Terça-feira, Março 30, 2004
Jean abriu sua mala, pegou a primeira roupa que saltou para fora e foi, todo amarrotado, encontrar seu futuro chefe. Quando pisou de novo na faculdade já se sentia professor: cumprimentava os transeuntes com a cabeça, sorria, preocupava-se com a postura, queria causar boa impressão.
-- Jean, até que enfim você voltou! ¿ disse o amigo Thierry abraçando-o.
-- Sim, voltei, cheguei ontem mesmo.
-- E então, o que me diz de Nova York, do curso...
-- Foi tudo ótimo, um período de grande aprendizado para mim.
-- Sua matéria já foi inscrita na lista de disciplinas para esse semestre e tem sido bastante requisitada pelos alunos, acho que será um grande sucesso!
-- Espero que o professor esteja à altura de tanto interesse ¿ interveio Jean.
-- Tenho certeza que estará. Bom, o semestre começara amanhã, sua primeira aula será daqui a dois dias, está preparado?
-- Sim, estou, quero começar o quanto antes.
-- A propósito, você já se mudou definitivamente para Paris?
Essa era uma pergunta difícil de responder. Jean havia fechado seu apartamento em Marseille sem pensar muito em como seriam os próximos meses de sua vida. Claire surgiu e ele não teve tempo de pensar em nada, que precisaria, por exemplo, de um lugar para morar em Paris por ocasião do novo emprego. O amigo Théodore certamente poderia prestar-lhe alguma ajuda, mas era preciso encontrar um lugar para morar efetivamente. Saiu da faculdade concentrado nesse propósito, resolveu até comprar o jornal para olhar as ofertas. No caminho constatou que não havia conversado com Claire sobre sua permanência no apartamento subterrâneo; chegou com a mala, que ainda repousava na sala, e nada falou sobre o tempo de permanência, ela também não lhe perguntou, precisavam definitivamente conversar. A tarde passou rápido e Claire logo estava de volta em casa. A chave girou na porta, Jean aguardava-a sentado na poltrona:
-- Olá
-- Olá, como foi o dia?
-- Bem, bem, tudo correu bem -- Claire pousou a bolsa sobre a mesa ¿ mas então, o que você fez hoje?
-- Hoje eu fui à faculdade falar com Thierry, minha primeira aula é daqui a dois dias.
-- Que ótimo, muito bom.
A conversa estava estranhamente fria, o carinho do dia anterior tinha se esvaído. Claire não chegara perto dele desde que adentrou a porta, nem um beijo sequer, parecia preocupada:
-- Aconteceu alguma coisa, Claire?
-- Não exatamente mas acho que precisamos conversar.
-- Pois diga, o que é que a aflige tanto?
-- Jean, não me sinto bem com você aqui. Sua mala na sala, de repente parece que esse lugar deixou de ser meu, não sei. Não estou acostumada a receber pessoas em minha casa, em minha cama, eu preciso desse espaço, não sei se estou disposta a dividi-lo com alguém, entende?
-- Sim, claro que entendo ¿ Jean estava certo. A cena da chegada com a pesada mala fora de fato muito forte para Claire ¿ Está tudo bem, eu vou embora, vou para a casa de meu amigo Théodore aqui perto, não há problema. Perdoe-me por ter invadido sua casa dessa maneira abrupta.
-- Está tudo bem, Jean, não é uma grande coisa, só disse para que não nos desentendamos, mas você pode dormir aqui hoje se quiser e partir amanhã de manhã...
-- Não me sentiria confortável, prefiro partir agora mesmo.
-- Jean, você ficou chateado...
-- Não Claire, compreendo sua necessidade de espaço, eu que fui um estúpido.
-- Você não foi estúpido.
-- Talvez impulsivo ¿ disse Jean com uma leve ironia.
Essa era Claire, uma pessoa com muita dificuldade de fazer concessões. Devido a essa situação Jean apercebeu-se pela primeira vez que esse tipo de atrito seria constante na relação deles. Ele costuma ter fé no que o envolvia, mergulhava de cabeça, pagava pra ver e Claire hesitava, pensava, considerava. Eles possuíam naturezas diferentes, quase opostas e Jean não estava disposto a mudar esse aspecto de sua personalidade porque pensava que essa força, essa crença tão características dele, eram fundamentais para que as coisas funcionassem. Quando chegou em Paris poderia ter procurado um hotel, ou mesmo Théodore, entretanto preferiu a casa de Claire, porque achava que essa escolha dizia muito sobre ele e, conseqüentemente, sobre a sua forma de conduzir a vida. E se queria ter algo mais significativo com Claire, deveria mostrar-se logo como realmente era.
Jean partiu então para a casa de Théodore e quando este abriu a porta tomou um susto, pois fazia um bom tempo que não sabia do amigo.
-- Estou vindo de Nova York, agora sou professor e estou apaixonado ¿ disse Jean de uma só vez, os dois caíram na gargalhada.
-- O que é isso, Jean? E onde eu estava esse tempo todo? O que se passa em sua vida?
-- Calma, eu vou explicar...
Os dois conversaram durante horas. Jean contou-lhe absolutamente tudo que havia acontecido nos dois últimos meses. Théodore ofereceu sua casa ao amigo, pelo tempo que fosse, e Jean aceitou ficar lá por alguns dias até encontrar um apartamento.
-- Mas que história...preciso conhecer essa moça ¿ disse Théodore ainda atordoado com tantas novidades.
-- Acredito que você vai conhece-la, não sei ao certo.
Jean passou os dias seguintes matando as saudades do amigo. Nesse tempo preferiu não entrar em contato com Claire, pois já estava acostumando-se com a sazonalidade da relação. Se ela precisava de espaço ou de tempo então o melhor que ele tinha a fazer agora era seguir sua própria vida, sem pressa de reencontrá-la, o acaso se encarregaria. Era difícil estar tão perto, no mesmo bairro, e não poder vê-la, mas afinal de contas a temporada em Nova York tinha servido para que Jean aprendesse a dominar sua saudade. No mais esses dois dias antes de iniciarem-se as aulas eram necessários para que se acomodasse na casa de Théodore, desfizesse as malas e se preparasse para o desafio de ser professor. E chegou finalmente o seu primeiro dia de aula na faculdade, Jean estava nervoso. Sabia que não podia desapontar Thierry e nem a ele mesmo. Acordou ansioso, muito cedo, e ficou decidindo qual blusa lhe imputaria maior respeitabilidade. Quando chegou a conclusão de que suas roupas não se pareciam com as de um professor, vestiu uma blusa qualquer e seguiu para a faculdade.
Passou na sala de Thierry, conheceu os colegas e em seguida dirigiu-se para sua sala de aula. A turma aguardava-o em silêncio; eram todos jovens, pouco mais jovens do que ele, e a princípio sentiu um calafrio, não sabia o que dizer exatamente, tinha medo de ser descoberto como impostor. Mas aos poucos foi se lembrando dos ensinamentos do curso, da confiança que o amigo Thierry depositava nele e sua primeira aula seguiu sem maiores complicações. Ao final estava satisfeito e aliviado, certo de que aquela nova atividade poderia tornar-se uma paixão. Animava-o pensar nas próximas aulas, no que ensinaria para seus alunos, e assim uma semana passou. Agora sua vida profissional havia tornado-se prioridade e Claire estava em segundo plano. Essa situação perdurou até que um sonho mudasse tudo; Jean acordou de sobressalto, no meio da noite, e pensou em Claire e na distância que havia entre eles nesse momento: um abismo imensurável ou apenas duas ruas para a esquerda? Tomado ainda pelo sono Jean resolveu escrever-lhe uma carta:
Estimada Claire:.
Hoje acordei querendo escrever a carta mais bonita do mundo. Munido de algumas boas frases e bastante pretensão não tive outra opção a não ser dar vazão a esse desejo. Dessa vez as idéias não estão tão claras como de costume, e essa é exatamente a melhor das matérias-primas para grandes textos, o não saber onde se quer chegar. Queria saber relativizar melhor os termos, o juízo, as expectativas a serem frustradas, mas no fundo concluo que não. Concluo que criar expectativas faz parte da minha vida, é gostoso, e frustrar essas expectativas faz parte do jogo. Mas que jogo? Não sei, deve haver algum. Às vezes em relação a você me sinto como o tripulante de 2001-Uma Odisséia no Espaço, vagando na órbita da terra, em silêncio. Sou um personagem do Kubrick, talvez eu seja o monólito. Talvez eu seja tão antigo e tão resistente que vou passar por eras e eras, sem que ninguém entenda exatamente o porquê da minha existência. Eu entro e saio de relacionamentos assim, como um mármore preto: rígido e frio. Eu trafego em sua órbita porque onde vc está não há gravidade. Não é possível pisar em seu solo, nem fazer experimentos com seus minérios, você não permite. De tão sensível, tem medo das minhas pegadas, ali, marcadas sem nenhum vento pra levar.
Eu concordo com você, Claire, concordo mesmo. Tudo que você me disse sobre ter seu espaço na última vez que nos encontramos foi muito sensato. Estou aqui te dando o tempo que você precisa para digerir tanta novidade. Acabei de ter um sonho e esta é a razão pela qual te escrevo agora. No sonho eu entrava num quarto e havia uma menina deitada no escuro, pairava um clima triste no ar. A menina estava de bruços, e eu puxei-a pelos ombros a fim de dizer-lhe algumas palavras de conforto, eu tinha certeza que era você, mas não era. Tratava-se de uma menina por quem me apaixonei na faculdade e com quem já não falo há anos. Acordei com a nítida impressão de que esse sonho foi uma mensagem: resolva tudo o quanto antes, não crie fantasmas, então eu resolvi escreve-la. Quero estar bem com você portanto deixe-me conhece-la e prometo esforçar-me para compreender seus sinais. Uma relação não se torna forte de um dia para outro, tenha paciência e permita-se tentar e errar também, é o que vou fazer daqui. Agora o próximo passou é seu: no envelope encontra-se o endereço e o telefone de onde estou, procure-me quando quiser.
Um beijo,
Jean
Jean nem esperou amanhecer, assim que acabou de escrever colocou a carta por baixo da porta do apartamento de Claire e voltou a dormir. A resposta veio no dia seguinte: na caixa de correio de Théodore um envelope azul endereçado a ele com a seguinte inscrição em letras pequenas:
Jean, quer namorar comigo?
posted by BRUNO MEDINA at 4:09 PM
Segunda-feira, Março 29, 2004
Sim, era possível, e Jean desceu em Paris. Ao sair do avião gostou de ver a França novamente: a organização familiar dos elementos, a cara de sua gente, o findar da desconfortável sensação de ser um estrangeiro. Pegou um táxi do aeroporto direto para a casa de Claire, sem hesitação. Jean havia mudado de estratégia; Claire se armava tanto a cada encontro que dessa vez ele queria apanha-la desprevenida, arriscou tentar vê-la sem a usual armadura, por isso foi sem avisar. A moça certamente se surpreenderia com a chegada de Jean, assim, de supetão, de mala em sua porta, a reação era imprevisível, mas ele pensava que essa iniciativa era fundamental para ajuda-lo a chegar até um lado de Claire que ela mesma não deixava transparecer, era como arrombar seu coração com um pé-de-cabra. No mais fazia quase vinte dias que não se falavam e, por mais que ele tivesse aprendido a lidar com essa ausência, estava feliz por regressar e queria muito revê-la, e isso lhe era suficiente como motivo.
A noite caía sobre a cidade quando Jean chegou à casa de Claire. Desceu as escadas para o apartamento da moça, pousou as malas no chão e tocou a campainha. Nesse instante de iminência, nesses segundos que antecediam a abertura da porta, Jean considerou que talvez estivesse fazendo uma grande besteira. Como seria para Claire vê-lo na porta de sua casa com uma mala enorme? Claro que tudo se explicaria em segundos, mas não era essa imagem por si só demasiadamente forte? Porque a mensagem implícita nessa ocasião é que Jean desembarcava em definitivo em Paris e na vida de Claire, isso provavelmente iria assusta-la. Entretanto o desejo de vê-la era enorme e em Nova York Jean aprendera a confiar no acaso, assim como a própria Claire um dia o havia dito. Isso foi tudo em que ele conseguiu pensar até o momento da abertura da porta, agora vinha a constatação:
-- Jean! -- Claire abraçou-o imediatamente -- Eu não sabia que dia você iria chegar, que surpresa boa!
-- Ainda bem que você gostou, temi desagrada-la com meu ímpeto.
-- Não, de jeito nenhum, estou feliz em revê-lo, você não me escreveu mais, não ligou, pensei que estivesse chateado comigo. Essa malas, você...
--...sim, vim direto do aeroporto.
-- eu poderia tê-lo apanhado lá se tivesse sido avisada.
-- eu preferi faze-la uma surpresa -- disse Jean sorrindo.
-- então melhor assim. Entre, coloque suas malas naquele canto.
E como se nunca houvessem se desentendido, Jean estava de volta na vida de Claire. Talvez ambos tivessem a consciência de que aquele princípio de noite testemunhava uma trégua; as armas estavam postas no chão, as duras palavras de outrora repousavam em lugar seguro, onde ninguém se lembrava delas, pelo menos por aquela noite. Ambos sabiam que haviam atingido um nível perigoso de tensão, e que a partir dali era melhor recuar pois havia risco que a relação sofresse danos irreparáveis. E muitas vezes um dos dois acabou recuando, cedendo, porque não lhes interessava romper definitivamente. Por mais que se desentendessem, por maior que fosse o agravo, havia sempre um jeito de retomar. Quando Jean ficou vinte dias sem contato com Claire na verdade durante esse período ele se pôs numa espécie de módulo de segurança, onde permaneceu até que sua raiva diminuísse, para que de novo tivesse condições emocionais de lidar com ela.
Lá também esteve a salvo de mais decepções, era uma espécie de campo neutro, um lugar onde era possível descansar da batalha que travaram. Quando Jean voltou, Claire, por sua vez, tratou logo de mostrá-lo que era bem-vindo, que sentira sua falta. E esse era o ponto de equilíbrio da relação, assim se entendiam. O grande problema se dá quando o tempo alarga esses limites de tolerância, então as regras estabelecidas começam a ser desrespeitadas e os envolvidos passam a ferir-se de verdade.
Jean abriu sua mala e tirou de dentro uma sacola repleta de presentes para Claire. Ela jogou a sacola sobre a cama e sorriu porque sabia que cada um daqueles presentes representava um momento em que Jean havia pensado nela, e eram muitos. Claro que era bom constatar que Jean havia sentido saudades, entretanto melhor ainda era perceber que mesmo distante ela se fizera muito assídua em seu pensamento. Era delicioso saber que na batalha que tinha travado com Nova York pela atenção do rapaz ela nitidamente havia saído vencedora.
-- muito obrigado, Jean, é tudo lindo! Estou feliz com meus presentes. -- disse Claire abraçando-os.
-- não há de que, são apenas bugigangas, souvenires que atraíram a atenção de um francês num país distante -- tentou minimizar Jean.
Depois da abertura e da explicação do porquê de cada um dos presentes, os dois deitaram-se na cama e por lá ficaram por muitas horas, matando as saudades, contando histórias do que havia acontecido em suas vidas no decorrer daquele mês. Conversaram sobre as cartas de novo, dessa vez pessoalmente, e tudo foi muito melhor. Na impessoalidade das palavras escritas faltou o olhar, faltaram gestos e expressões que fizeram tudo que fora dito assumir uma tonalidade muito mais tênue dessa vez. Manejaram muito bem a primeira briga que tiveram e agora estavam mais fortes, mais íntimos, sentiam que conheciam mais um ao outro, e era inegável que a viagem fora fundamental para que mudassem de fase dentro do relacionamento.
Nessa noite não saíram nem para comer. Eram tantas histórias a serem contadas que entre o amor e as conversas o dia clareou, depois disso finalmente dormiram e acordaram quase ao meio-dia do dia seguinte. Claire saiu antes porque tinha um compromisso, Jean permaneceu na cama. Quando deu-se por si estava sozinho naquele lugar que tanto imaginara a distância. De Nova York via-se descendo a escada, abrindo a porta e encontrando Claire, algumas vezes sonhou com isso. A casa vazia, as mesmas fotos sobre a mesa, talvez a pilha estivesse um pouco maior agora, as roupas atiradas pelo chão, as máquinas fotográficas jogadas pela poltrona, penduradas atrás da porta, aquele era o cenário que Jean precisava desvendar. Como um detetive na cena do crime, ele tinha agora um tempo para procurar entender aqueles elementos aparentemente tão desconexos e tirar daquela cena uma verdade, uma constatação.
Pôs-se a olhar de novo as fotos, as fotos do metrô, e novamente deparou-se com a sua própria, no meio da pilha. Ali estava ele, quase dois meses antes, e era incrível quantas voltas o mundo já havia dado desde que aquela foto fora tirada. Achou-se mais jovem na foto, aquele não era definitivamente o mesmo olhar que tinha agora depois das experiências vividas em Nova York. Olhar para aquela foto fazia-o lembrar de que um dia ele fora apenas mais um objeto de observação, e que caminhos tortuosos haviam o trazido para ali, para a casa de Claire, no dia anterior, com uma mala enorme, vindo de tão longe. Aquele mesmo apartamento já havia presenciado tantos Jeans diferentes, tantos estados de espírito antagônicos, era de fato impressionante. Percebeu que havia um bilhete sobre a mesa:
Querido Jean:
Espero que tenha dormido bem. Caso acorde com fome há alguma coisa para comer na geladeira. Precisei comparecer a um compromisso, caso precise sair também leve a chave reserva que está pendurada atrás da porta. Estarei em casa novamente por volta das 17hs
Um beijo e até!
Claire.
O bilhete de Claire lembrou-o de que ele também tinha um compromisso, precisava encontrar-se com Thierry e apresentar-se para o novo emprego. Olhou pela janela e o sol brilhava intensamente, parecia que o sol finalmente voltara a brilhar para ele: estava de volta ao seu país, tinha um bom emprego e agora recebia bilhetinhos carinhosos de Claire, tinha em mãos a chave da casa dela. Parecia que depois do sacrifício ele finalmente recebia a recompensa pelas decisões difíceis que havia tomado. Parecia que o tempo que havia levado fora fundamental para aumentar o prazer daquele momento, sentia-se novamente no topo do mundo. Mas todos que sobem rápido demais precisam ter consciência de onde se encontram, porque, como diz o ditado, quanto maior a altura, maior o tombo.
posted by BRUNO MEDINA at 11:41 AM
Sexta-feira, Março 26, 2004
Sentou-se na cama de seu quarto, pegou o telefone, olhou para o relógio, ela deveria estar em casa pela hora. Digitou a complicada combinação de números e o telefone pôs-se a tocar. Claire atendeu e pareceu surpresa com a iniciativa de Jean. A conversa não fluía como antigamente, os silêncios eram insuportáveis, tanta coisa sem importância foi dita, assim como quando um assunto quer vir à tona e não pode, era angustiante. Aos poucos eles conseguiram tratar do que realmente importava, as cartas:
-- Surpreendeu-me a sua carta -- disse Jean.
-- A sua também me surpreendeu.
-- Acho que realmente me deixei levar pelas circunstâncias.
-- Jean, não se defenda de uma boa intenção, aquilo era o que você sentia, você disse e pronto. Meu intuito foi apenas o de ser sincera com você, e foi difícil.
-- Pode ser impressão minha mas às vezes penso que você não se deixaria levar por um sentimento como o meu, mesmo que o quisesse.
-- é possível.
-- Ah, Claire, do que você tem mais medo? De você ou de mim?
-- Dos dois, eu acho. Eu não quero faze-lo sofrer.
-- Mas o sofrimento é inerente a existência, não é possível controlar isso. Tudo que nos afeta nos angustia, porque é relevante, porque se é bom causa medo de perder...
-- Eu acho bonita a sua forma de ver as coisas mas não creio que comigo seja assim. Estou sempre em dúvida do que sinto, nada é tão claro para mim, e acabo fazendo o que acho mais prudente.
-- Prudência é uma palavra que não combina com nossa situação. Não se contente em viver nesse limbo de sensações, procure as respostas para as suas questões, sua vida será mais fácil. Você vive dentro de uma bolha, isolada dos sentidos! Analisa tudo ao invés de sentir.
-- Talvez você tenha razão, mas esse é o jeito que sou, não sei se há algo para ser consertado.
-- Acho que você é muito jovem para aceitar uma sina, mas isso não diz respeito a mim, você provavelmente nem se incomoda tanto com isso. A decisão é sua, a vida é sua. Vou desligar agora.
A conversa deixou Jean arrasado. Sentia que o que havia entre eles agora lhe escorria pelas mãos. Na tentativa de compreender a reação de Claire ele relativizava seu próprio juízo, desconsiderava o que fora dito por ela, queria de qualquer forma encontrar uma mensagem secreta naquelas secas palavras. Pedia aos céus mais sensibilidade, porque talvez o problema fosse esse, talvez ele não estivesse sendo sensível o suficiente para compreender aquela alma feminina. Ou talvez não houvesse nada para ser adivinhado, não havia nenhum mal entendido.
De tanto criar hipóteses Jean se perdeu, não havia mais referência confiável para suas suposições e ainda sim tudo continuava confuso do mesmo jeito. A sensação era de impotência, nada poderia ser feito a não ser esperar o tempo passar. Jean percebeu que, de Nova York, suas palavras pareciam sofrer algum tipo de distorção; as escritas e as faladas chegavam em Paris de uma outra forma, sob a qual ele não tinha controle e muito diferentes do que ele pretendia. Não, o problema não era suas palavras, a distância era a verdadeira vilã. Fora ela que cobrara saudades de Claire, saudades essa que ela temia sentir e nem conseguia ter o distanciamento para concluir se sentia ou não. Porque ela tinha medo, muito medo de sentir qualquer coisa. A distância tirou-lhes a amenidade do dia a dia e imputou àquela relação um peso incompatível com a idade. Era isso que Jean temia, e foi justamente o que aconteceu: sua relação com Claire fora inquirida muito antes de estar pronta para responder o que fosse. Agora fazia dez dias de sua partida, ainda faltavam outros vinte, o dobro do tempo que tinha se passado. Jean pensou que não suportaria, parecia-lhe uma eternidade o tanto de tempo que ainda precisaria passar em Nova York. Como os deuses, aprendeu a conformar-se com o infinito.
O curso seguia exigindo bastante dedicação, entretanto Jean criou um tempo que não possuía para aproveitar a cidade. Pensou que outra oportunidade como aquela não surgiria tão cedo e dedicou os dias que lhe restavam a viver intensamente. Às vezes o sono lhe cobrava durante as aulas, e a imagem de francês arrogante que possuía desde sempre entre os professores, agora ainda ganhava reforço na expressão desinteressada e sonolenta de Jean. Apaixonou-se pela vida boêmia de Nova York, varava noites consecutivas, participava ativamente das atividades culturais da cidade, conheceu pessoas, fez amigos, inimigos e em vinte dias viveu mais do que alguns o fariam em um ano. Mas essa gana tardia tinha um motivo; Claire. Era para ela que queria narrar suas descobertas, para ela queria exibir seu conhecimento, sua vivência boêmia, e por ela queria retornar. Jean sabia, porém, que qualquer contato que não fosse pessoalmente seria um desatino.
A lição recebida através das dificuldades impostas pela distância fora muita bem assimilada por ele, e o tempo finalmente passou, chegou o dia de sua partida. Na mala o diploma de conclusão do curso e um outro que não era possível enxergar, o que lhe conferia a excelência no autoconhecimento. Em trinta dias Jean se reinventou: aprendeu os atalhos para sua alma, os mecanismos de defesa de suas inseguranças e voltou para sua terra um pouco mais consciente de si. Entretanto esse tipo de consciência era a perda de sua inocência, porque Jean agora era inegavelmente menos crente de suas antigas convicções. E tudo era tão mais fácil pela ótica do que ele era há um mês, tanta coisa ele não entendia, não enxergava.
O novo Jean via tudo, nele sentimentos nobres e mesquinhos viviam lado a lado, eles eram iguais. Sua alma casta tornara-se mundana, e isso era bom. Porque Claire é o mundo lá fora e Jean queria conhece-lo, o quanto antes. Muito tempo perdera vivendo dentro de sua casca, em sua pequena Marseille, mas agora estava em Nova York. Claire era Nova York. A sensação de que dentro de cada beco, de cada porta da personalidade dela, havia algo de infame e de delicioso para ser vivenciado. Não havia mais certo e errado, nem caminho a ser seguido, cada dia, cada beco, cada sentido, continha em si sua própria sorte. Jean aprendeu a relatividade dos sentidos, e que lição tinha sido essa; fizera-o nutrir raiva e gratidão por sua mestra. Claire fora responsável pelo despertar de Jean, e ver o mundo depois de conhece-la era desconcertante porém instigante. Ao deixar o alojamento da faculdade Jean fez questão de dar uma banana para Nova York. Era um desabafo e ao mesmo tempo um cumprimento respeitoso à cidade onde ele viu o melhor e o pior da vida. Chegando ao aeroporto dirigiu-se ao balcão da companhia aérea, a atendente confirmou as informações:
-- Nova York-Paris-Marseille, está correto?
-- Não, mudei de idéia, vou desembarcar em Paris, é possível?
posted by BRUNO MEDINA at 2:38 PM
Quinta-feira, Março 25, 2004
Os dias que se seguiram foram difíceis para ele. Acometia-o um misto de ansiedade, medo, apreensão e expectativa. Aos poucos aprendia a lidar com a cidade, com a mentalidade americana, tão diferente da européia, com a rigidez dos professores no curso. A saudade de Claire estava presente, e era enorme, mas Jean parecia ter perdido um pouco da habilidade de manejar esse sentimento. Sentia-se distante de Claire, não só pelo oceano que havia entre os dois mas também por não conseguir determinar se aquilo tudo que haviam vivido pouco antes de sua partida era um devaneio, uma febre de verão, ou algo realmente significativo dentro de um relacionamento. Queria entrar em contato com Claire de alguma forma mas lembrava-se de que na despedida ela lhe dissera que acreditasse no acaso e talvez esse fosse um indício para Jean relaxar, não dar tanta importância ao que estava por vir. Será? Tudo era especulação e Jean já sofria por demais com a distância, preferiu então sondar os sentimentos de Claire, resolveu escrever-lhe uma carta:
Querida Claire:
Os dias passam muito lentamente aqui em Nova York. Há muito para ser visto, e tudo é fascinante, mas cada detalhe dessa cidade me lembra você e tenho plena consciência dos muitos dias que ainda faltam para nosso reencontro. A saudade aterradora, que me acompanha quase sempre, às vezes sai para passear; assiste a uma peça na Broadway, caminha no Central Park, visita galerias de arte no Soho, conversa com os punks do Village, faz compras na Quinta Avenida mas volta, sempre volta a noite e me pergunta onde estive o dia todo. Eu digo que estive aí, em Paris, ao seu lado, porque estar sozinho numa cidade maravilhosa como Nova York é por demais cruel. O curso preenche bastante o meu tempo e tenho aprendido muito, acho que voltarei preparado e digno da confiança que me foi conferida por Thierry. Porém, acho que a maior lição que tenho recebido é a de descobrir quem realmente sou. Estando longe de minha terra natal parece que aqui em Manhattam, no topo de um prédio qualquer, com algum esforço consigo me ver em Marseille, seguindo minha rotina, e é possível perceber claramente o que quero e o que não quero mudar em minha vida. Você eu não quero mudar. Quero que faça parte cada vez mais dos meus dias, acho que ainda há muito para vivermos juntos. Mas vamos faze-lo sem pressa, de acordo com a maré, agora é momento de estar à deriva e daqui tratarei de içar minhas velas, rodopiando em busca de um vento qualquer que venha daí e que mova meu barco à diante. Poderia escrever-lhe páginas e mais páginas sobre as maravilhas dessa cidade, mas o intuito principal dessa carta foi o de saber se você está bem. Ainda guardo muito nitidamente na memória aqueles dias maravilhosos em Marseille, e isso é o que me dá forças para continuar aqui, cumprindo esta etapa da minha vida e procurando tirar dela o máximo de aprendizado que for possível. Agora preciso ir pois os americanos não se enternecem com poesia; um atraso para a aula não teria justificativas nessa carta.
Um beijo grande!
Jean
Cinco dias depois chegou a resposta:
Jean,
Foi bom receber sua carta. Eu quero responde-la, não sei se tenho resposta, mas quero dizer-lhe alguma coisa, até porque você está longe e nosso princípio de rotina pode e provavelmente vai desaparecer de repente, deixando um vazio a mais no meu cotidiano, na minha vida aqui. Acho que tudo bem, é assim mesmo que deveria ser. Depois de nossos dias juntos, de coisas efetivamente vividas, agora temos que nos resumir às palavras escritas, tendo que definir as coisas em termos, frases, parágrafos, é mesmo muito diferente, mas também é bom.
Foi gostoso, muito, ter estado com você. Eu não esperava nada disso, não queria conhecer ninguém e achava bem provável que não passássemos do primeiro encontro, porque as palavras nem sempre se cumprem quando os corpos se encontram. Entretanto nos encontramos, você me fez rir, me fez sentir bem, ficar à vontade, ter prazer. Eu não conseguia entender porque você não me olhava direto nos olhos, achava um tanto esquisito, mas depois você olhou, e sorriu bonito, e disse coisas surpreendentes - outra vez, essa palavra. Jean, eu não quero jogar. Não quero te deixar achando coisas que não são. Eu não estou apaixonada por você, não sei se poderia ficar, eu acredito que a gente sabe de cara essas coisas, mas posso estar enganada. Eu não tenho muitas respostas, eu sempre fui melhor com perguntas, muitas vezes nem quero ouvir resposta nenhuma, prefiro mesmo seguir errante. Quando me apaixonei, eu inventei muito, acho que todo mundo inventa, e com você não houve invenção nenhuma, a sua personalidade foi se revelando pra mim aos poucos, e eu sinto que o que conheço de você hoje é conseqüência do que vivemos juntos muito mais do que da minha imaginação. Entretanto eu também gosto, muito, de imaginar, fantasiar, sentir saudade - e isso só o tempo pode dizer se acontecerá ou não. Então essa carta aqui não é uma resposta, mas sim uma tentativa de ser sincera com você, de usar as palavras mais simples, que são também as mais difíceis de serem usadas. Tomara que eu tenha conseguido fazer isso sem machuca-lo.
um beijo.
Claire
A sinceridade de Claire foi recebida como a visita de um oficial de justiça: uma intimação de comparecimento a um julgamento. Jean precisava rever seus sentimentos. O que mais lhe doía no entanto não era perceber que o que sentia não era correspondido com a mesma intensidade e sim constatar que Claire era uma pessoa que conseguia investigar suas emoções com a frieza e a praticidade de um detetive, como ela podia falar de paixão daquela forma? Como ela conseguia ser tão direta? Isso o assustava. Porque a paixão poderia vir com o tempo, ou mesmo a dele poderia fenecer, mas Claire dificilmente mudaria sua forma de sentir, e isso sim era algo a ser lamentado. Constatou que os momentos vividos juntos foram ótimos, mas que não haviam servido para erguer coisa alguma. Jean provavelmente se deixara levar pela emoção ou pela distância, havia esmorecido a guarda montada em prol de não desempenhar o papel que Claire tanto temia na prórpia vida. Ele tinha tentado por sela num cavalo selvagem, tomou o tombo, mas aprendeu a lição: caso quisesse seguir em frente era preciso chegar com menos afinco. Jean dobrou a carta, guardou-a no bolso e procurou não pensar mais em Claire entretanto ele sabia que esse era um estágio passageiro, uma reação natural de quem havia tomado um balde de água fria. Alguns dias se passaram e quantas vezes ele lera aquela carta, tentando encontrar conexão entre cada palavra, sendo advogado de defesa e acusação no mesmo tribunal, aquele de onde viria o veredicto que nortearia seu próximo passo. A decisão foi favorável a defesa, Jean decidiu telefonar para Claire.
posted by BRUNO MEDINA at 11:39 AM
Quarta-feira, Março 24, 2004
-- você está vindo pra cá? -- Jean tinha entendido perfeitamente da primeira vez, mas perguntou novamente denotando a responsabilidade que havia naquela frase. Quis dar a sua própria sorte a chance de reconsiderar.
-- sim, Jean estou indo para aí! Agora deixe me ir que ligo da estação e o trem já soou o primeiro silvo de partida.
Desligou o telefone. Jean estava exultante com a notícia de que aquela que ele pensou não rever antes de um mês, em algumas horas estaria ao seu lado, em sua cidade. Ria sozinho, andava pela casa, cantarolava e jogava roupas dentro da mala sem considerar. Nada mais importava a não ser que Claire estava preste a chegar. A partir do inesperado telefonema logicamente não foi mais possível dormir, então Jean passou as horas que ainda faltavam para o re-encontro pensando nos lugares que precisavam visitar juntos, nas coisas que Claire não poderia deixar de ver, em todos os momentos lindos que viveriam naqueles dois dias que lhe sobravam. Dois dias de abono, dois dias extras com Claire.
As horas restantes demoraram muito a passar e trinta minutos antes do combinado Jean já estava na estação, a espera de sua querida. O trem vindo de Paris não demorou a anunciar-se no horizonte, cortando a alvorada em dois e fazendo disparar o coração de Jean. O comboio desacelerava enquanto Jean percorria toda a extremidade dos vagões procurando Claire em cada janela, em cada rosto adormecido. As portas se abriram e não custou muito para que ela aparecesse com seu sorriso de ponta a ponta e uma pequena mala, Jean correu ao seu encontro e abraçou-a longamente. Rodopiaram no ar de felicidade, sem fazer perguntas, sem procurar entender o que significava, Jean só queria viver.
-- essa é a melhor surpresa de todos os tempos! -- disse ele.
-- vamos, me leve daqui!
Jean pegou Claire pelas mãos e correram. Correram mais que o vento, correram das questões mal resolvidas, das hesitações, dos medos, das meias palavras, correram tanto que chegaram na praia. Era lindo aquele dia de verão no mediterrâneo. Sentaram-se na areia, com o sol começando a despontar, e ali ficaram durante longos minutos olhando-se nos olhos, sem nada dizer. Nenhum dos dois queria profanar aquele momento lúdico com palavras:
-- cuidado com os seus olhos, Claire, eles falam...
-- ah é? E o que dizem agora?
-- você não suportaria saber..
E o dia passou. Visitaram todos os recantos da memória de Jean pela cidade, contou-a a história de cada lugar, levou-a a provar cada sensação que o orgulhava em sua cidade, cada sabor, cada paisagem, cada pessoa. Jantaram romanticamente e se amaram por toda noite.
-- que sorte a minha tê-la aqui, parece tudo um sonho.
-- sonho? Sonho é destino. Vivamos nossa sorte!
E desse jeito outro dia se passou. Jean partiria no dia seguinte e havia ainda muito a ser providenciado para a viagem, agora ele quase odiava a viagem. Porque essa partida, que lhe era tão importante, por-se-ia no meio de um dos momentos mais felizes que já tivera. Findado o segundo dia, Claire precisava voltar para Paris a fim de retomar sua vida profissional e Jean tinha poucas horas antes do embarque para Nova York. A despedida definitiva dos dois foi na estação de trem, ambos embriagados de sono pelas noites mal dormidas, Jean duas vezes mais apaixonado do que quando partira de Paris:
-- sentirei muito sua falta, mas eu volto -- disse Jean a beira das lágrimas.
-- eu sei. Vai passar rápido, você vai ver.
-- tenho medo disso tudo.
-- eu também. Mas você não confia no acaso?
-- não, eu confio em sentimentos, em pessoas...do acaso eu duvido.
-- mas é ele que rege nossas vidas, não tenha dúvida -- respondeu Claire colocando um tanto de realidade naquele derradeiro diálogo.
-- então que o acaso seja nosso amigo!
Ouviu-se o último aviso, o trem estava pronto para partir.
-- agora preciso ir Jean -- Claire beijou-o longamente e entrou no trem sem olhar pra trás.
Jean permaneceu na estação e acompanhou o comboio com os olhos, até que ele sumisse no infinito. Agora sim, sua jornada havia começado. A partir daquele exato momento ele estava só, só com sua sorte, tendo pela frente uma cidade maravilhosa para descobrir, preparado para tomar uma das maiores puxadas de tapete que sua vida poderia lhe aplicar: jogá-lo num país estranho, apaixonado, e a milhas de distância de sua estimada Claire. Jean sabia que a temporada seria como um teste para eles; o oceano que os separava, a falta de contato e o tempo certamente transformariam muita coisa, mas ele aceitou as regras do jogo, não se fez de rogado, e no dia seguinte estava dentro do avião que o levaria até Nova York. Dormiu durante quase toda a viagem, não tivera tempo para descansar depois da partida de Claire devido a tantos afazeres.
Chegou em seu destino a noite, e que lindo era tudo. Pela janela do táxi que o levava até as instalações da faculdade no East Village, Jean viu passar a cidade que sempre quisera conhecer. Tantos filmes lhe vieram a cabeça, tantas cenas, tantos clichês, a sensação inevitável de liberdade e de conquista por estar no topo do mundo. Parecia que já sabia tudo que precisava sobre aquela cidade, mas era impressão. Porque de fato nada sabia sobre Nova York, nada sabia sobre o que estava para lhe acontecer. Por mais que se pusesse a imaginar Jean não tinha a mais vaga idéia da dimensão do aprendizado que estava preste a receber. Em Nova York aprendeu duras lições sobre a vida e sobre o amor, sobre si mesmo e sobre os outros. Conheceu sensações inéditas, reconstruiu suas crenças, adquiriu gostos, vislumbrou o lado edificante da angustia. Claire dentro desse processo de metamorfose seria como uma base, uma central de informações para onde a nave em órbita reporta as descobertas do espaço. Mas a distância encarregaria-se de dificultar a comunicação entre os dois, os ruídos seriam suficientes para faze-los esmorecer. Jean sentiria-se só como o que de fato era: um astronauta na órbita de seu próprio planeta.
posted by BRUNO MEDINA at 3:47 PM
Terça-feira, Março 23, 2004
-- não sei se devo...
-- entre, durma comigo, amanhã conversaremos -- Jean aceitou a proposta da moça. Pensou que seria péssimo partir para Nova York deixando assim a situação entre eles -- está bem, vamos entrar.
Claire tirou os sapatos e jogou-se na cama, adormeceu instantaneamente. Jean tirou suas roupas e deitou-se também. Essa era a primeira noite que dormiam juntos, e Jean demorou muito para conseguir fazê-lo. Ficou olhando para o teto, pensava em como a realidade invadira e transformara para pior tudo que ele havia idealizado tão mais bonito. Que noite péssima havia sido aquela! Mesmo o fato de estar dormindo com Claire não tinha nada de romântico, era apenas a conseqüência de tê-la levado para casa. Jean acabou adormecendo também e quando abriu os olhos novamente já era dia, Claire observava ele dormindo e sorria:
-- bom dia.
-- bom dia, que horas são? -- perguntou Jean sobressaltado.
-- já passam das 10hs, você dormiu bastante.
-- na verdade custei um pouco a dormir, foi isso.
-- estranhou a cama?
-- não, estranhei você. Mas enfim, não quero falar sobre o ocorrido de ontem a noite, já passou. Se tivéssemos tido a oportunidade de conversar na festa eu teria te contado que estou partindo para Nova York dentro de três dias.
-- Nova York? O que você vai fazer lá? -- perguntou Claire deixando transparecer uma leve apreensão.
-- recebi uma proposta irrecusável de trabalho e...
-- ...e quanto tempo você vai ficar lá?
-- um mês.
-- não é tanto -- disse Claire conformando a si mesma -- e você parte dentro de três dias?
-- sim, preciso voltar para Marseille hoje mesmo para resolver as pendências da viagem, por isso precisava encontra-la ontem.
-- nossa, você vai hoje mesmo?
-- tenho que ir. Já devia estar lá.
-- que pena.
-- sim é uma pena -- disse Jean levantando-se da cama. Começou então a vestir-se.
-- você vai aonde agora?
-- Vou me embora. -- respondeu Jean encaminhando-se para a sala, Claire pôs-se a segui-lo.
-- Agora? Não pode ficar até depois do almoço?
-- Não, preciso partir agora pois só chego em Marseille no final da tarde. Você me leva até a porta?
-- Jean, foi alguma coisa que fiz? Você não me perdoou...
-- Claire, -- Jean pegou-a pelos ombros -- não se trata disso. Realmente essa não é a despedida que imaginei mas de fato isto deveria ter ocorrido ontem, agora preciso realmente ir.
-- está bem então -- Claire abraçou-o. Ficaram um tempo abraçados em silêncio, talvez refletindo sobre a noite anterior, talvez antecipando o tempo que passariam separados. Jean até poderia ficar mais um pouco em Paris mas estava deliciando-se com o fato de Claire estar sentindo sua partida repentina. O abraço demorado acabou se transformando em beijos e isso os levou de volta para o quarto. Claire, como a maioria das mulheres, encontrava no sexo um instrumento eficaz para conseguir o que queria, e não hesitava em usá-lo, sempre que preciso, mesmo que fosse apenas para mostrar quem realmente dava as cartas...
-- meu Deus, já passam das 13 hs, agora realmente preciso partir -- Despediram-se na porta com um longo beijo:
-- boa viagem, Jean. Escreva-me quando puder...
-- eu irei -- abraçaram-se de novo e ele partiu. Jean passou no hotel, pegou suas coisas e seguiu para Marseille, conforme previsto no protocolo de sua vida. Por dentro estava dilacerado pela prévia saudade, mas seguia os passos que havia determinado serem o melhor pra si sem muita contestação, era assim que tinha que ser. Chegou em sua cidade no início da noite e começou a arrumar as coisas para a viagem. Dizem que não há momento melhor para organizar pensamentos do que quando arrumamos a casa, mas nesse caso o pensamento prático que a viagem exigia não se aplicava a Claire, não havia nada de prático, previsível ou sistemático na forma dela agir.
Envolver-se com alguém assim com ela é muito instigante porém doloroso. Jean não sabia o que pensar, não sabia o grau de envolvimento que havia entre eles até então ou mesmo que papel ele exerceria naquela vida estando em Nova York. A impressão que tinha era a de que Claire se assemelhava a um cubo mágico; quando uma face finalmente fica arrumada percebemos que a face posterior está totalmente fora de ordem, e mais uma vez nos pomos a começar do princípio. Toda tentativa de compreende-la parecia inútil, Claire alternava momentos de frieza e de carinho como quem alterna expressões faciais assistindo a uma partida de futebol. Qualquer que fosse a faceta que deixasse transparecer era muito rápido, Jean não conseguia ter o tempo necessário para disseca-la e entende-la.
Deixou em Paris tudo que o incomodava em relação a Claire e prometeu levar para Nova York apenas o que havia de bom para ser lembrado. Pensou que talvez não tivesse um montante suficiente de memórias harmoniosas sobre a moça, e que talvez lhe faltasse no decorrer da estadia do outro lado do Atlântico. Se ao menos ele tivesse consigo uma foto de Claire, para poder olha-la nos olhos e atribuir-lhe características fantásticas...porque a distância faz isso conosco, faz com que nossa memória emocional se encarregue de borrar a linha entre real e imaginário e transformar tudo numa coisa só, expectativa e realização.
Já era tarde e o silêncio sepulcral da madrugada fora cortado pelo toque do telefone, Jean assustou-se:
--Alô?
-- Jean?
-- Claire? Aconteceu alguma coisa? -- perguntou apreensivo.
-- sim, aconteceu. Quero estar com você antes da partida, estou indo para Marseille, encontre-me na estação dentro de seis horas.
posted by BRUNO MEDINA at 12:13 PM
Segunda-feira, Março 22, 2004
Jean decidiu que iria para Nova York. Tomara a decisão mais sensata, não havia dúvida, entretanto, por mais que soubesse que tinha optado pelo melhor para si mesmo, não conseguia enxergar que benefício havia em abandonar à própria sorte sua recente história com Claire. Sentia-se como uma criança que para de regar sua plantinha de estimação logo depois que os primeiros botões se abrem em flores. Porque tudo ainda era muito frágil, dependente de seus cuidados, e Jean preferia não confiar no acaso. Estando ele em Nova York a plantinha dependeria da própria sorte e da imprevisível oferta de chuvas para sobreviver, e enquanto estivesse lá, preocupava-o pensar que uma pequena temporada de estiagem que fosse, poderia faze-la fenecer. Mas Jean precisava cuidar de si também e os benefícios que a viagem o traria certamente incidiriam diretamente em sua relação com Claire. Pensando assim tomou a decisão.
Passou na faculdade novamente já imaginando como seria trabalhar ali, esse pensamento o enchia de expectativas positivas, mas nada que ofuscasse a saudade que já sentia de Claire. Procurou o amigo Thierry e formalizou a situação; partiria para Nova York dentro de quatro dias. Havia porém muita coisa para ser vista em Marseille: documentos requisitados, medidas que precisavam ser tomadas, visto que ficaria longe de casa por um mês, lavar as roupas, fazer a mala, mas antes disso tudo havia o encontro com Claire. Voltou para o hotel e dormiu mais um pouco, acordou de tarde, almoçou e esperou a hora de fazer a ligação mais importante do dia.
-- Alô?
-- Claire?
-- Olá Jean, como vai?
-- Vou bem, como foi a sessão de moda?
-- Foi boa, um tanto quanto cansativa, eu diria. Mas então, vamos nos ver?
-- sim, é só me dizer aonde e estarei lá.
-- hoje tenho a festa de uma amiga que não posso deixar de ir, é num lugar incrível, gostaria que você me encontrasse lá, é possível?
-- uma festa? -- hesitou -- Está bem, eu vou...
Não era essa exatamente a idéia de despedida que Jean tinha imaginado mas era fundamental encontrar com Claire antes da viagem. Ao mesmo tempo em que lamentava profundamente não encontra-la à sos, de certa forma sentia-se curioso em saber quem eram os amigos dela, como reagiria num ambiente social? Anotou o endereço, vestiu a melhor roupa que havia trazido e partiu para festa onde encontraria Claire.
Chegou a Montmartre por volta das 10:30hs. A festa ocorria numa casa, no alto de uma rua de paralelepípedos, de longe já era possível ouvir música alta. Jean, que havia ido de metrô, teve que andar um bocado até o topo, desejou ter ido com sapatos mais confortáveis. Tocou a campainha esbaforido pelo esforço da subida, subira depressa demais devido a ansiedade. A dona da casa atendeu:
-- Pois não?
-- Olá, sou Jean, amigo de Claire, ela está?
-- A sim, Jean, fique à vontade, Claire está ali. -- apontou para o canto escuro da sala onde várias pessoas dançavam. Pelo jeito que dançava Claire parecia ter bebido um pouco além da conta. Jean foi aproximando-se da moça com um sorriso constrangido.
-- Jean! Que bom que você veio! -- disse Claire abraçando-o -- devo admitir que estou bêbada, tenha paciência comigo.
-- está bem, eu terei -- disse Jean rindo da situação.
-- junte-se a nós Jean, vamos dançar! -- disse uma moça igualmente bêbada.
-- não sou muito de dançar, prefiro sentar aqui e observa-las.
Jean sentou-se numa poltrona desejando ficar invisível. Estava numa festa onde não conhecia ninguém e a pessoa com quem mais queria estar no mundo encontrava-se completamente fora de si, estava constrangido. Ele queria contá-la da viagem mas sabe-se lá se naquele estado ela lembraria ao menos que o tinha encontrado. Claire percebeu-se da situação de desconforto do rapaz e foi até lá falar com ele. Agachou-se em frente à poltrona onde estava sentado:
-- e então, Jean, tudo bem?
-- sim, tudo bem. E com você? -- Claire sorriu, aproximou-se de seu rosto e beijou-o.
-- agora melhor, que bom que você veio....-- o coração de Jean disparou e naquele momento a festa desapareceu, ali estavam só os dois. Jean segurou na mão de Claire:
--preciso dizer-lhe algo importante.
-- então é melhor que eu faça xixi antes -- disse Claire levantando-se num movimento rápido rumo ao banheiro. Jean riu da situação pois aí estava a paciência que ele havia de ter com a moça que bebera demais. Alguns minutos se passaram e Claire não voltou. Jean levantou-se da poltrona para procurá-la pela casa, encontrou-a num quarto conversando com um rapaz. Eles estavam sentados na cama, muito próximos um do outro, olhos nos olhos, o coração de Jean disparou de novo, mas dessa vez tinha a sensação que despencava de um precipício. Não pensou em nada, não queria pensar em nada, mas aquela imagem desconcertante demandava explicações. Claire e o rapaz perceberam a presença de Jean na porta:
-- Jean! -- levantou-se Claire com uma expressão assustada -- Jean deu a volta e caminhou para a sala.
-- Jean, fale comigo! Por favor?
-- O que exatamente significa isso? -- perguntou Jean irritado -- porque você me pediu que viesse aqui? Trata-se de um de seus jogos, ou seria um encontro de suas personalidades preferidas?
-- Ai Jean... -- Claire estava desconcertada -- esse rapaz é um ex-namorado, nós estávamos apenas conversando, não existe nada entre nós já faz muito tempo, por favor, acredite! Eu queria ficar com você essa noite, por isso o chamei para essa festa. -- Jean ouvia calado sem saber o que pensar -- por favor, não fique assim comigo, não houve nada!
-- Olha, Claire, creio que é chegada a minha hora, vou partir.
-- Não Jean, por favor, não vá desse jeito. Ai meu Deus, que tolice a minha, que falta de cuidado...-- disse Claire com as mãos na cabeça.
-- acredito em sua versão mas não tem mais cabimento eu continuar nessa festa, não me sentiria bem, preciso partir, preciso respirar ar fresco.
-- então eu vou com você, vou pegar minha bolsa.
Jean a princípio relutou mas, depois de alguma insistência, acabou concordando em sair da festa acompanhado por Claire. Desciam a ladeira lado a lado, mas sem conversar: Claire com medo de dizer algo que piorasse a situação, Jean começando a acreditar que a moça tinha razão ao alertá-lo dos perigos inerentes a um relacionamento com ela. Jean percebeu que a moça não estava em condições de ir pra casa sozinha, preferiu acompanha-la:
-- vamos pegar um táxi até sua casa -- disse ele em tom imperativo.
No trajeto Claire cochilou em seu ombro. Jean sentia-se muito estranho porque a cena era bela apesar de tudo. Ela dormia com tanta suavidade, tão confiante em seus cuidados, que aquilo o enternecia. Entretanto era difícil esquecer da sensação horrível de vê-la conversando tão intimamente com outro rapaz Chegaram à casa de Claire e ela despertou:
-- Jean, entre, fique comigo.
posted by BRUNO MEDINA at 8:33 AM
Domingo, Março 21, 2004
Jean, que já se encontrava quase na esquina, virou-se para trás sorrindo:
-- não esperava encontrá-la acordada tão cedo. Ou será que fui eu quem a acordou fazendo barulho na porta?
-- não, Jean, eu já estava acordada, tenho trabalho logo cedo hoje. Preciso correr para não me atrasar...
-- ah claro, podemos conversar mais tarde então?
-- infelizmente não tenho como saber a que horas vou terminar. É uma sessão de moda, e essas coisas costumam demorar muito. Você vai estar aqui amanhã?
-- sim, estarei por aqui ainda -- respondeu Jean pensando que reação teria Claire caso soubesse que dessa vez ele estava em Paris apenas por sua causa.
-- então me ligue amanhã no final do dia.
-- ainda não tenho seu telefone, você poderia me dar?
--claro -- Claire entrou em casa e voltou com o número anotado num pequeno pedaço de papel -- aqui está.
-- então está bem, amanhã nos falamos -- Jean tentava a todo custo esconder a frustração de ter que esperar por mais um dia e meio antes de ver Claire novamente, mas sabia que era preciso controlar a ansiedade pois a história da dançarina do Molin Rouge ainda ecoava em sua cabeça. Despediu-se da moça com um beijo no rosto e um tímido abraço.
-- você está bem, Jean?
-- sim, estou muito bem, adeus -- e saiu sorrindo porém sem olhar para trás.
Jean seguiu, para algum lugar que ainda não sabia qual era. Claro que havia decepcionado-se com a duração e o teor do encontro. A reação de Claire havia sido apenas cordial, secretamente o rapaz idealizava um tanto mais de intensidade. Apavorava-o a idéia de ser apenas um admirador ordinário, mais um entre tantos outros que a moça deveria possuir. Jean temia principalmente ainda ser apenas uma das personalidades que Claire colecionava; aquela estranha coleção de fotos, a metáfora do Molin Rouge, havia uma conexão entre essas histórias que Jean preferia simplesmente ignorar. Porque não era sem razão pensar que Claire envolvia-se afetivamente com as pessoas que lhe despertavam interesse para depois guardá-las em uma gaveta.
--meu Deus, não devo pensar nisso -- disse Jean para si mesmo -- ainda é muito cedo para concluir alguma coisa sobre Claire. Devo esperar pelo menos até nosso encontro de amanhã, qualquer conclusão antes disso é sofrimento sem razão. Com essa resolução foi possível suspender a elaboração de hipóteses, pelo menos até o dia seguite. Era uma bela manhã a que se inciava em Paris e havia muito que ser feito na cidade. Jean fez um rápido desjejum numa padaria e seguiu para um encontro com um velho amigo. Trata-se de Thierry, um rapaz também de Marseille que estudara com Jean na faculdade. Thierry coordenava a pós-graduação do curso de belas artes numa faculdade em Paris e, dois dias antes da partida, Jean recebera uma ligação desse amigo solicitando encontrar-se com ele o mais breve possível, dito e feito. Jean dirigiu-se a faculdade onde Thierry trabalhava.
Lá chegando percebeu que o amigo agora possuía uma sala onde podia ler-se na porta: coordenação de pós-graduação em belas artes, nada mal para um rapaz de Marseille.
-- Jean, entre, que prazer em revê-lo! Como vai?
-- vou bem, e vejo que você também vai muito bem -- disse Jean inspecionando com os olhos a harmoniosa instalação da sala.
-- tenho acompanhado seus trabalhos, tudo de muito bom gosto, parabéns!
--muito obrigado Thierry.
-- a que se deve essa mala? Está de mudança para Paris?
-- ainda não, mas estou aqui para uma temporada. Pois então, Thierry, você solicitou a minha presença e aqui estou -- disse Jean sentando-se na cadeira.
-- Ah...claro. Meu caro Jean, tenho uma proposta irrecusável para te fazer.
-- pois então fale do que se trata.
-- como você pode perceber agora sou o responsável pela pós-graduação aqui desta faculdade. Ultimamente tenho me empenhado pessoalmente em promover a melhoria dos cursos, tudo estava muito obsoleto quando assumi esse cargo.
Uma das grandes inovações que venho tentando implementar é o intercâmbio de nossa faculdade com outras no exterior. Temos conseguido estabelecer um vínculo bastante significativo com a escola de Nova York, que como você bem sabe é uma das melhores do mundo.
--claro, quanto a isso não restam dúvidas -- intercedeu Jean.
-- A grade de disciplina dos americanos é um pouco diferente da nossa e eles têm se mostrado bastante solícitos em nos participar suas experiências bem-sucedidas, principalmente no que se refere a disciplinas extracurriculares. Meu caro, vou direto ao assunto: quero implementar aqui em nossa faculdade uma disciplina eletiva de ilustração e não consigo pensar em um nome melhor do que o seu para ministrar essas aulas.
-- nossa, que honra, estou sem palavras! -- disse Jean surpreendido pela proposta.
-- mas antes de aceitar o convite preciso que você responda se tem a disponibilidade de passar um mês em Nova York, recebendo o devido treinamento.
-- um mês em Nova York?
-- pense bem, Jean, é uma grande oportunidade profissional, trata-se de uma das melhores faculdades do mundo! Seria uma espécie de preparação didática para torná-lo professor. Você passa um mês em uma das melhores cidades do mundo e ainda volta para a França empregado, é impossível recusar.
De fato essa era de longe a melhor oferta profissional que Jean já recebera. Ele que vivia com a ameaça constante de não ter o provento do dia seguinte, tão comum entre os profissionais liberais, agora poderia ter um salário, um emprego fixo, era bom demais para ser verdade. Mas para abraçar seu futuro promissor era preciso passar um mês no exterior, ou seja, um mês longe de Claire. Envergonharia-o dizer para quem quer que fosse que esse era sim um motivo que dificultaria sua decisão. Por mais insano que pudesse parecer, Jean contava agora os minutos para vê-la novamente e causava-lhe imenso prazer sentir-se interessado dessa forma por uma pessoa. Era descabido interromper essa sensação tão intensa de uma hora para a outra.
-- Thierry, meu amigo, essa é a melhor notícia que recebo em anos! Devo porém confessar que fui pego de surpresa porque nunca me imaginei sendo professor de coisa alguma. Há ainda a viagem para Nova York...preciso colocar meus pensamentos em ordem.
-- É justo que você tenha um tempo para analisar a proposta. Infelizmente preciso de uma resposta até amanhã pois o curso se inicia dentro de cinco dias. Caso não escolha uma pessoa a tempo terei que esperar por mais um semestre.
-- Cinco dias? É ainda antes do que eu imaginava...bom, sei de seus prazos e prometo apressar minha decisão. Amanhã estarei preparado para dar uma resposta.
Jean despediu-se do amigo e deixou a faculdade ainda mais confuso do que quando entrara. Dessa vez não ficaria na casa do amigo Théodore como de costume, sentia que essa decisão que ele haveria de tomar tão abruptamente cabia exclusivamente a ele, não existia espaço para nenhuma opinião externa. Portanto era mais prudente ficar num hotel tendo como companhia apenas suas especulações sobre o futuro: como seria tornar-se professor? O que esperar de Nova York? Como se manifestaria nele à falta de Claire? Todas perguntas sem possibilidade de resposta imediata.
Enquanto seu pensamento voava no pequeno quarto de hotel, Jean desenhava formas, paisagens, pessoas, tentando expurgar de si sua angustia, tentando registrar em papel suas dúvidas para que de alguma forma pude-se lê-las e interpretá-las. Havia porém um aspecto positivo nisso tudo: a angustia de não saber o que esperar de Claire, que o sufocava, deu lugar à outra angustia: a de não saber o que esperar de si próprio, e isso era de certo modo mais confortável. A noite caiu e Jean adormeceu profundamente. Acordou de madrugada vestiu-se e saiu pelas ruas. Andou muito. Pensava em Claire, no outro lado do Atlântico, na nova vida de professor. Quando deu por si estava o dia amanhecendo e ele em frente ao Arco do Triunfo. Em torno do Arco carros cruzavam em todas as direções, num intrigante e complexo balé. Jean passou um tempo ali e refletiu sobre a existência de uma lógica que aparentemente não enxergamos, uma lógica que rege o caos. Assim como os carros não colidem ao tangenciarem o Arco vindos de direções distintas, de alguma forma sua vida se encarregaria de abarcar tantas possibilidades, tantos rumos que poderia ele assumir a partir de uma única decisão. Jean atravessou a rua e propôs para si mesmo passar por sob o Arco e, ao sair na outra extremidade, já ter tomado uma decisão. A imponência do Arco fazia com que se sentisse muito pequeno, assim como nós muitas vezes nos sentimos em relação a nossa própria sorte. Caminhou lentamente tendo a frente o sol que nascia, o mundo parou para observar sua caminhada. Chegou à outra extremidade e a decisão estava tomada.
posted by BRUNO MEDINA at 12:49 PM
Sexta-feira, Março 19, 2004
-- Já passam das 19 hs, estou ficando com fome, preciso comer alguma coisa, você me acompanha? Gostaria de gratificá-lo pela ajuda com o equipamento.
-- Sim, aceito o convite. -- respondeu prontamente Jean.
Os dois saíram juntos do apartamento e seguiram conversando pelas ruas de Châtelet. Aos poucos se conheciam melhor, apuravam as afinidades, a conversa seguia naturalmente o rumo sugerido pela curiosidade mútua. Sentaram num restaurante as margens do rio Sena e conversaram por horas. Era uma noite típica de verão; barcas cruzavam o rio ininterruptamente, abarrotadas de turistas, expositores vendiam objetos de arte, ciganos tocavam sua rabecas em troco de moedas, havia um chiado constante, um burburinho, uma ebulição, a iminência de algo maior, e a cidade-luz, como de costume, abençoava qualquer sorte de iniciativa, qualquer atitude inspirada por sua plácida beleza. Esse clima atiçava Jean que a essa altura já se encontrava absolutamente seduzido pela beleza e a perspicácia de Claire.
A moça lhe era simpática e receptiva mas era impossível prever o resultado de uma investida. Saíram do restaurante e caminharam pela margem do rio, agora quase deserta. Jean angustiava-se pelo desejo de beija-la, pelo receio de novamente perder o tempo da investida, por não se fazer claro em suas intenções, ou por apenas não ser correspondido. Esse conflito permeou os trinta minutos de caminhada até a porta do prédio de Claire. Jean nem sabia o que dizia durante o trajeto porque todos os seus esforços se destinavam a descobrir a melhor maneira de abordar a moça:
--então é isso, Jean. Obrigado pela companhia e pela ajuda mais cedo.
-- obrigado a você, a noite foi muito agradável.
-- muito.
Trinta segundos, era o tempo que Jean tinha para coroar aquela noite com um acontecimento efetivamente relevante, um que sobrepusesse o que estava preste a acontecer, que era Claire descer sozinha para seu apartamento.
--bom, então acho que a gente se vê -- disse Claire sem muita convicção.
Agora Jean tinha a chance de uma frase, uma apenas, para evitar o que a essa altura parecia mais do que provável. Jean olhou-a nos olhos:
-- Claire, não consigo mais esconder meu interesse por você...
A moça olhou para o chão e sorriu timidamente.
-- Ah, Jean!...não sei se devemos....
-- Por que não? Você não gostou de mim?
-- Não se trata disso.
-- Então você é comprometida?
-- Não, também não é isso.
-- Então me diga o que é!
-- Ah, Jean....-- suspirou profundamente-- eu sou uma moça complicada.
-- Pois é, são justamente essas as que costumam me interessar.
-- Jean, eu não quero te machucar...
-- do que você está falando? Não é um pouco cedo pra isso? Acabamos de nos conhecer! O que há de tão nocivo em você?
-- pense em mim como...como uma dançarina do Moulin Rouge, uma artista de cabaré acostumada a lidar com o assédio, que tem como ferramenta de trabalho a sedução. Uma mulher que está acostumada a não levar pra casa seus sentimentos, a não dar vazão aos seus desejos, a não ouvir suas emoções, é assim que me sinto.
-- aprecio sua sinceridade e estou certo de que você diz isso coberta de boas intenções mas eu não sou mais um garoto, sei cuidar de mim, não preciso que você nem que ninguém se preocupe comigo.
Aquela situação era por demais estranha para Jean. Chocou-o o fato da moça pensar aquilo de si própria, de ter essa convicção em não ter convicção nos relacionamentos. Havia ainda uma ponta de medo de que a situação seguisse à diante e que futuramente ele viesse a descobrir que a moça estava certa em sua auto-análise. O que havia ou poderia haver entre os dois estava exposto, como um paciente numa mesa de cirurgia, com um corte profundo no ventre sendo analisado por especialistas. Entretanto o desejo de beijar Claire naquele momento era maior do que qualquer absurdo que ela pudesse lhe confessar. Não há homem nesse mundo que naquela situação escolhesse o contrário. Jean aceitou a vida, e beijou-a.
E assim foi a primeira noite de Jean e Claire juntos; a felicidade transbordante e o prazer da conquista permeados pela suspeita de se estar cavando a própria cova. E esse exato sentimento acompanhou Jean ainda por muito tempo.
Já se fazia dia quando Jean subiu a escada que conduzia do apartamento de Claire pra a rua. Aquele movimento se submergir do chão combinava perfeitamente com o estado de espírito do rapaz. A noite havia sido incrível e pouco importavam as pessimistas previsões de Claire sobre sua própria insensatez, Jean queria ganhar as ruas, correr, contar para os pombos de Notre Dame, para os mendigos da Bastilha a sua felicidade. O dia surgia em raios parcos de sol e Jean não pensava em dormir, apenas em prolongar aquele dia que não acabara pelo máximo de tempo que conseguisse. Como a ocasião de sua ida para Paris se devia a matéria para o jornal, o natural seria que voltasse para Marseille logo após o término de seu compromisso, até porque não havia se preparado para passar mais do que um dia fora de casa, não tinha nem roupas para tal.
Mas desde a tarde do dia anterior até o presente momento tanta coisa já havia ocorrido em sua vida que era necessário repensar o que fora planejado. Se fosse seguir sua vontade Jean voltaria imediatamente para a casa de Claire; trancar-se-ia lá em seu castelo subterrâneo, jogaria a chave fora e por-se-ia a conhecer cada uma de suas criaturas e todos os seus medos, ouviria ela falar da própria infância, faria rir, conheceria seus gostos, seus cheiros, enfim, saberia de tudo que pudesse sobre aquela personalidade que o intrigava e do que de fato a havia transformado Claire numa pessoa tão reticente em relação ao envolvimento. Mas Jean sabia o que tinha ouvido na noite anterior e mesmo que tivesse planos de ignorar não queria nem podia de nenhuma forma pressionar Claire, um novo encontro seria totalmente inapropriado por enquanto. A decisão certa era seguir para o aeroporto e deixar assentar a poeira em Marseille. Passaram-se três dias e Jean não conseguia esquecer a noite que passara com Claire. Fora inclusive estúpido o suficiente para não pedir o telefone da moça, do endereço ele também não lembrava, embora pudesse descrever cada tijolo do prédio onde havia encontrado a felicidade. Talvez um pombo-correio fosse o meio mais apropriado para entrar em contato com a moça, um pombo branco que pousaria em sua janela levando um recado de Jean, dizendo que os dias nunca lhe foram tão penosos em passar, que o tempo não o havia feito esquecer daquele lindo dia que passaram juntos. Mas o pombo não saberia partir sem endereço certo, sobrevoando hesitante as ruas do bairro em busca da mais bela de suas moradoras, aquela que fazia o coração de Jean disparar mesmo à distância. Percebeu então que o pombo seria ele mesmo: juntou as coisas e na mesma noite partiu novamente para Paris, dessa vez para ficar alguns dias. Essa foi a primeira de tantas temporadas que se seguiram ao passo de oito meses. Chegou a Paris pela manhã, como se tornaria de costume, e foi direto para Châtelet. Como ainda era muito cedo, não cabia tocar na casa da moça, era preciso esperar um pouco mais. Mas o fato de estar ali de novo, tão perto de sua estimada Claire, moveu-o a redigir um bilhete que passaria por sob a porta:
Querida Claire:
Aqui estou novamente em Paris. Gostaria muito de revê-la. Como não possuo seu telefone voltarei mais tarde, quando espero encontrá-la em casa.
Um beijo,
Jean
Passou o bilhete por sob a porta e dirigia-se para a casa do amigo Théodore quando ouviu o som que mais desejava naquele momento, a voz que lhe fazia sentir borboletas no estômago:
-- Jean?
posted by BRUNO MEDINA at 5:09 AM
Quinta-feira, Março 18, 2004
As palavras de Claire deixaram Jean sem reação. Tudo que ele mais queria naquele momento era ser relevante para a moça. Entretanto com o passar dos meses Jean descobriu que Claire é uma daquelas pessoas apegada as palavras; gosta de dizer coisas fortes sem se preocupar muito com a conseqüência do que foi dito. Como se a vida fosse apenas um infindável espetáculo teatral que ressurge esplendorosamente a cada noite. Aos poucos Jean foi aprendendo a desconfiar do que ouvia e a ouvir aquilo que não era dito. Como numa xilogravura, a ausência é o que registra.
-- Bom, vou tomar o comentário por um elogio, apesar de não ter vindo preparado para isso essa manhã. -- repetiu Jean, talvez numa tentativa de retomar de onde havia parado quinze dias antes, Claire tem uma boa memória.
-- Nossa, você sempre repete essa frase? No nosso último encontro achei curioso você se dizer não estar preparado, porque ninguém está preparado mesmo, para nada.
-- É verdade. Quem diria que nós nos encontraríamos de novo numa ocasião como essa aqui... naquele dia eu pensei que nunca mais a veria novamente.
-- Pois é, aqui estou novamente, no fim tudo dá sempre certo, você não sabia?
-- Estou começando a acreditar... mas vamos sair desse lugar, eu te ajudo com os equipamentos.
Os dois saíram juntos e tomaram um táxi até a casa de Claire. O carro parou numa rua tranqüila, na frente de um prédio baixo, antigo. Ambos dirigiram-se ao porta-malas do veículo no intuito de pegar os equipamentos fotográficos:
-- eu tenho um amigo que mora aqui bem perto, poucas quadras abaixo -- disse Jean.
-- aposto que seu amigo é artista também.
-- é, pode se dizer que sim. Théodore trabalha com produção de documentários, mas é artista porque enxerga na vida as cores que nem a melhor das câmeras de cinema pode captar.
Claire olhou nos olhos de Jean e sorriu discretamente, talvez achando bonito o apreço pelo amigo ou a inocência do comentário.
-- eu moro aqui pra baixo -- disse Claire descendo as escadas que conduziam até o apartamento do subsolo.
Quando Jean deu por si já estava na sala da casa de Claire. Ele que tinha se prestado a ajudar a moça com o equipamento acabou descobrindo um jeito eficaz de conhecer melhor aspectos da sua vida. O apartamento era pequeno, poucos móveis, fotos espalhadas pelas paredes, roupas pelo chão. Por ser no subsolo não havia muita luminosidade e a umidade excessiva eclodia em rachaduras nas paredes.
-- esse é meu mundo... meu Deus, eu não sei o seu nome!
-- é verdade, pulamos essa etapa. -- Jean havia passado tantos dias cogitando as mais diversas possibilidades de nome para a moça e, apesar de realmente não saber o seu nome, já se remetia a ela tão facilmente em seus pensamentos, que não precisava chamá-la por nome algum.
-- Eu me chamo Claire. E você?
-- Claire, então o nome dela é Claire -- pensou Jean -- esse era um nome que ele não havia imaginado. É tão simples, tão óbvio que sua mente preferiu se entreter com possibilidades menos ortodoxas. Mas Claire estava ótimo, combinava perfeitamente com a candura da aparência da moça e ao mesmo tempo contrastava com a altivez que ela tinha no olhar.
-- Eu sou Jean.
-- Então Jean, esse é meu lar, laboratório fotográfico, castelo, presídio...a sua foto deve estar em algum lugar ali.
Jean aproximou-se de uma mesa com pilhas de fotos e começou a procurar a sua própria. Eram centenas, pessoas de todos os tipos, parecia um catálogo da espécie humana.
-- Achei, aqui estou eu! Realmente não saí mal.
-- De jeito nenhum, saiu muito bem, por isso tornou-se uma das minhas preferidas.
-- Imagino que você deva dizer isso para todos os seus fotografados...
-- Jean, eu não costumo conhecer meus fotografados, até prefiro não, porque assim posso imaginá-los do jeito que eu quiser, do jeito que me é mais conveniente. Você por exemplo -- tirou a foto das mãos de Jean -- você parece não ser de Paris. Seus sapatos elegantes pouco brilhosos me dizem que você segue um protocolo em que não acredita muito. Por que ter sapatos elegantes para mantê-los nesse estado? -- Claire apontou para os pés de Jean, ele estava com os mesmos sapatos da foto --seu sobre-tudo é bonito mas impróprio para um dia de julho. Conclusão? Você segue muito suas próprias regras, as que você estabeleceu mas nem se lembra o porquê !
Jean espantou-se com a fidelidade da análise.
--Talvez você tenha razão...-- Claire continuou:
-- mas ao mesmo tempo seus cabelos despenteados me dizem que você está em ruptura com esse comportamento, me parece que atualmente você tem descoberto coisas sobre você, é só um palpite essa parte, mas o resto eu afirmo com convicção!
--nossa, não sei o que dizer -- Jean abalou-se com a não requisitada auto-análise, mas prontamente se recuperou -- Agora vejamos você -- Iniciou uma caminhada pela pequena sala, como se fora um detetive ou um professor palestrante -- Você fotografa pessoas porque elas complementam sua personalidade. Você vislumbra o mundo do sonho, mora nesse apartamento subterrâneo que você própria denominou de castelo. Aqui mantém aprisionadas suas criaturas, esconde-se do mundo real na escuridão de que suas fotos necessitam para serem reveladas. A cada nova sessão fotográfica no metrô, revela-se também um pouco de você própria. Aposto que nessa casa não há sequer uma fotografia sua! Os amigos a vêem como excêntrica, mulher decidida, você se vê como essa menina aqui -- pegou uma foto sobre a mesa -- uma criança atordoada pelo movimento incessante de uma estação de metrô, com medo de se perder dos pais. Usa vestidos de menina pelo que é, e botas de soldado pelo que deseja ser.
Claire assistia a Jean com os braços cruzados, enrubescida e sorrindo sem mostrar os dentes, deliciada com seu próprio prognóstico.
-- Nada mal para quem me conhece não faz duas horas...
-- Sou um rapaz observador -- disse Jean orgulhoso.
Jean notou que pela primeira vez havia realmente despertado o interesse da moça para si. Naquele exato momento deixou de ser uma de suas criaturas e tornou-se também um criador. Com sua brilhante análise Jean passou a ser admirado por Claire, mas ao mesmo tempo tornara-se seu oponente. Agora ele era real, e no mundo de Claire isso pode ser muito perigoso.
posted by BRUNO MEDINA at 9:50 AM
Quarta-feira, Março 17, 2004
-- Jean...continue aqui com seus amigos... foi algo que dissemos? -- indagou Théodore fingindo-se de bobo só para ver a reação do amigo.
-- Não, não é isso, a vossa companhia me é muito valiosa, mas de repente lembrei-me do verdadeiro motivo para eu estar aqui -- Théodore pôs-se à frente de Jean e pegou-o pelos ombros:
-- Seu verdadeiro motivo para estar aqui não vai sumir de uma hora para a outra, aliás, você nem teria como saber onde ela está nesse exato momento. Vai arriscar passar a tarde inteira sozinho ou vai plantar desde já guarda na porta do prédio dela? Hã? Fique conosco que eu te compro uma maça do amor.
-- aceito a proposta. -- respondeu Jean um pouco encabulado pela ansiedade.
Os três pegaram o metrô rumo ao bairro de Saint Michel e por lá almoçaram. Mais tarde sentaram num bar e beberam, como de costume. Jean não é muito dado a bebidas mas acompanhou a bebedeira dos amigos. Era de fato impressionante que depois de muitas taças de vinho pouco se percebiam alterações em Théodore e Michel:
-- o vinho provém da uva. A uva é uma fruta, portanto eu bebo e me alimento ao mesmo tempo! -- teorizou Michel.
--que beleza de pensamento meu amigo, e é por isso que você está tão robusto -- retrucou Théodore.
-- Jean, beba conosco, coloque no chão essa bigorna que pousa sobre seus ombros.
-- Não Michel, prefiro mantê-la equilibrada, mas obrigado de qualquer forma. Continuem dando cabo do vinho que eu assumo as amêndoas.
-- Vou te dar um conselho, meu bom novo amigo Jean: não tente compreender as mulheres tendo a si próprio como referência. As mulheres possuem uma lógica outra, que é diferente inclusive entre elas. Aceite as diferenças e aprenda a viver com elas, e nunca tente compreender coisa alguma, porque não há o que ser compreendido. Isso tudo é muito anterior a nós.
-- Sábias palavras, Michel -- contemplou Théodore -- o caso de nosso amigo Jean não é diferente, nem especial, mas Claire realmente não é das mais fáceis. As mulheres parisienses talvez sejam as mais complicadas de se lidar em todo o mundo. É possível conhecê-las intimamente mas dificilmente se sabe o que se passa dentro de suas cabeças. Elas têm o dom de deixar sempre tudo no ar, subentendido, nesse limbo que existe entre pensar e sentir onde a percepção masculina se assemelha a de uma lebre em mato fechado. O pior é quando no ápice de um esforço descomunal pensamos ter compreendido tudo e no instante seguinte constatamos que andamos léguas para o lado errado.
Seguiu-se a esse comentário um silêncio na mesa. Talvez por alguém discordar de Théodore, talvez por ninguém se sentir apto a complementar o que fora dito tão brilhantemente.
-- Mas Jean, como continuou aquele dia? -- perguntou Michel -- Aquela história que você começou a nos contar em frente à estação...
-- Bom, depois daquela breve conversa que tivemos por ocasião da fotografia roubada, Claire pediu licença e continuou sua busca por personalidades interessantes. De longe fiquei observando-a; sua discreta deselegância, seu enrubescer ao pensar que havia sido descoberta na sua clandestina obsessão, a cada segundo eu tinha mais convicção de que eu também queria ter uma coleção de personalidades, mas na minha haveria espaço para somente uma, a dela me seria suficiente, eu precisava conhecer melhor aquela mulher! Na correria da estação em poucos segundos ela desapareceu. Cheguei até a subir num dos bancos para tentar ver por sobre a multidão, mas o vestido amarelo se confundiu com todos os outros tons de amarelo, de laranja, de branco, de bege, de marrom, era inútil tentar encontrá-la em meio a tantas pessoas. Ela poderia até estar dentro do mesmo trem que eu peguei, só que em outro vagão, como saber? Procurei esquecer aquela menina intrigante e segui para minha entrevista na editora, que foi um fiasco. Caso tivesse aceitado o emprego passaria um bom tempo da minha vida fazendo desenhos abstratos para capas de livros sem alma.
--esses eu conheço intimamente, são minha matéria-prima, mas continue -- disse Michel.
-- depois da entrevista me dirigi ao aeroporto porque a editora havia me fornecido as passagens para o encontro. Ao final do dia pouco me importava ter vindo à toa para Paris, o que mais me incomodava na volta frustrada para Marseille era não ter conhecido melhor aquela linda menina, eu nem tive a oportunidade de saber seu nome!
Algo como quinze dias se passaram e recebi o telefonema de um amigo jornalista. Ele estava fazendo uma matéria sobre a nova geração de artistas franceses, juntando aqueles que se destacavam nos mais diversos campos da arte para um debate sobre as novas tendências. O debate tornar-se-ia uma matéria de capa para o jornal em que ele trabalhava. Haveria bailarinos, músicos, pintores, atores, e eu estava sendo convidado por conta de minhas ilustrações. Meu amigo me disse que seria oportuno para minha carreira estar em meio a esse seleto grupo de notáveis, que estar incluído nesse conceito de geração poderia ser o início de um movimento de reconstrução de não sei o que, achei um pouco de exagero, mas fiquei embaraçado de declinar do convite. Novamente recebi as passagens de avião através do jornal e fui para Paris dois dias depois do telefonema para o dito encontro.
Lá chegando o volume dos egos tangenciava o teto, eram artistas de todas as áreas posando de notáveis, de relevantes, insuportável! Sentei num canto imaginando que dificilmente o gravador que registrava a conversa apontaria para mim, e assim foi. Depois de uma hora e meia de um debate pouco conclusivo sobre os rumos da nova arte francesa, fomos solicitados a posar para uma foto de registro do evento, aquela que ilustraria a matéria. E lá estava ela, eu juro por Deus, ela, a menina do metrô! Meu coração disparou, eu não podia acreditar em tamanha coincidência. Entendi o ocorrido como um sinal da vida, uma segunda chance para que eu pudesse corrigir o que havia ficado pela metade quinze dias antes. Fiquei ali, estático, sabendo que dessa vez eu não me permitiria deixá-la escapar de novo. Claire se atrapalhava com a montagem do tripé da câmera, o flash disparava cegando os novos artistas, e ela cada vez mais se constrangia com a demora e as trapalhadas, devia estar nervosa. E era linda nervosa, com as maças do rosto coradas e os olhos sempre atentos a tudo. Imagino pra Claire que oportunidade não era aquela, que espécimes raros não havia ali para integrar sua coleção, apesar de eu ter a plena convicção de que ela não gostaria de ser nem por um dia metade das pessoas que ali estavam. Éramos um grupo de 20 ou 25, e estando na última fila da fotografia não fui notado por Claire. Nem sabia se ela lembraria de mim em meio a tantas fotos que já deveria ter tirado no metrô Cité. Findado o encontro caminhei até a direção em que ela estava guardando o equipamento:
-- Olá.
-- Olá novo artista, você é de fato fotogênico.
-- Então você lembra de mim...
-- Claro que lembro, afinal de contas um dia você foi minha personalidade preferida.
posted by BRUNO MEDINA at 8:21 AM
Terça-feira, Março 16, 2004
--puxe uma cadeira e acompanhe um expert em ação -- disse Théodore equilibrando o cigarro no canto da boca. Ele enrolava o dedo nos cachos do cabelo de Michel e cortava sem muita hesitação, mais seduzido com a técnica do que propriamente com o resultado.
-- estou sentindo pouca preocupação com meus cabelos, como está ficando Jean?
-- Eu diria que o resultado parece interessante mas ainda é muito cedo para concluir alguma coisa. -- respondeu Jean quase rindo.
-- estou me sentindo ofendido como artista! Quem não souber valorizar meu talento que não pise no meu salão -- esbravejou Théodore.
-- seu nobre salão poderia pensar em acomodar os clientes em poltronas e não no vaso sanitário -- retrucou Michel levando todos as gargalhadas.
-- sente-se na sala, Jean, já estou terminando aqui e depois podemos sair para comer alguma coisa juntos.
-- certo, expert -- respondeu Jean ao amigo levando sua mala para o quarto. Chegando no pequeno cômodo abriu a mala sobre a cama e pegou uma muda de roupa.
Depois de um tempo admirando a paisagem que consistia na lateral de um prédio sujo adornado por cocos de pombos, dirigiu-se para o banheiro e tomou possivelmente o pior banho de sua vida, num chuveiro elétrico pingando pouca água e envolto numa cortina de fumaça de cigarro do que há pouco fora um salão improvisado.
-- e então amigo, o que te traz a Paris? -- perguntou Théodore ironicamente armando um abraço.
-- pois então você que me diga, não foi você mesmo que inventou tudo isso? -- respondeu Jean. Os dois ficaram abraçados um tempo em silêncio. Théodore afastou-se e pôs a mão no rosto do amigo.
--você está bem?
-- quando me perguntam isso eu sempre respondo que sim -- respondeu Jean sorrindo.
-- esse aqui é Michel, meu grande amigo. É revisor ortográfico, ganha a vida lendo livros chatos. Mas essa capacidade de concentração que seu trabalho exige faz dele um exímio conhecedor da alma feminina, trata-se de um conquistador sem concorrentes, as mulheres o adoram!
-- com o devido desconto devo admitir que é verdade, os livros não são tão chatos -- retrucou Michel estendendo a mão para Jean.
-- e esse aqui é Jean, um rapaz de Marseille que...
--...que ganha a vida fazendo ilustrações -- Jean se antecipou a Théodore preferindo não ser definido.
-- então partamos para a rua, meus caros, porque ninguém trabalha mesmo nessa casa!
Os três desceram a rua e continuaram caminhando por Châtelet, Jean só pensava que a qualquer momento poderia encontrar Claire. Os lugares o lembravam de momentos vividos juntos, alguns felizes, outros tristes, mas estar dentro daquele cenário novamente criava nele a expectativa das crianças às vésperas do início do ano letivo. A caminhada se estendeu por mais de uma hora e num determinado ponto resolveram seguir de metrô para o bairro de Saint Michel, estavam em frente à estação Cité.
-- Foi aqui..-- disse Jean.
-- o que foi aqui? -- perguntou Théodore
-- Agora me lembro, foi aqui nessa estação que conheci Claire. Estação Cité. Eu me encaminhava para uma visita de trabalho numa editora. Era cedo, muitas pessoas. Sentei no banco para esperar o trem e a maioria dos presentes olhava pra baixo, provavelmente pensando em suas vidas, nas maselas causadas por mais um dia de trabalho. Não pude deixar de prestar atenção naquela menina linda trajando um vestido amarelo de listras brancas que mais se assemelhava a uma camisola, e botas, que mais se assemelhavam as de um soldado. Ela trazia uma câmera fotográfica pendurada no pescoço e era uma das únicas pessoas que olhava em frente, e não para o chão, aliás, ela parecia procurar alguém, prestava atenção a tudo em volta, mas não me notou. De qualquer forma pensei ser muito cedo para uma aproximação, passei então a olhar para o chão também, como todos os demais.
Num determinado momento em que olhava para os meus sapatos e constatava que eles estavam pouco brilhantes para um encontro profissional ouvi um ruído, algo como a abertura de um diafragma. Olhei para o lado e ela não estava a mais de cinco metros de mim:
-- você tirou uma foto minha?
-- sim.
-- posso saber o motivo?
--pode, eu fotografo as pessoas de que gosto. Gostei de você.
-- bom, vou tomar o comentário por um elogio, apesar de não ter vindo preparado para isso essa manhã.
--você já conheceu alguém que disse estar preparado para ser fotografado? Eu sou fotógrafa e nunca ouvi ninguém afirmar isso.
-- eu normalmente estou preparado para quase tudo, inclusive fotografias roubadas, dizem que sou fotogênico...
-- isso eu não tenho como saber agora, só mesmo quando o filme for revelado.
-- é um trabalho?
-- não, é para mim mesma, coleciono pessoas -- respondeu Claire sorrindo e divertindo-se com a estranheza do próprio comentário.
-- e você expõem essas fotos em algum lugar?
-- não, guardo-as em casa, não sei se interessariam a outras pessoas...
--bom, então pelo visto agora eu faço parte de sua coleção.
Tempos depois Jean conheceu a coleção da qual fazia parte. Havia velhinhos, crianças, homens e mulheres; as fotos que Claire colecionava, as fotos que ela roubava no metrô, eram fragmentos de vidas que ela queria viver. Através daqueles semblantes desapercebidos de pessoas comuns, Claire fantasiava a vida de suas criaturas, querendo sempre emprestar para si algum aspecto suposto daquelas personalidades. No dia desse encontro Claire quis ser Jean, quis ter os cabelos esvoaçados, o sobre-tudo mal ajambrado, a pasta com desenhos saltando pra fora, os sapatos pouco brilhosos, queria a hesitação pelo encontro na editora, o olhar perdido de jovem artista. Essa vontade de ser tantos, que lhe fascinava e espantava, foi o primeiro traço que conhecera da personalidade de Claire.
-- Jean? Volte pra cá -- exclamou Théodore percebendo que o amigo estava absorto em lembranças.
-- sim, estou de volta. Pra onde íamos mesmo?
-- íamos para Saint Michel, almoçar por lá -- respondeu inocentemente Michel, que pouco sabia das histórias de Jean.
-- vocês se incomodariam de seguir sem mim? Tenho algo para resolver.
posted by BRUNO MEDINA at 8:59 AM
Segunda-feira, Março 15, 2004
O telefone tocou por 3 vezes. Cada toque soava como o badalo do sino de Notre Dame, parecia que naquele momento o mundo inteiro era testemunha daquela ligação. Mesmo Jean não sabia direito porque estava ligando para Claire. Entre o terceiro e o quarto toque olhou para o relógio e percebeu o óbvio:
-- meu Deus, são 7:15hs da manhã! Nessa hora da manhã qualquer surpresa ganha ares de pesadelo! -- colocou o telefone no gancho e seguiu para a casa de Théodore. Dessa vez ao invés de ligar ou bater direto na casa do amigo resolveu sentar num café e observar o movimento até o relógio marcar uma hora mais propícia para visitas inesperadas. As duas horas seguintes Jean passou pensando, eram horas devidas da noite anterior, visto que ele realmente não havia considerado todos os prós e contras de mais uma temporada em Paris.
De certa forma era um conforto saber que a decisão já havia sido tomada, é sempre mais fácil pensar quando a conclusão já não importa tanto. Jean refletiu sobre quanto tempo efetivamente desejava ficar em Paris, mas não chegou a nenhuma conclusão. Pois se essa era a continuação de sua vida, como havia profetizado Theodóre, não lhe parecia sensato definir limites para uma temporada que potencialmente poderia transformar em caráter definitivo a sua rotina. Existiam porém questões práticas: a vida em Paris custa caro e Jean não é exatamente o que pode se chamar de pessoa abastada, precisava de proventos para bancar sua aventura. Jean é ilustrador, trabalha com revistas e jornais, com escritores, com industriais, com lojas e bandas, faz de tudo um pouco, porque nesse tipo de trabalho é necessário ter muitos contatos e principalmente boas relações. De certa maneira é até melhor para sua profissão estar numa cidade como Paris, onde a industrial cultural mantém-se próspera por todo o ano e cartazes e capas de livros sempre caem do céu nos momentos menos afortunados.
-- é, parece que está tudo resolvido -- concluiu assim a rápida conversa que teve consigo mesmo.
O tempo passou depressa e Jean não teve ou não quis ter a oportunidade de pensar que por pouco não falou com Claire novamente pelo telefone. É bem verdade que ela não atendeu, e isso podia significar muitas coisas, desde ela estar dormindo até ela não morar mais naquele lugar. Sempre que se encontravam era assim; Jean nunca sabia o que de fato havia mudado na vida dela durante o período em que estiveram sem contato. Existem duas formas de se relacionar sem ter compromisso: a primeira consiste em encontrar com a outra pessoa durante repetidas vezes dentro de uma mesma semana e nunca mais procurá-la. A segunda consiste em encontros espaçados pelo prazo mínimo de três semanas, e esse era o caso deles. Durante oito meses se encontraram assim, sem marcar, sem saber quando seria a próxima data, sempre acontecia algo que unia os dois na mesma ocasião. Por conta disso Jean aprendeu a confiar no destino, a esperar que a maré se encarregasse desse barco que agora afundava.
A verdade é que Claire e Jean tinham tempos diferentes. Ela precisava de espaço, de solidão, de reflexão entre um encontro e outro e para Jean às vezes era difícil compreender os sinais que ela deixava, de que estava precisando retornar para terra firme, assim como os funcionários de uma plataforma de extração de petróleo em alto mar. No intuito de evitar acidentes e desgaste físico e mental excessivos, para cada três dias de trabalho em mar aberto, três dias de folga no continente, era assim também na relação deles; para cada período vivido junto um outro período de afastamento, não exatamente respeitando os prazos instituídos pelas normas de segurança, mas na prática a medida tinha a mesma função, evitar prejuízos. Nem sempre era fácil para Jean voltar para alto mar sozinho, entretanto ele compreendia que esse afastamento era importante para a manutenção do relacionamento deles. A solidão e a escuridão das noites sem luar criaram dentro de Jean um espaço para vislumbrar o vazio e a angústia da existência, quem não tem não está atento de fato a própria vida. Levantou-se do café deixando uma boa gorjeta, como se a conversa com ele mesmo tivesse valido alguns tostões a mais para o garçom. Pegou a mala e seguiu rumo a casa de Théodore, já passava das 9:30hs. Chegando na porta do prédio olhou pra cima em busca de algum sinal dentro do apartamento do amigo, nada. Tocou o intercomunicador e aguardou.
-- Pronto.
-- É o Jean, abra logo!
-- Ah, sim, mais rápido do que eu imaginava, dá próxima vez poderia apostar com alguns amigos -- respondeu Théodore ironicamente -- suba logo, você ficará aqui -- com essa frase metade dos problemas de Jean estavam resolvidos. Ele nem precisara pedir abrigo na casa do amigo, isso já lhe fora oferecido antes mesmo de pisar no capacho, muito justo já que grande parte do motivo de Jean estar ali agora se devia a persuasão do amigo. Subiu os dois lances de escada e encontrou a porta aberta.
-- vá entrando, amigo! Ponha suas coisas no quarto de hóspedes -- Jean caminhou pelo apartamento seguindo a voz de Théodore e o encontrou no banheiro, de bigode, com um cigarro no canto da boca cortando os cabelos de um outro rapaz.
-- esse aqui é Michel, um grande amigo que veio morar comigo, agora seremos três -- o rapaz acenou com a mão, ainda sonolento, e a cena de certa forma era patética mas provocou em Jean uma sensação reconfortante, de que ali naquele apartamento eles viveriam momentos felizes.
-- é rapazes, acho que vou gostar de morar aqui...
posted by BRUNO MEDINA at 10:56 AM
Domingo, Março 14, 2004
Prezado Théodore:
Acabei de chegar em casa. Botei a roupa suja pra lavar, desfiz as malas, fiz a barba e sentei aqui pra te escrever. Deixei a sua casa em Châtelet e peguei um táxi até o aeroporto. Quarenta euros mais tarde cheguei ao meu mezzo-destino, e o sol que tinha brilhado tão bonito em nome da minha despedida se transformou em lágrimas de chuva e de tristeza de quem parte sem querer. Bonito, mas atrasou meu trajeto. Chegando no aeroporto, logo na entrada, as cadeiras de espera do terminal me fizeram lembrar de uma cena: oito meses atrás, eu sentado ali pensando como faria para entrar em contato com aquela menina linda que eu havia conhecido na estação, e desde então, desde o dia vinte e três de julho do ano passado, eu não passei um dia sequer da minha vida sem pensar nela.
Foram tantas idas e vindas, tantos sentimentos às vezes até conflituosos, tantas coisas vividas com ela que essa intensidade, esse carinho tornou-se maior do que deveria. Fui para Paris para mais uma temporada de acertos e erros, sem nada esperar da vida, e mais uma vez vivi tudo que já esperava; de bom e de ruim. Dessa vez tive a oportunidade de entender melhor a geografia da cidade, as pessoas e até a mim mesmo. A Claire eu continuo não entendendo. Só que esse carinho que eu sinto por ela, que é tão grande, que eu não sei o que fazer com ele, transbordou e desceu com a chuva pelas ruas da cidade até parar ali, algumas quadras abaixo, na esquina onde você mora.
Ter te conhecido me ajudou a voltar a ter fé na humanidade, porque me envolvi com uma menina que não ama a vida, e eu já estava começando a acreditar nisso também, meu caro. Obrigado a você pela generosidade, pelo afeto, pelo desapego, pelas lições de vida e de simplicidade que me ministrou nessa louca semana que nós tivemos, cada um com as suas, mas o tema era certamente o mesmo. Enquanto isso eu vou removendo o amor de dentro desse barco que já afunda, nem que seja com um baldinho, aos poucos, tirando de Claire e distribuindo entre os amigos, pelos meus livros, pela música, pelas pessoas que o valorizam e o merecem. Não digo "dessa água não beberei", nunca se sabe o tamanho do deserto quando se entra nele, e pode ser que eu tenha sede, mas esteja certo de que estou procurando outras fontes. Ainda no aeroporto almocei terrivelmente como os americanos: double cheeseburguer, batatas oleosas e refrigerante, de sobremesa um chocolate, tudo que a minha condição estomacal restringe, eu queria me entorpecer. Como acontece sempre que eu bebo refrigerante, meu estômago doeu, e aquela dor canalizou tudo que eu precisava deixar em Paris. Normalmente eu saio de trem, pelo cú da cidade, dessa vez saí pelo céu. O horizonte acinzentado foi ficando pra trás e eu de olhos fechados, amortizado pelas diversas dores, acabei cochilando. Acordei com o trem de pouso do avião se abrindo -eu que nunca durmo em avião- e quando abri meus olhos de novo estava na minha querida Marseille.
Pela janela vi o sol, o relevo tão diferente da paisagem de 30 minutos atrás, água pra todos os lados, a minha casa vista do avião, chorei. Pedi desculpas por ter abandonado minha cidade que tanto amo, por ter deixado pra trás minha razão e as minhas raízes, por ter acreditado que a felicidade morava em outro lugar, Marseille entendeu. A cidade me recebeu de novo de braços abertos, e quando eu estava ali, ainda no céu, pertinho de Deus, pedi pra Ele apaziguar meu coração, pedi pra Ele tirar Claire da minha vida e trazer pra mim alguém que mereça verdadeiramente o meu amor. O avião beijou o solo selando o pacto e Marseille me saudou com sua costumeira umidade e seu calor mediterrâneo, como um cachorro bobão que lambe o dono na volta do trabalho. Não pense que estou triste. Estou feliz por ter vivido tantas coisas, por ter aprendido a suspeitar de tudo que é exato, porque a vida não faz nenhum sentido, e eu precisava entender isso o quanto antes. Claire é apenas uma lição, outras maiores virão, e eu vou estar sempre aqui disposto a aprender o que a vida quiser me ensinar. Eu nunca derramei uma gota de lágrima por Claire, nunca achei que ela merecesse, mas agora uma me escorre pelo rosto em virtude da grandiosidade de nossa amizade.
obrigado por tudo, amigo.
Au revoir!
Vamos vivendo...
Jean.
Caro Jean:
Fico grato em saber que você chegou bem. Pelo visto o ar do mediterrâneo pós em ordem seus sentidos novamente. Chegar em casa é sempre uma experiência gratificante, mesmo quando temos a impressão de que a temporada à deriva poderia ter sido maior. Compreendo seus motivos para partir repentinamente de Paris e imagino que um tempo em casa não te fará mal. Sei que os dias em Marseille passam mais devagar, e sei também que esse atraso no seu relógio interno agora se faz necessário, mas saiba que o tempo em Paris urge, a cidade não parou para a sua despedida. Apesar da justa homenagem de sol e chuva no seu trajeto até o aeroporto, quando seu avião partiu rumo ao litoral a cidade não pensou em parar. A memória que você tem daqui já não corresponde mais à realidade factual, tudo está se transformando a cada novo segundo; as paisagens, as pessoas, tudo novo.
Ontem eu vi Claire. Ela atravessava a rua lendo um livro, não me viu. Parecia estar diferente desde a última vez que a vi, o cabelo talvez. Quanto tempo isso faz? Dez, quinze dias? Bom, não te escrevo para obrigá-lo a lembrar do que talvez você deseje esquecer, mas a verdade é que tenho a impressão de que você possui pendências nessa cidade. Não me refiro às financeiras, porque essas eu até estou disposto a perdoar, mas sim as emocionais, as que o tempo invariavelmente insistirá em cobrar. Jean, não se engane, uma parte significativa de sua vida está aqui. Não será possível terminar sua história com Claire por determinação, um tratado, um acordo, essas coisas não possuem a razão dos armistícios políticos! Você precisa urgentemente viver o que ainda há pra ser vivido, porque não haverá lugar no mundo distante o suficiente para fazê-lo esquecer dessa menina, não haverá moradia que sirva para alguém que está em outro lugar. Você está em Paris. A continuidade de sua vida está aqui e receio não ser possível pular esse capítulo.Volte imediatamente.
Um abraço,
Theodóre
Depois de uma primeira leitura Jean ainda por mais duas vezes leu a carta do amigo. Já era possível memorizar alguns trechos, entretanto ainda não conseguia mover-se da cadeira, estava estagnado e estarrecido com a clareza das palavras de Theodoré.
-- então é possível enxergar isso tudo, mesmo de lá... Como eu não vi daqui?! -- exclamou para si mesmo. Levantou da cadeira, olhou para o relógio de parede sobre a cama, 23:15hs.
-- ainda posso pegar o trem da meia-noite, preciso chegar em Paris o quanto antes.
Colocou a mala aberta sobre a cama e constatou que ainda havia muita coisa arrumada de sua última viagem a Paris. A clareza das palavras de Théodore agora o faziam compreender que não desarrumar as malas é um sinal inconsciente da certeza de um breve retorno. O que estava sujo foi deixado sobre a cama, o que estava limpo continuou na mala e foram adicionadas ainda algumas peças do armário, aleatoriamente. Agora já eram 23:30hs e em meia hora o último trem da noite partiria para Paris. Fechou a mala sem revisar o conteúdo, bateu a porta e pegou um táxi na avenida.
Chegando na estação comprou o penúltimo acento do trem, acomodou a mala em baixo da poltrona e esticou as pernas procurando a posição mais confortável, sabia que tentar dormir seria inútil; a ansiedade causada pela perspectiva de estar novamente em Paris fazia com que seus pensamentos corressem num emaranhado de hipóteses e perspectivas sem sentido. No entanto dessa vez ir de trem era fundamental. As seis horas de viagem noite adentro, a paisagem se urbanizando pouco a pouco, tudo isso se fazia necessário para que Jean adaptasse seu relógio interno ao tempo dos acontecimentos da vida em Paris. Num determinado momento o escuro e o ruído constante do atrito das rodas com o trilho fizeram-no cochilar. Acordou já amanhecendo com o burburinho dos demais passageiros apressados para o dia que se iniciava na capital francesa. Jean esfregou os olhos e ajeitou os cabelos esvoaçados pela janela que permanecera aberta durante todo o trajeto.
Depois de comer algo na lanchonete da estação seguiu pelo túnel que conecta a mesma ao terminal de metrô. Nesse momento estava certo de muita pouca coisa, mas sabia perfeitamente qual seria o seu destino: Châtelet. É lá que moram Théodore e Claire. Chegando ao bairro, Jean estranhou o movimento das ruas. Não passava de 7hs da manhã e já se podia perceber a atmosfera de uma cidade que nunca dorme. Aquele movimento assustador e aparentemente sem razão lembrou-lhe justamente do que mais apreciava em Paris. Poderia ficar uma manhã inteira andando pelo bairro e visitando os cartões postais de seu passado, mas a mala estava pesada e era necessário acomodar-se em algum lugar. Havia duas escolhas óbvias: a primeira seria a casa de Théodore, que certamente ficaria bastante feliz em recebe-lo, sem falar na prazeirosa oportunidade de constatar a eficiência de sua própria retórica, visto que Jean nem sequer pestanejou ao decidir voltar para Paris por influência direta do amigo. Outra opção seria um hotel; uma opção mais cara, porém valiosa no que se refere à privacidade. Existia ainda uma terceira possibilidade ignorada pela razão: a casa de Claire. Essa fazia seu coração disparar. Como ela o receberia? Qual seria sua reação ao encontrá-lo novamente, ao saber que ele estava novamente em Paris? Jean pensou que essa possibilidade era a que mais se adequava a alguém que decidira retomar o leme da própria vida em menos de 15 minutos na noite anterior. Procurou uma cabine telefônica, colocou a mala no chão, respirou fundo e discou sem pausa o número que conhecia tão bem.
posted by BRUNO MEDINA at 3:42 PM
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