos e sofrimentos que só a idade e as experiências são capazes de trazer. A sua companhia lembrava-o daquele antigo Jean e, por mais que soubesse que não era possível voltar atrás, que nem queria e nem poderia ser o mesmo de antigamente, Jean via com ternura o que um dia fora e reconhecia em Olívia as mesmas convicções, as mesmas dúvidas e as mesmas certezas que um dia tivera. E era bom sentir-se assim porque ele havia se afastado um tanto daquela deliciosa inocência. As experiências vivenciadas com Claire certamente o fizeram uma pessoa mais preparada para enfrentar o mundo, e isso era bom, mas também era bom não ter tantas certezas como Olívia ou como o Jean do passado. E quanto mais conhecia a moça mais se encantava, mais se interessava e mais a desejava.
Comparativamente não era possível saber qual das duas, Claire ou Olívia, era a mais bela. Até nisso essa experiência era fascinante; Olívia representava a beleza pueril, suas formas eram perfeitas, seu rosto tinha traços delicados, vestia-se de uma forma alegre porém discreta. Era risonha, bem humorada, carinhosa, esbanjava satisfação pela vida, olhava tudo por uma perspectiva otimista. Claire possuía uma beleza sedutora, seu rosto tinha traços fortes, vestia-se com sobriedade, cores escuras, elegância. Era irônica, inteligente, intrigante, uma companhia instigante porque sua sedução estava nas palavras, nas ausências, no conhecimento. Eram muito diferentes as duas. Mas o fato é que Jean se cansara dos atributos de Claire, esses ele já conhecia bem, agora era tempo de vivenciar o novo, e o novo estava representado por Olívia. Mas como se livrar da culpa, da reprovável situação de estar interessado por uma aluna? Havia ainda Thierry e a última coisa que Jean desejava era trazer problemas para o amigo que o ajudara tanto. E se todos soubessem de seu caso? Como ficaria seu futuro profissional, que marcas aquilo traria para Olívia?
Jean passou os dias seguintes tentando evitar contato com a moça, mas havia uma força, algo como um campo gravitacional, na primeira fila de cadeiras da sala de aula que quase podia ser percebido no ar. Olívia olhava-o lascivamente cobrando dele uma atitude, uma iniciativa e Jean agora mal conseguia se concentrar no que dizia: perdia-se no meio das explanações, repetia o que acabara de ser dito, deixava perguntas sem resposta, alguns alunos nitidamente percebiam que algo estava errado com o professor. Sua conduta profissional estava seriamente ameaçada porque o desejo por Olívia o consumia de forma tal que a qualidade de suas aulas inegavelmente já não era a mesma. Então a escolha que tinha a fazer era muito clara: ou Jean tratava de esquecer a moça ou cedia aos seus encantos e aceitava as conseqüências.
posted by BRUNO MEDINA at 12:06 PM
Terça-feira, Março 30, 2004
Jean abriu sua mala, pegou a primeira roupa que saltou para fora e foi, todo amarrotado, encontrar seu futuro chefe. Quando pisou de novo na faculdade já se sentia professor: cumprimentava os transeuntes com a cabeça, sorria, preocupava-se com a postura, queria causar boa impressão.
-- Jean, até que enfim você voltou! -- disse o amigo Thierry abraçando-o.
-- Sim, voltei, cheguei ontem mesmo.
-- E então, o que me diz de Nova York, do curso...
-- Foi tudo ótimo, um período de grande aprendizado para mim.
-- Sua matéria já foi inscrita na lista de disciplinas para esse semestre e tem sido bastante requisitada pelos alunos, acho que será um grande sucesso!
-- Espero que o professor esteja à altura de tanto interesse -- interveio Jean.
-- Tenho certeza que estará. Bom, o semestre começara amanhã, sua primeira aula será daqui a dois dias, está preparado?
-- Sim, estou, quero começar o quanto antes.
-- A propósito, você já se mudou definitivamente para Paris?
Essa era uma pergunta difícil de responder. Jean havia fechado seu apartamento em Marseille sem pensar muito em como seriam os próximos meses de sua vida. Claire surgiu e ele não teve tempo de pensar em nada, que precisaria, por exemplo, de um lugar para morar em Paris por ocasião do novo emprego. O amigo Théodore certamente poderia prestar-lhe alguma ajuda, mas era preciso encontrar um lugar para morar efetivamente. Saiu da faculdade concentrado nesse propósito, resolveu até comprar o jornal para olhar as ofertas. No caminho constatou que não havia conversado com Claire sobre sua permanência no apartamento subterrâneo; chegou com a mala, que ainda repousava na sala, e nada falou sobre o tempo de permanência, ela também não lhe perguntou, precisavam definitivamente conversar. A tarde passou rápido e Claire logo estava de volta em casa. A chave girou na porta, Jean aguardava-a sentado na poltrona:
-- Olá
-- Olá, como foi o dia?
-- Bem, bem, tudo correu bem -- Claire pousou a bolsa sobre a mesa -- mas então, o que você fez hoje?
-- Hoje eu fui à faculdade falar com Thierry, minha primeira aula é daqui a dois dias.
-- Que ótimo, muito bom.
A conversa estava estranhamente fria, o carinho do dia anterior tinha se esvaído. Claire não chegara perto dele desde que adentrou a porta, nem um beijo sequer, parecia preocupada:
-- Aconteceu alguma coisa, Claire?
-- Não exatamente mas acho que precisamos conversar.
-- Pois diga, o que é que a aflige tanto?
-- Jean, não me sinto bem com você aqui. Sua mala na sala, de repente parece que esse lugar deixou de ser meu, não sei. Não estou acostumada a receber pessoas em minha casa, em minha cama, eu preciso desse espaço, não sei se estou disposta a dividi-lo com alguém, entende?
-- Sim, claro que entendo -- Jean estava certo. A cena da chegada com a pesada mala fora de fato muito forte para Claire -- Está tudo bem, eu vou embora, vou para a casa de meu amigo Théodore aqui perto, não há problema. Perdoe-me por ter invadido sua casa dessa maneira abrupta.
-- Está tudo bem, Jean, não é uma grande coisa, só disse para que não nos desentendamos, mas você pode dormir aqui hoje se quiser e partir amanhã de manhã...
-- Não me sentiria confortável, prefiro partir agora mesmo.
-- Jean, você ficou chateado...
-- Não Claire, compreendo sua necessidade de espaço, eu que fui um estúpido.
-- Você não foi estúpido.
-- Talvez impulsivo -- disse Jean com uma leve ironia.
Essa era Claire, uma pessoa com muita dificuldade de fazer concessões. Devido a essa situação Jean apercebeu-se pela primeira vez que esse tipo de atrito seria constante na relação deles. Ele costuma ter fé no que o envolvia, mergulhava de cabeça, pagava pra ver e Claire hesitava, pensava, considerava. Eles possuíam naturezas diferentes, quase opostas e Jean não estava disposto a mudar esse aspecto de sua personalidade porque pensava que essa força, essa crença tão características dele, eram fundamentais para que as coisas funcionassem. Quando chegou em Paris poderia ter procurado um hotel, ou mesmo Théodore, entretanto preferiu a casa de Claire, porque achava que essa escolha dizia muito sobre ele e, conseqüentemente, sobre a sua forma de conduzir a vida. E se queria ter algo mais significativo com Claire, deveria mostrar-se logo como realmente era.
Jean partiu então para a casa de Théodore e quando este abriu a porta tomou um susto, pois fazia um bom tempo que não sabia do amigo.
-- Estou vindo de Nova York, agora sou professor e estou apaixonado -- disse Jean de uma só vez, os dois caíram na gargalhada.
-- O que é isso, Jean? E onde eu estava esse tempo todo? O que se passa em sua vida?
-- Calma, eu vou explicar...
Conversaram durante horas. Jean contou-lhe absolutamente tudo que havia acontecido nos dois últimos meses. Théodore ofereceu sua casa ao amigo, pelo tempo que fosse, e Jean aceitou ficar lá por alguns dias até encontrar um apartamento.
-- Mas que história...preciso conhecer essa moça -- disse Théodore ainda atordoado com tantas novidades.
-- Acredito que você vai conhece-la, não sei ao certo.
Jean passou os dias seguintes matando as saudades do amigo. Nesse tempo preferiu não entrar em contato com Claire, pois já estava acostumando-se com a sazonalidade da relação. Se ela precisava de espaço ou de tempo então o melhor que ele tinha a fazer agora era seguir sua própria vida, sem pressa de reencontrá-la, o acaso se encarregaria. Era difícil estar tão perto, no mesmo bairro, e não poder vê-la, mas afinal de contas a temporada em Nova York tinha servido para que Jean aprendesse a dominar sua saudade. No mais esses dois dias antes de iniciarem-se as aulas eram necessários para que se acomodasse na casa de Théodore, desfizesse as malas e se preparasse para o desafio de ser professor. E chegou finalmente o seu primeiro dia de aula na faculdade, Jean estava nervoso. Sabia que não podia desapontar Thierry e nem a ele mesmo. Acordou ansioso, muito cedo, e ficou decidindo qual blusa lhe imputaria maior respeitabilidade. Quando chegou a conclusão de que suas roupas não se pareciam com as de um professor, vestiu uma blusa qualquer e seguiu para a faculdade.
Passou na sala de Thierry, conheceu os colegas e em seguida dirigiu-se para sua sala de aula. A turma aguardava-o em silêncio; eram todos jovens, pouco mais jovens do que ele, e a princípio sentiu um calafrio, não sabia o que dizer exatamente, tinha medo de ser descoberto como impostor. Mas aos poucos foi se lembrando dos ensinamentos do curso, da confiança que o amigo Thierry depositava nele e sua primeira aula seguiu sem maiores complicações. Ao final estava satisfeito e aliviado, certo de que aquela nova atividade poderia tornar-se uma paixão. Animava-o pensar nas próximas aulas, no que ensinaria para seus alunos, e assim uma semana passou. Agora sua vida profissional havia tornado-se prioridade e Claire estava em segundo plano. Essa situação perdurou até que um sonho mudasse tudo; Jean acordou de sobressalto, no meio da noite, e pensou em Claire e na distância que havia entre eles nesse momento: um abismo imensurável ou apenas duas ruas para a esquerda? Tomado ainda pelo sono Jean resolveu escrever-lhe uma carta:
Estimada Claire:.
Hoje acordei querendo escrever a carta mais bonita do mundo. Munido de algumas boas frases e bastante pretensão não tive outra opção a não ser dar vazão a esse desejo. Dessa vez as idéias não estão tão claras como de costume, e essa é exatamente a melhor das matérias-primas para grandes textos, o não saber onde se quer chegar. Queria saber relativizar melhor os termos, o juízo, as expectativas a serem frustradas, mas no fundo concluo que não. Concluo que criar expectativas faz parte da minha vida, é gostoso, e frustrar essas expectativas faz parte do jogo. Mas que jogo? Não sei, deve haver algum. Às vezes em relação a você me sinto como o tripulante de 2001-Uma Odisséia no Espaço, vagando na órbita da terra, em silêncio. Sou um personagem do Kubrick, talvez eu seja o monólito. Talvez eu seja tão antigo e tão resistente que vou passar por eras e eras, sem que ninguém entenda exatamente o porquê da minha existência. Eu entro e saio de relacionamentos assim, como um mármore preto: rígido e frio. Eu trafego em sua órbita porque onde vc está não há gravidade. Não é possível pisar em seu solo, nem fazer experimentos com seus minérios, você não permite. De tão sensível, tem medo das minhas pegadas, ali, marcadas sem nenhum vento pra levar.
Eu concordo com você, Claire, concordo mesmo. Tudo que você me disse sobre ter seu espaço na última vez que nos encontramos foi muito sensato. Estou aqui te dando o tempo que você precisa para digerir tanta novidade. Acabei de ter um sonho e esta é a razão pela qual te escrevo agora. No sonho eu entrava num quarto e havia uma menina deitada no escuro, pairava um clima triste no ar. A menina estava de bruços, e eu puxei-a pelos ombros a fim de dizer-lhe algumas palavras de conforto, eu tinha certeza que era você, mas não era. Tratava-se de uma menina por quem me apaixonei na faculdade e com quem já não falo há anos. Acordei com a nítida impressão de que esse sonho foi uma mensagem: resolva tudo o quanto antes, não crie fantasmas, então eu resolvi escreve-la. Quero estar bem com você portanto deixe-me conhece-la e prometo esforçar-me para compreender seus sinais. Uma relação não se torna forte de um dia para outro, tenha paciência e permita-se tentar e errar também, é o que vou fazer daqui. Agora o próximo passou é seu: no envelope encontra-se o endereço e o telefone de onde estou, procure-me quando quiser.
Um beijo,
Jean
Jean nem esperou amanhecer, assim que acabou de escrever colocou a carta por baixo da porta do apartamento de Claire e voltou a dormir. A resposta veio no dia seguinte: na caixa de correio de Théodore um envelope azul endereçado a ele com a seguinte inscrição em letras pequenas:
Jean, quer namorar comigo?
posted by BRUNO MEDINA at 4:09 PM
Segunda-feira, Março 29, 2004
Sim, era possível, e Jean desceu em Paris. Ao sair do avião gostou de ver a França novamente: a organização familiar dos elementos, a cara de sua gente, o findar da desconfortável sensação de ser um estrangeiro. Pegou um táxi do aeroporto direto para a casa de Claire, sem hesitação. Jean havia mudado de estratégia; Claire se armava tanto a cada encontro que dessa vez ele queria apanha-la desprevenida, arriscou tentar vê-la sem a usual armadura, por isso foi sem avisar. A moça certamente se surpreenderia com a chegada de Jean, assim, de supetão, de mala em sua porta, a reação era imprevisível, mas ele pensava que essa iniciativa era fundamental para ajuda-lo a chegar até um lado de Claire que ela mesma não deixava transparecer, era como arrombar seu coração com um pé-de-cabra. No mais fazia quase vinte dias que não se falavam e, por mais que ele tivesse aprendido a lidar com essa ausência, estava feliz por regressar e queria muito revê-la, e isso lhe era suficiente como motivo.
A noite caía sobre a cidade quando Jean chegou à casa de Claire. Desceu as escadas para o apartamento da moça, pousou as malas no chão e tocou a campainha. Nesse instante de iminência, nesses segundos que antecediam a abertura da porta, Jean considerou que talvez estivesse fazendo uma grande besteira. Como seria para Claire vê-lo na porta de sua casa com uma mala enorme? Claro que tudo se explicaria em segundos, mas não era essa imagem por si só demasiadamente forte? Porque a mensagem implícita nessa ocasião é que Jean desembarcava em definitivo em Paris e na vida de Claire, isso provavelmente iria assusta-la. Entretanto o desejo de vê-la era enorme e em Nova York Jean aprendera a confiar no acaso, assim como a própria Claire um dia o havia dito. Isso foi tudo em que ele conseguiu pensar até o momento da abertura da porta, agora vinha a constatação:
-- Jean! -- Claire abraçou-o imediatamente -- Eu não sabia que dia você iria chegar, que surpresa boa!
-- Ainda bem que você gostou, temi desagrada-la com meu ímpeto.
-- Não, de jeito nenhum, estou feliz em revê-lo, você não me escreveu mais, não ligou, pensei que estivesse chateado comigo. Essa malas, você...
--...sim, vim direto do aeroporto.
-- eu poderia tê-lo apanhado lá se tivesse sido avisada.
-- eu preferi faze-la uma surpresa -- disse Jean sorrindo.
-- então melhor assim. Entre, coloque suas malas naquele canto.
E como se nunca houvessem se desentendido, Jean estava de volta na vida de Claire. Talvez ambos tivessem a consciência de que aquele princípio de noite testemunhava uma trégua; as armas estavam postas no chão, as duras palavras de outrora repousavam em lugar seguro, onde ninguém se lembrava delas, pelo menos por aquela noite. Ambos sabiam que haviam atingido um nível perigoso de tensão, e que a partir dali era melhor recuar pois havia risco que a relação sofresse danos irreparáveis. E muitas vezes um dos dois acabou recuando, cedendo, porque não lhes interessava romper definitivamente. Por mais que se desentendessem, por maior que fosse o agravo, havia sempre um jeito de retomar. Quando Jean ficou vinte dias sem contato com Claire na verdade durante esse período ele se pôs numa espécie de módulo de segurança, onde permaneceu até que sua raiva diminuísse, para que de novo tivesse condições emocionais de lidar com ela.
Lá também esteve a salvo de mais decepções, era uma espécie de campo neutro, um lugar onde era possível descansar da batalha que travaram. Quando Jean voltou, Claire, por sua vez, tratou logo de mostrá-lo que era bem-vindo, que sentira sua falta. E esse era o ponto de equilíbrio da relação, assim se entendiam. O grande problema se dá quando o tempo alarga esses limites de tolerância, então as regras estabelecidas começam a ser desrespeitadas e os envolvidos passam a ferir-se de verdade.
Jean abriu sua mala e tirou de dentro uma sacola repleta de presentes para Claire. Ela jogou a sacola sobre a cama e sorriu porque sabia que cada um daqueles presentes representava um momento em que Jean havia pensado nela, e eram muitos. Claro que era bom constatar que Jean havia sentido saudades, entretanto melhor ainda era perceber que mesmo distante ela se fizera muito assídua em seu pensamento. Era delicioso saber que na batalha que tinha travado com Nova York pela atenção do rapaz ela nitidamente havia saído vencedora.
-- muito obrigado, Jean, é tudo lindo! Estou feliz com meus presentes. -- disse Claire abraçando-os.
-- não há de que, são apenas bugigangas, souvenires que atraíram a atenção de um francês num país distante -- tentou minimizar Jean.
Depois da abertura e da explicação do porquê de cada um dos presentes, os dois deitaram-se na cama e por lá ficaram por muitas horas, matando as saudades, contando histórias do que havia acontecido em suas vidas no decorrer daquele mês. Conversaram sobre as cartas de novo, dessa vez pessoalmente, e tudo foi muito melhor. Na impessoalidade das palavras escritas faltou o olhar, faltaram gestos e expressões que fizeram tudo que fora dito assumir uma tonalidade muito mais tênue dessa vez. Manejaram muito bem a primeira briga que tiveram e agora estavam mais fortes, mais íntimos, sentiam que conheciam mais um ao outro, e era inegável que a viagem fora fundamental para que mudassem de fase dentro do relacionamento.
Nessa noite não saíram nem para comer. Eram tantas histórias a serem contadas que entre o amor e as conversas o dia clareou, depois disso finalmente dormiram e acordaram quase ao meio-dia do dia seguinte. Claire saiu antes porque tinha um compromisso, Jean permaneceu na cama. Quando deu-se por si estava sozinho naquele lugar que tanto imaginara a distância. De Nova York via-se descendo a escada, abrindo a porta e encontrando Claire, algumas vezes sonhou com isso. A casa vazia, as mesmas fotos sobre a mesa, talvez a pilha estivesse um pouco maior agora, as roupas atiradas pelo chão, as máquinas fotográficas jogadas pela poltrona, penduradas atrás da porta, aquele era o cenário que Jean precisava desvendar. Como um detetive na cena do crime, ele tinha agora um tempo para procurar entender aqueles elementos aparentemente tão desconexos e tirar daquela cena uma verdade, uma constatação.
Pôs-se a olhar de novo as fotos, as fotos do metrô, e novamente deparou-se com a sua própria, no meio da pilha. Ali estava ele, quase dois meses antes, e era incrível quantas voltas o mundo já havia dado desde que aquela foto fora tirada. Achou-se mais jovem na foto, aquele não era definitivamente o mesmo olhar que tinha agora depois das experiências vividas em Nova York. Olhar para aquela foto fazia-o lembrar de que um dia ele fora apenas mais um objeto de observação, e que caminhos tortuosos haviam o trazido para ali, para a casa de Claire, no dia anterior, com uma mala enorme, vindo de tão longe. Aquele mesmo apartamento já havia presenciado tantos Jeans diferentes, tantos estados de espírito antagônicos, era de fato impressionante. Percebeu que havia um bilhete sobre a mesa:
Querido Jean:
Espero que tenha dormido bem. Caso acorde com fome há alguma coisa para comer na geladeira. Precisei comparecer a um compromisso, caso precise sair também leve a chave reserva que está pendurada atrás da porta. Estarei em casa novamente por volta das 17hs
Um beijo e até!
Claire.
O bilhete de Claire lembrou-o de que ele também tinha um compromisso, precisava encontrar-se com Thierry e apresentar-se para o novo emprego. Olhou pela janela e o sol brilhava intensamente, parecia que o sol finalmente voltara a brilhar para ele: estava de volta ao seu país, tinha um bom emprego e agora recebia bilhetinhos carinhosos de Claire, tinha em mãos a chave da casa dela. Parecia que depois do sacrifício ele finalmente recebia a recompensa pelas decisões difíceis que havia tomado. Parecia que o tempo que havia levado fora fundamental para aumentar o prazer daquele momento, sentia-se novamente no topo do mundo. Mas todos que sobem rápido demais precisam ter consciência de onde se encontram, porque, como diz o ditado, quanto maior a altura, maior o tombo.
posted by BRUNO MEDINA at 11:41 AM
Sexta-feira, Março 26, 2004
Sentou-se na cama de seu quarto, pegou o telefone, olhou para o relógio, ela deveria estar em casa pela hora. Digitou a complicada combinação de números e o telefone pôs-se a tocar. Claire atendeu e pareceu surpresa com a iniciativa de Jean. A conversa não fluía como antigamente, os silêncios eram insuportáveis, tanta coisa sem importância foi dita, assim como quando um assunto quer vir à tona e não pode, era angustiante. Aos poucos eles conseguiram tratar do que realmente importava, as cartas:
-- Surpreendeu-me a sua carta -- disse Jean.
-- A sua também me surpreendeu.
-- Acho que realmente me deixei levar pelas circunstâncias.
-- Jean, não se defenda de uma boa intenção, aquilo era o que você sentia, você disse e pronto. Meu intuito foi apenas o de ser sincera com você, e foi difícil.
-- Pode ser impressão minha mas às vezes penso que você não se deixaria levar por um sentimento como o meu, mesmo que o quisesse.
-- é possível.
-- Ah, Claire, do que você tem mais medo? De você ou de mim?
-- Dos dois, eu acho. Eu não quero faze-lo sofrer.
-- Mas o sofrimento é inerente a existência, não é possível controlar isso. Tudo que nos afeta nos angustia, porque é relevante, porque se é bom causa medo de perder...
-- Eu acho bonita a sua forma de ver as coisas mas não creio que comigo seja assim. Estou sempre em dúvida do que sinto, nada é tão claro para mim, e acabo fazendo o que acho mais prudente.
-- Prudência é uma palavra que não combina com nossa situação. Não se contente em viver nesse limbo de sensações, procure as respostas para as suas questões, sua vida será mais fácil. Você vive dentro de uma bolha, isolada dos sentidos! Analisa tudo ao invés de sentir.
-- Talvez você tenha razão, mas esse é o jeito que sou, não sei se há algo para ser consertado.
-- Acho que você é muito jovem para aceitar uma sina, mas isso não diz respeito a mim, você provavelmente nem se incomoda tanto com isso. A decisão é sua, a vida é sua. Vou desligar agora.
A conversa deixou Jean arrasado. Sentia que o que havia entre eles agora lhe escorria pelas mãos. Na tentativa de compreender a reação de Claire ele relativizava seu próprio juízo, desconsiderava o que fora dito por ela, queria de qualquer forma encontrar uma mensagem secreta naquelas secas palavras. Pedia aos céus mais sensibilidade, porque talvez o problema fosse esse, talvez ele não estivesse sendo sensível o suficiente para compreender aquela alma feminina. Ou talvez não houvesse nada para ser adivinhado, não havia nenhum mal entendido.
De tanto criar hipóteses Jean se perdeu, não havia mais referência confiável para suas suposições e ainda sim tudo continuava confuso do mesmo jeito. A sensação era de impotência, nada poderia ser feito a não ser esperar o tempo passar. Jean percebeu que, de Nova York, suas palavras pareciam sofrer algum tipo de distorção; as escritas e as faladas chegavam em Paris de uma outra forma, sob a qual ele não tinha controle e muito diferentes do que ele pretendia. Não, o problema não era suas palavras, a distância era a verdadeira vilã. Fora ela que cobrara saudades de Claire, saudades essa que ela temia sentir e nem conseguia ter o distanciamento para concluir se sentia ou não. Porque ela tinha medo, muito medo de sentir qualquer coisa. A distância tirou-lhes a amenidade do dia a dia e imputou àquela relação um peso incompatível com a idade. Era isso que Jean temia, e foi justamente o que aconteceu: sua relação com Claire fora inquirida muito antes de estar pronta para responder o que fosse. Agora fazia dez dias de sua partida, ainda faltavam outros vinte, o dobro do tempo que tinha se passado. Jean pensou que não suportaria, parecia-lhe uma eternidade o tanto de tempo que ainda precisaria passar em Nova York. Como os deuses, aprendeu a conformar-se com o infinito.
O curso seguia exigindo bastante dedicação, entretanto Jean criou um tempo que não possuía para aproveitar a cidade. Pensou que outra oportunidade como aquela não surgiria tão cedo e dedicou os dias que lhe restavam a viver intensamente. Às vezes o sono lhe cobrava durante as aulas, e a imagem de francês arrogante que possuía desde sempre entre os professores, agora ainda ganhava reforço na expressão desinteressada e sonolenta de Jean. Apaixonou-se pela vida boêmia de Nova York, varava noites consecutivas, participava ativamente das atividades culturais da cidade, conheceu pessoas, fez amigos, inimigos e em vinte dias viveu mais do que alguns o fariam em um ano. Mas essa gana tardia tinha um motivo; Claire. Era para ela que queria narrar suas descobertas, para ela queria exibir seu conhecimento, sua vivência boêmia, e por ela queria retornar. Jean sabia, porém, que qualquer contato que não fosse pessoalmente seria um desatino.
A lição recebida através das dificuldades impostas pela distância fora muita bem assimilada por ele, e o tempo finalmente passou, chegou o dia de sua partida. Na mala o diploma de conclusão do curso e um outro que não era possível enxergar, o que lhe conferia a excelência no autoconhecimento. Em trinta dias Jean se reinventou: aprendeu os atalhos para sua alma, os mecanismos de defesa de suas inseguranças e voltou para sua terra um pouco mais consciente de si. Entretanto esse tipo de consciência era a perda de sua inocência, porque Jean agora era inegavelmente menos crente de suas antigas convicções. E tudo era tão mais fácil pela ótica do que ele era há um mês, tanta coisa ele não entendia, não enxergava.
O novo Jean via tudo, nele sentimentos nobres e mesquinhos viviam lado a lado, eles eram iguais. Sua alma casta tornara-se mundana, e isso era bom. Porque Claire é o mundo lá fora e Jean queria conhece-lo, o quanto antes. Muito tempo perdera vivendo dentro de sua casca, em sua pequena Marseille, mas agora estava em Nova York. Claire era Nova York. A sensação de que dentro de cada beco, de cada porta da personalidade dela, havia algo de infame e de delicioso para ser vivenciado. Não havia mais certo e errado, nem caminho a ser seguido, cada dia, cada beco, cada sentido, continha em si sua própria sorte. Jean aprendeu a relatividade dos sentidos, e que lição tinha sido essa; fizera-o nutrir raiva e gratidão por sua mestra. Claire fora responsável pelo despertar de Jean, e ver o mundo depois de conhece-la era desconcertante porém instigante. Ao deixar o alojamento da faculdade Jean fez questão de dar uma banana para Nova York. Era um desabafo e ao mesmo tempo um cumprimento respeitoso à cidade onde ele viu o melhor e o pior da vida. Chegando ao aeroporto dirigiu-se ao balcão da companhia aérea, a atendente confirmou as informações:
-- Nova York-Paris-Marseille, está correto?
-- Não, mudei de idéia, vou desembarcar em Paris, é possível?
posted by BRUNO MEDINA at 2:38 PM
Quinta-feira, Março 25, 2004
Os dias que se seguiram foram difíceis para ele. Acometia-o um misto de ansiedade, medo, apreensão e expectativa. Aos poucos aprendia a lidar com a cidade, com a mentalidade americana, tão diferente da européia, com a rigidez dos professores no curso. A saudade de Claire estava presente, e era enorme, mas Jean parecia ter perdido um pouco da habilidade de manejar esse sentimento. Sentia-se distante de Claire, não só pelo oceano que havia entre os dois mas também por não conseguir determinar se aquilo tudo que haviam vivido pouco antes de sua partida era um devaneio, uma febre de verão, ou algo realmente significativo dentro de um relacionamento. Queria entrar em contato com Claire de alguma forma mas lembrava-se de que na despedida ela lhe dissera que acreditasse no acaso e talvez esse fosse um indício para Jean relaxar, não dar tanta importância ao que estava por vir. Será? Tudo era especulação e Jean já sofria por demais com a distância, preferiu então sondar os sentimentos de Claire, resolveu escrever-lhe uma carta:
Querida Claire:
Os dias passam muito lentamente aqui em Nova York. Há muito para ser visto, e tudo é fascinante, mas cada detalhe dessa cidade me lembra você e tenho plena consciência dos muitos dias que ainda faltam para nosso reencontro. A saudade aterradora, que me acompanha quase sempre, às vezes sai para passear; assiste a uma peça na Broadway, caminha no Central Park, visita galerias de arte no Soho, conversa com os punks do Village, faz compras na Quinta Avenida mas volta, sempre volta a noite e me pergunta onde estive o dia todo. Eu digo que estive aí, em Paris, ao seu lado, porque estar sozinho numa cidade maravilhosa como Nova York é por demais cruel. O curso preenche bastante o meu tempo e tenho aprendido muito, acho que voltarei preparado e digno da confiança que me foi conferida por Thierry. Porém, acho que a maior lição que tenho recebido é a de descobrir quem realmente sou. Estando longe de minha terra natal parece que aqui em Manhattam, no topo de um prédio qualquer, com algum esforço consigo me ver em Marseille, seguindo minha rotina, e é possível perceber claramente o que quero e o que não quero mudar em minha vida. Você eu não quero mudar. Quero que faça parte cada vez mais dos meus dias, acho que ainda há muito para vivermos juntos. Mas vamos faze-lo sem pressa, de acordo com a maré, agora é momento de estar à deriva e daqui tratarei de içar minhas velas, rodopiando em busca de um vento qualquer que venha daí e que mova meu barco à diante. Poderia escrever-lhe páginas e mais páginas sobre as maravilhas dessa cidade, mas o intuito principal dessa carta foi o de saber se você está bem. Ainda guardo muito nitidamente na memória aqueles dias maravilhosos em Marseille, e isso é o que me dá forças para continuar aqui, cumprindo esta etapa da minha vida e procurando tirar dela o máximo de aprendizado que for possível. Agora preciso ir pois os americanos não se enternecem com poesia; um atraso para a aula não teria justificativas nessa carta.
Um beijo grande!
Jean
Cinco dias depois chegou a resposta:
Jean,
Foi bom receber sua carta. Eu quero responde-la, não sei se tenho resposta, mas quero dizer-lhe alguma coisa, até porque você está longe e nosso princípio de rotina pode e provavelmente vai desaparecer de repente, deixando um vazio a mais no meu cotidiano, na minha vida aqui. Acho que tudo bem, é assim mesmo que deveria ser. Depois de nossos dias juntos, de coisas efetivamente vividas, agora temos que nos resumir às palavras escritas, tendo que definir as coisas em termos, frases, parágrafos, é mesmo muito diferente, mas também é bom.
Foi gostoso, muito, ter estado com você. Eu não esperava nada disso, não queria conhecer ninguém e achava bem provável que não passássemos do primeiro encontro, porque as palavras nem sempre se cumprem quando os corpos se encontram. Entretanto nos encontramos, você me fez rir, me fez sentir bem, ficar à vontade, ter prazer. Eu não conseguia entender porque você não me olhava direto nos olhos, achava um tanto esquisito, mas depois você olhou, e sorriu bonito, e disse coisas surpreendentes - outra vez, essa palavra. Jean, eu não quero jogar. Não quero te deixar achando coisas que não são. Eu não estou apaixonada por você, não sei se poderia ficar, eu acredito que a gente sabe de cara essas coisas, mas posso estar enganada. Eu não tenho muitas respostas, eu sempre fui melhor com perguntas, muitas vezes nem quero ouvir resposta nenhuma, prefiro mesmo seguir errante. Quando me apaixonei, eu inventei muito, acho que todo mundo inventa, e com você não houve invenção nenhuma, a sua personalidade foi se revelando pra mim aos poucos, e eu sinto que o que conheço de você hoje é conseqüência do que vivemos juntos muito mais do que da minha imaginação. Entretanto eu também gosto, muito, de imaginar, fantasiar, sentir saudade - e isso só o tempo pode dizer se acontecerá ou não. Então essa carta aqui não é uma resposta, mas sim uma tentativa de ser sincera com você, de usar as palavras mais simples, que são também as mais difíceis de serem usadas. Tomara que eu tenha conseguido fazer isso sem machuca-lo.
um beijo.
Claire
A sinceridade de Claire foi recebida como a visita de um oficial de justiça: uma intimação de comparecimento a um julgamento. Jean precisava rever seus sentimentos. O que mais lhe doía no entanto não era perceber que o que sentia não era correspondido com a mesma intensidade e sim constatar que Claire era uma pessoa que conseguia investigar suas emoções com a frieza e a praticidade de um detetive, como ela podia falar de paixão daquela forma? Como ela conseguia ser tão direta? Isso o assustava. Porque a paixão poderia vir com o tempo, ou mesmo a dele poderia fenecer, mas Claire dificilmente mudaria sua forma de sentir, e isso sim era algo a ser lamentado. Constatou que os momentos vividos juntos foram ótimos, mas que não haviam servido para erguer coisa alguma. Jean provavelmente se deixara levar pela emoção ou pela distância, havia esmorecido a guarda montada em prol de não desempenhar o papel que Claire tanto temia na prórpia vida. Ele tinha tentado por sela num cavalo selvagem, tomou o tombo, mas aprendeu a lição: caso quisesse seguir em frente era preciso chegar com menos afinco. Jean dobrou a carta, guardou-a no bolso e procurou não pensar mais em Claire entretanto ele sabia que esse era um estágio passageiro, uma reação natural de quem havia tomado um balde de água fria. Alguns dias se passaram e quantas vezes ele lera aquela carta, tentando encontrar conexão entre cada palavra, sendo advogado de defesa e acusação no mesmo tribunal, aquele de onde viria o veredicto que nortearia seu próximo passo. A decisão foi favorável a defesa, Jean decidiu telefonar para Claire.
posted by BRUNO MEDINA at 11:39 AM
Quarta-feira, Março 24, 2004
-- você está vindo pra cá? -- Jean tinha entendido perfeitamente da primeira vez, mas perguntou novamente denotando a responsabilidade que havia naquela frase. Quis dar a sua própria sorte a chance de reconsiderar.
-- sim, Jean estou indo para aí! Agora deixe me ir que ligo da estação e o trem já soou o primeiro silvo de partida.
Desligou o telefone. Jean estava exultante com a notícia de que aquela que ele pensou não rever antes de um mês, em algumas horas estaria ao seu lado, em sua cidade. Ria sozinho, andava pela casa, cantarolava e jogava roupas dentro da mala sem considerar. Nada mais importava a não ser que Claire estava preste a chegar. A partir do inesperado telefonema logicamente não foi mais possível dormir, então Jean passou as horas que ainda faltavam para o re-encontro pensando nos lugares que precisavam visitar juntos, nas coisas que Claire não poderia deixar de ver, em todos os momentos lindos que viveriam naqueles dois dias que lhe sobravam. Dois dias de abono, dois dias extras com Claire.
As horas restantes demoraram muito a passar e trinta minutos antes do combinado Jean já estava na estação, a espera de sua querida. O trem vindo de Paris não demorou a anunciar-se no horizonte, cortando a alvorada em dois e fazendo disparar o coração de Jean. O comboio desacelerava enquanto Jean percorria toda a extremidade dos vagões procurando Claire em cada janela, em cada rosto adormecido. As portas se abriram e não custou muito para que ela aparecesse com seu sorriso de ponta a ponta e uma pequena mala, Jean correu ao seu encontro e abraçou-a longamente. Rodopiaram no ar de felicidade, sem fazer perguntas, sem procurar entender o que significava, Jean só queria viver.
-- essa é a melhor surpresa de todos os tempos! -- disse ele.
-- vamos, me leve daqui!
Jean pegou Claire pelas mãos e correram. Correram mais que o vento, correram das questões mal resolvidas, das hesitações, dos medos, das meias palavras, correram tanto que chegaram na praia. Era lindo aquele dia de verão no mediterrâneo. Sentaram-se na areia, com o sol começando a despontar, e ali ficaram durante longos minutos olhando-se nos olhos, sem nada dizer. Nenhum dos dois queria profanar aquele momento lúdico com palavras:
-- cuidado com os seus olhos, Claire, eles falam...
-- ah é? E o que dizem agora?
-- você não suportaria saber..
E o dia passou. Visitaram todos os recantos da memória de Jean pela cidade, contou-a a história de cada lugar, levou-a a provar cada sensação que o orgulhava em sua cidade, cada sabor, cada paisagem, cada pessoa. Jantaram romanticamente e se amaram por toda noite.
-- que sorte a minha tê-la aqui, parece tudo um sonho.
-- sonho? Sonho é destino. Vivamos nossa sorte!
E desse jeito outro dia se passou. Jean partiria no dia seguinte e havia ainda muito a ser providenciado para a viagem, agora ele quase odiava a viagem. Porque essa partida, que lhe era tão importante, por-se-ia no meio de um dos momentos mais felizes que já tivera. Findado o segundo dia, Claire precisava voltar para Paris a fim de retomar sua vida profissional e Jean tinha poucas horas antes do embarque para Nova York. A despedida definitiva dos dois foi na estação de trem, ambos embriagados de sono pelas noites mal dormidas, Jean duas vezes mais apaixonado do que quando partira de Paris:
-- sentirei muito sua falta, mas eu volto -- disse Jean a beira das lágrimas.
-- eu sei. Vai passar rápido, você vai ver.
-- tenho medo disso tudo.
-- eu também. Mas você não confia no acaso?
-- não, eu confio em sentimentos, em pessoas...do acaso eu duvido.
-- mas é ele que rege nossas vidas, não tenha dúvida -- respondeu Claire colocando um tanto de realidade naquele derradeiro diálogo.
-- então que o acaso seja nosso amigo!
Ouviu-se o último aviso, o trem estava pronto para partir.
-- agora preciso ir Jean -- Claire beijou-o longamente e entrou no trem sem olhar pra trás.
Jean permaneceu na estação e acompanhou o comboio com os olhos, até que ele sumisse no infinito. Agora sim, sua jornada havia começado. A partir daquele exato momento ele estava só, só com sua sorte, tendo pela frente uma cidade maravilhosa para descobrir, preparado para tomar uma das maiores puxadas de tapete que sua vida poderia lhe aplicar: jogá-lo num país estranho, apaixonado, e a milhas de distância de sua estimada Claire. Jean sabia que a temporada seria como um teste para eles; o oceano que os separava, a falta de contato e o tempo certamente transformariam muita coisa, mas ele aceitou as regras do jogo, não se fez de rogado, e no dia seguinte estava dentro do avião que o levaria até Nova York. Dormiu durante quase toda a viagem, não tivera tempo para descansar depois da partida de Claire devido a tantos afazeres.
Chegou em seu destino a noite, e que lindo era tudo. Pela janela do táxi que o levava até as instalações da faculdade no East Village, Jean viu passar a cidade que sempre quisera conhecer. Tantos filmes lhe vieram a cabeça, tantas cenas, tantos clichês, a sensação inevitável de liberdade e de conquista por estar no topo do mundo. Parecia que já sabia tudo que precisava sobre aquela cidade, mas era impressão. Porque de fato nada sabia sobre Nova York, nada sabia sobre o que estava para lhe acontecer. Por mais que se pusesse a imaginar Jean não tinha a mais vaga idéia da dimensão do aprendizado que estava preste a receber. Em Nova York aprendeu duras lições sobre a vida e sobre o amor, sobre si mesmo e sobre os outros. Conheceu sensações inéditas, reconstruiu suas crenças, adquiriu gostos, vislumbrou o lado edificante da angustia. Claire dentro desse processo de metamorfose seria como uma base, uma central de informações para onde a nave em órbita reporta as descobertas do espaço. Mas a distância encarregaria-se de dificultar a comunicação entre os dois, os ruídos seriam suficientes para faze-los esmorecer. Jean sentiria-se só como o que de fato era: um astronauta na órbita de seu próprio planeta.
posted by BRUNO MEDINA at 3:47 PM
Terça-feira, Março 23, 2004
-- não sei se devo...
-- entre, durma comigo, amanhã conversaremos -- Jean aceitou a proposta da moça. Pensou que seria péssimo partir para Nova York deixando assim a situação entre eles -- está bem, vamos entrar.
Claire tirou os sapatos e jogou-se na cama, adormeceu instantaneamente. Jean tirou suas roupas e deitou-se também. Essa era a primeira noite que dormiam juntos, e Jean demorou muito para conseguir fazê-lo. Ficou olhando para o teto, pensava em como a realidade invadira e transformara para pior tudo que ele havia idealizado tão mais bonito. Que noite péssima havia sido aquela! Mesmo o fato de estar dormindo com Claire não tinha nada de romântico, era apenas a conseqüência de tê-la levado para casa. Jean acabou adormecendo também e quando abriu os olhos novamente já era dia, Claire observava ele dormindo e sorria:
-- bom dia.
-- bom dia, que horas são? -- perguntou Jean sobressaltado.
-- já passam das 10hs, você dormiu bastante.
-- na verdade custei um pouco a dormir, foi isso.
-- estranhou a cama?
-- não, estranhei você. Mas enfim, não quero falar sobre o ocorrido de ontem a noite, já passou. Se tivéssemos tido a oportunidade de conversar na festa eu teria te contado que estou partindo para Nova York dentro de três dias.
-- Nova York? O que você vai fazer lá? -- perguntou Claire deixando transparecer uma leve apreensão.
-- recebi uma proposta irrecusável de trabalho e...
-- ...e quanto tempo você vai ficar lá?
-- um mês.
-- não é tanto -- disse Claire conformando a si mesma -- e você parte dentro de três dias?
-- sim, preciso voltar para Marseille hoje mesmo para resolver as pendências da viagem, por isso precisava encontra-la ontem.
-- nossa, você vai hoje mesmo?
-- tenho que ir. Já devia estar lá.
-- que pena.
-- sim é uma pena -- disse Jean levantando-se da cama. Começou então a vestir-se.
-- você vai aonde agora?
-- Vou me embora. -- respondeu Jean encaminhando-se para a sala, Claire pôs-se a segui-lo.
-- Agora? Não pode ficar até depois do almoço?
-- Não, preciso partir agora pois só chego em Marseille no final da tarde. Você me leva até a porta?
-- Jean, foi alguma coisa que fiz? Você não me perdoou...
-- Claire, -- Jean pegou-a pelos ombros -- não se trata disso. Realmente essa não é a despedida que imaginei mas de fato isto deveria ter ocorrido ontem, agora preciso realmente ir.
-- está bem então -- Claire abraçou-o. Ficaram um tempo abraçados em silêncio, talvez refletindo sobre a noite anterior, talvez antecipando o tempo que passariam separados. Jean até poderia ficar mais um pouco em Paris mas estava deliciando-se com o fato de Claire estar sentindo sua partida repentina. O abraço demorado acabou se transformando em beijos e isso os levou de volta para o quarto. Claire, como a maioria das mulheres, encontrava no sexo um instrumento eficaz para conseguir o que queria, e não hesitava em usá-lo, sempre que preciso, mesmo que fosse apenas para mostrar quem realmente dava as cartas...
-- meu Deus, já passam das 13 hs, agora realmente preciso partir -- Despediram-se na porta com um longo beijo:
-- boa viagem, Jean. Escreva-me quando puder...
-- eu irei -- abraçaram-se de novo e ele partiu. Jean passou no hotel, pegou suas coisas e seguiu para Marseille, conforme previsto no protocolo de sua vida. Por dentro estava dilacerado pela prévia saudade, mas seguia os passos que havia determinado serem o melhor pra si sem muita contestação, era assim que tinha que ser. Chegou em sua cidade no início da noite e começou a arrumar as coisas para a viagem. Dizem que não há momento melhor para organizar pensamentos do que quando arrumamos a casa, mas nesse caso o pensamento prático que a viagem exigia não se aplicava a Claire, não havia nada de prático, previsível ou sistemático na forma dela agir.
Envolver-se com alguém assim com ela é muito instigante porém doloroso. Jean não sabia o que pensar, não sabia o grau de envolvimento que havia entre eles até então ou mesmo que papel ele exerceria naquela vida estando em Nova York. A impressão que tinha era a de que Claire se assemelhava a um cubo mágico; quando uma face finalmente fica arrumada percebemos que a face posterior está totalmente fora de ordem, e mais uma vez nos pomos a começar do princípio. Toda tentativa de compreende-la parecia inútil, Claire alternava momentos de frieza e de carinho como quem alterna expressões faciais assistindo a uma partida de futebol. Qualquer que fosse a faceta que deixasse transparecer era muito rápido, Jean não conseguia ter o tempo necessário para disseca-la e entende-la.
Deixou em Paris tudo que o incomodava em relação a Claire e prometeu levar para Nova York apenas o que havia de bom para ser lembrado. Pensou que talvez não tivesse um montante suficiente de memórias harmoniosas sobre a moça, e que talvez lhe faltasse no decorrer da estadia do outro lado do Atlântico. Se ao menos ele tivesse consigo uma foto de Claire, para poder olha-la nos olhos e atribuir-lhe características fantásticas...porque a distância faz isso conosco, faz com que nossa memória emocional se encarregue de borrar a linha entre real e imaginário e transformar tudo numa coisa só, expectativa e realização.
Já era tarde e o silêncio sepulcral da madrugada fora cortado pelo toque do telefone, Jean assustou-se:
--Alô?
-- Jean?
-- Claire? Aconteceu alguma coisa? -- perguntou apreensivo.
-- sim, aconteceu. Quero estar com você antes da partida, estou indo para Marseille, encontre-me na estação dentro de seis horas.
posted by BRUNO MEDINA at 12:13 PM
Segunda-feira, Março 22, 2004
Jean decidiu que iria para Nova York. Tomara a decisão mais sensata, não havia dúvida, entretanto, por mais que soubesse que tinha optado pelo melhor para si mesmo, não conseguia enxergar que benefício havia em abandonar à própria sorte sua recente história com Claire. Sentia-se como uma criança que para de regar sua plantinha de estimação logo depois que os primeiros botões se abrem em flores. Porque tudo ainda era muito frágil, dependente de seus cuidados, e Jean preferia não confiar no acaso. Estando ele em Nova York a plantinha dependeria da própria sorte e da imprevisível oferta de chuvas para sobreviver, e enquanto estivesse lá, preocupava-o pensar que uma pequena temporada de estiagem que fosse, poderia faze-la fenecer. Mas Jean precisava cuidar de si também e os benefícios que a viagem o traria certamente incidiriam diretamente em sua relação com Claire. Pensando assim tomou a decisão.
Passou na faculdade novamente já imaginando como seria trabalhar ali, esse pensamento o enchia de expectativas positivas, mas nada que ofuscasse a saudade que já sentia de Claire. Procurou o amigo Thierry e formalizou a situação; partiria para Nova York dentro de quatro dias. Havia porém muita coisa para ser vista em Marseille: documentos requisitados, medidas que precisavam ser tomadas, visto que ficaria longe de casa por um mês, lavar as roupas, fazer a mala, mas antes disso tudo havia o encontro com Claire. Voltou para o hotel e dormiu mais um pouco, acordou de tarde, almoçou e esperou a hora de fazer a ligação mais importante do dia.
-- Alô?
-- Claire?
-- Olá Jean, como vai?
-- Vou bem, como foi a sessão de moda?
-- Foi boa, um tanto quanto cansativa, eu diria. Mas então, vamos nos ver?
-- sim, é só me dizer aonde e estarei lá.
-- hoje tenho a festa de uma amiga que não posso deixar de ir, é num lugar incrível, gostaria que você me encontrasse lá, é possível?
-- uma festa? -- hesitou -- Está bem, eu vou...
Não era essa exatamente a idéia de despedida que Jean tinha imaginado mas era fundamental encontrar com Claire antes da viagem. Ao mesmo tempo em que lamentava profundamente não encontra-la à sos, de certa forma sentia-se curioso em saber quem eram os amigos dela, como reagiria num ambiente social? Anotou o endereço, vestiu a melhor roupa que havia trazido e partiu para festa onde encontraria Claire.
Chegou a Montmartre por volta das 10:30hs. A festa ocorria numa casa, no alto de uma rua de paralelepípedos, de longe já era possível ouvir música alta. Jean, que havia ido de metrô, teve que andar um bocado até o topo, desejou ter ido com sapatos mais confortáveis. Tocou a campainha esbaforido pelo esforço da subida, subira depressa demais devido a ansiedade. A dona da casa atendeu:
-- Pois não?
-- Olá, sou Jean, amigo de Claire, ela está?
-- A sim, Jean, fique à vontade, Claire está ali. -- apontou para o canto escuro da sala onde várias pessoas dançavam. Pelo jeito que dançava Claire parecia ter bebido um pouco além da conta. Jean foi aproximando-se da moça com um sorriso constrangido.
-- Jean! Que bom que você veio! -- disse Claire abraçando-o -- devo admitir que estou bêbada, tenha paciência comigo.
-- está bem, eu terei -- disse Jean rindo da situação.
-- junte-se a nós Jean, vamos dançar! -- disse uma moça igualmente bêbada.
-- não sou muito de dançar, prefiro sentar aqui e observa-las.
Jean sentou-se numa poltrona desejando ficar invisível. Estava numa festa onde não conhecia ninguém e a pessoa com quem mais queria estar no mundo encontrava-se completamente fora de si, estava constrangido. Ele queria contá-la da viagem mas sabe-se lá se naquele estado ela lembraria ao menos que o tinha encontrado. Claire percebeu-se da situação de desconforto do rapaz e foi até lá falar com ele. Agachou-se em frente à poltrona onde estava sentado:
-- e então, Jean, tudo bem?
-- sim, tudo bem. E com você? -- Claire sorriu, aproximou-se de seu rosto e beijou-o.
-- agora melhor, que bom que você veio....-- o coração de Jean disparou e naquele momento a festa desapareceu, ali estavam só os dois. Jean segurou na mão de Claire:
--preciso dizer-lhe algo importante.
-- então é melhor que eu faça xixi antes -- disse Claire levantando-se num movimento rápido rumo ao banheiro. Jean riu da situação pois aí estava a paciência que ele havia de ter com a moça que bebera demais. Alguns minutos se passaram e Claire não voltou. Jean levantou-se da poltrona para procurá-la pela casa, encontrou-a num quarto conversando com um rapaz. Eles estavam sentados na cama, muito próximos um do outro, olhos nos olhos, o coração de Jean disparou de novo, mas dessa vez tinha a sensação que despencava de um precipício. Não pensou em nada, não queria pensar em nada, mas aquela imagem desconcertante demandava explicações. Claire e o rapaz perceberam a presença de Jean na porta:
-- Jean! -- levantou-se Claire com uma expressão assustada -- Jean deu a volta e caminhou para a sala.
-- Jean, fale comigo! Por favor?
-- O que exatamente significa isso? -- perguntou Jean irritado -- porque você me pediu que viesse aqui? Trata-se de um de seus jogos, ou seria um encontro de suas personalidades preferidas?
-- Ai Jean... -- Claire estava desconcertada -- esse rapaz é um ex-namorado, nós estávamos apenas conversando, não existe nada entre nós já faz muito tempo, por favor, acredite! Eu queria ficar com você essa noite, por isso o chamei para essa festa. -- Jean ouvia calado sem saber o que pensar -- por favor, não fique assim comigo, não houve nada!
-- Olha, Claire, creio que é chegada a minha hora, vou partir.
-- Não Jean, por favor, não vá desse jeito. Ai meu Deus, que tolice a minha, que falta de cuidado...-- disse Claire com as mãos na cabeça.
-- acredito em sua versão mas não tem mais cabimento eu continuar nessa festa, não me sentiria bem, preciso partir, preciso respirar ar fresco.
-- então eu vou com você, vou pegar minha bolsa.
Jean a princípio relutou mas, depois de alguma insistência, acabou concordando em sair da festa acompanhado por Claire. Desciam a ladeira lado a lado, mas sem conversar: Claire com medo de dizer algo que piorasse a situação, Jean começando a acreditar que a moça tinha razão ao alertá-lo dos perigos inerentes a um relacionamento com ela. Jean percebeu que a moça não estava em condições de ir pra casa sozinha, preferiu acompanha-la:
-- vamos pegar um táxi até sua casa -- disse ele em tom imperativo.
No trajeto Claire cochilou em seu ombro. Jean sentia-se muito estranho porque a cena era bela apesar de tudo. Ela dormia com tanta suavidade, tão confiante em seus cuidados, que aquilo o enternecia. Entretanto era difícil esquecer da sensação horrível de vê-la conversando tão intimamente com outro rapaz Chegaram à casa de Claire e ela despertou:
-- Jean, entre, fique comigo.
posted by BRUNO MEDINA at 8:33 AM
Domingo, Março 21, 2004
Jean, que já se encontrava quase na esquina, virou-se para trás sorrindo:
-- não esperava encontrá-la acordada tão cedo. Ou será que fui eu quem a acordou fazendo barulho na porta?
-- não, Jean, eu já estava acordada, tenho trabalho logo cedo hoje. Preciso correr para não me atrasar...
-- ah claro, podemos conversar mais tarde então?
-- infelizmente não tenho como saber a que horas vou terminar. É uma sessão de moda, e essas coisas costumam demorar muito. Você vai estar aqui amanhã?
-- sim, estarei por aqui ainda -- respondeu Jean pensando que reação teria Claire caso soubesse que dessa vez ele estava em Paris apenas por sua causa.
-- então me ligue amanhã no final do dia.
-- ainda não tenho seu telefone, você poderia me dar?
--claro -- Claire entrou em casa e voltou com o número anotado num pequeno pedaço de papel -- aqui está.
-- então está bem, amanhã nos falamos -- Jean tentava a todo custo esconder a frustração de ter que esperar por mais um dia e meio antes de ver Claire novamente, mas sabia que era preciso controlar a ansiedade pois a história da dançarina do Molin Rouge ainda ecoava em sua cabeça. Despediu-se da moça com um beijo no rosto e um tímido abraço.
-- você está bem, Jean?
-- sim, estou muito bem, adeus -- e saiu sorrindo porém sem olhar para trás.
Jean seguiu, para algum lugar que ainda não sabia qual era. Claro que havia decepcionado-se com a duração e o teor do encontro. A reação de Claire havia sido apenas cordial, secretamente o rapaz idealizava um tanto mais de intensidade. Apavorava-o a idéia de ser apenas um admirador ordinário, mais um entre tantos outros que a moça deveria possuir. Jean temia principalmente ainda ser apenas uma das personalidades que Claire colecionava; aquela estranha coleção de fotos, a metáfora do Molin Rouge, havia uma conexão entre essas histórias que Jean preferia simplesmente ignorar. Porque não era sem razão pensar que Claire envolvia-se afetivamente com as pessoas que lhe despertavam interesse para depois guardá-las em uma gaveta.
--meu Deus, não devo pensar nisso -- disse Jean para si mesmo -- ainda é muito cedo para concluir alguma coisa sobre Claire. Devo esperar pelo menos até nosso encontro de amanhã, qualquer conclusão antes disso é sofrimento sem razão. Com essa resolução foi possível suspender a elaboração de hipóteses, pelo menos até o dia seguite. Era uma bela manhã a que se inciava em Paris e havia muito que ser feito na cidade. Jean fez um rápido desjejum numa padaria e seguiu para um encontro com um velho amigo. Trata-se de Thierry, um rapaz também de Marseille que estudara com Jean na faculdade. Thierry coordenava a pós-graduação do curso de belas artes numa faculdade em Paris e, dois dias antes da partida, Jean recebera uma ligação desse amigo solicitando encontrar-se com ele o mais breve possível, dito e feito. Jean dirigiu-se a faculdade onde Thierry trabalhava.
Lá chegando percebeu que o amigo agora possuía uma sala onde podia ler-se na porta: coordenação de pós-graduação em belas artes, nada mal para um rapaz de Marseille.
-- Jean, entre, que prazer em revê-lo! Como vai?
-- vou bem, e vejo que você também vai muito bem -- disse Jean inspecionando com os olhos a harmoniosa instalação da sala.
-- tenho acompanhado seus trabalhos, tudo de muito bom gosto, parabéns!
--muito obrigado Thierry.
-- a que se deve essa mala? Está de mudança para Paris?
-- ainda não, mas estou aqui para uma temporada. Pois então, Thierry, você solicitou a minha presença e aqui estou -- disse Jean sentando-se na cadeira.
-- Ah...claro. Meu caro Jean, tenho uma proposta irrecusável para te fazer.
-- pois então fale do que se trata.
-- como você pode perceber agora sou o responsável pela pós-graduação aqui desta faculdade. Ultimamente tenho me empenhado pessoalmente em promover a melhoria dos cursos, tudo estava muito obsoleto quando assumi esse cargo.
Uma das grandes inovações que venho tentando implementar é o intercâmbio de nossa faculdade com outras no exterior. Temos conseguido estabelecer um vínculo bastante significativo com a escola de Nova York, que como você bem sabe é uma das melhores do mundo.
--claro, quanto a isso não restam dúvidas -- intercedeu Jean.
-- A grade de disciplina dos americanos é um pouco diferente da nossa e eles têm se mostrado bastante solícitos em nos participar suas experiências bem-sucedidas, principalmente no que se refere a disciplinas extracurriculares. Meu caro, vou direto ao assunto: quero implementar aqui em nossa faculdade uma disciplina eletiva de ilustração e não consigo pensar em um nome melhor do que o seu para ministrar essas aulas.
-- nossa, que honra, estou sem palavras! -- disse Jean surpreendido pela proposta.
-- mas antes de aceitar o convite preciso que você responda se tem a disponibilidade de passar um mês em Nova York, recebendo o devido treinamento.
-- um mês em Nova York?
-- pense bem, Jean, é uma grande oportunidade profissional, trata-se de uma das melhores faculdades do mundo! Seria uma espécie de preparação didática para torná-lo professor. Você passa um mês em uma das melhores cidades do mundo e ainda volta para a França empregado, é impossível recusar.
De fato essa era de longe a melhor oferta profissional que Jean já recebera. Ele que vivia com a ameaça constante de não ter o provento do dia seguinte, tão comum entre os profissionais liberais, agora poderia ter um salário, um emprego fixo, era bom demais para ser verdade. Mas para abraçar seu futuro promissor era preciso passar um mês no exterior, ou seja, um mês longe de Claire. Envergonharia-o dizer para quem quer que fosse que esse era sim um motivo que dificultaria sua decisão. Por mais insano que pudesse parecer, Jean contava agora os minutos para vê-la novamente e causava-lhe imenso prazer sentir-se interessado dessa forma por uma pessoa. Era descabido interromper essa sensação tão intensa de uma hora para a outra.
-- Thierry, meu amigo, essa é a melhor notícia que recebo em anos! Devo porém confessar que fui pego de surpresa porque nunca me imaginei sendo professor de coisa alguma. Há ainda a viagem para Nova York...preciso colocar meus pensamentos em ordem.
-- É justo que você tenha um tempo para analisar a proposta. Infelizmente preciso de uma resposta até amanhã pois o curso se inicia dentro de cinco dias. Caso não escolha uma pessoa a tempo terei que esperar por mais um semestre.
-- Cinco dias? É ainda antes do que eu imaginava...bom, sei de seus prazos e prometo apressar minha decisão. Amanhã estarei preparado para dar uma resposta.
Jean despediu-se do amigo e deixou a faculdade ainda mais confuso do que quando entrara. Dessa vez não ficaria na casa do amigo Théodore como de costume, sentia que essa decisão que ele haveria de tomar tão abruptamente cabia exclusivamente a ele, não existia espaço para nenhuma opinião externa. Portanto era mais prudente ficar num hotel tendo como companhia apenas suas especulações sobre o futuro: como seria tornar-se professor? O que esperar de Nova York? Como se manifestaria nele à falta de Claire? Todas perguntas sem possibilidade de resposta imediata.
Enquanto seu pensamento voava no pequeno quarto de hotel, Jean desenhava formas, paisagens, pessoas, tentando expurgar de si sua angustia, tentando registrar em papel suas dúvidas para que de alguma forma pude-se lê-las e interpretá-las. Havia porém um aspecto positivo nisso tudo: a angustia de não saber o que esperar de Claire, que o sufocava, deu lugar à outra angustia: a de não saber o que esperar de si próprio, e isso era de certo modo mais confortável. A noite caiu e Jean adormeceu profundamente. Acordou de madrugada vestiu-se e saiu pelas ruas. Andou muito. Pensava em Claire, no outro lado do Atlântico, na nova vida de professor. Quando deu por si estava o dia amanhecendo e ele em frente ao Arco do Triunfo. Em torno do Arco carros cruzavam em todas as direções, num intrigante e complexo balé. Jean passou um tempo ali e refletiu sobre a existência de uma lógica que aparentemente não enxergamos, uma lógica que rege o caos. Assim como os carros não colidem ao tangenciarem o Arco vindos de direções distintas, de alguma forma sua vida se encarregaria de abarcar tantas possibilidades, tantos rumos que poderia ele assumir a partir de uma única decisão. Jean atravessou a rua e propôs para si mesmo passar por sob o Arco e, ao sair na outra extremidade, já ter tomado uma decisão. A imponência do Arco fazia com que se sentisse muito pequeno, assim como nós muitas vezes nos sentimos em relação a nossa própria sorte. Caminhou lentamente tendo a frente o sol que nascia, o mundo parou para observar sua caminhada. Chegou à outra extremidade e a decisão estava tomada.
posted by BRUNO MEDINA at 12:49 PM
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