aumenta um.


Quinta-feira, Abril 22, 2004
Caros Leitores:
como vocês podem perceber já há um tempo que não atualizo a história. A boa notícia é que isso está acontecendo por um motivo nobre; me parece que a história que começou como brincadeira foi ganhando força e importância dentro de mim, de forma que não tenho mais conseguido produzir capítulos com a mesma frequência. Para muitos pode ser decepcionante perceber que a história mudou de ritmo, mas saibam que o intuito é escrever com mais calma, e melhor. Portanto se você vem aqui todo dia para ver o que há de novo, passe a vir de 5 em 5 dias. Acho que era minha obrigação dividir isso com vocês. Para quem ficou chateado com essa pausa no "meio" do caminho peço desculpas, mas estejam certos que é necessário.


Quarta-feira, Abril 14, 2004
-- Eu imaginei que isso pudesse acontecer -- respondeu Claire sem demonstrar nenhum tipo de emoção.
-- ...Não temos mais nada um com outro, já acabou. --respondeu Jean mesmo sem ser questionado.
-- Está bem, vamos jantar, não quero mais falar sobre isso.

E com isso a conversa se encerrou. Sentaram no restaurante e procuraram não tocar mais no assunto, mudaram o rumo do inevitável desconforto e conseguiram fazer o jantar se tornar agradável. Foi impressionante a forma como Claire lidou com o problema, era como se ela aceitasse que Jean tivesse se envolvido com outra mulher por saber que ela mesma tivera criado uma situação propícia para tal. Não quis saber quem era nem como ou quando tinha acontecido, simplesmente passou à diante com a costumeira frieza que tanto assustava Jean. O jantar se encerrou e nesse dia despediram-se afetuosamente porém não dormiram juntos. Parecia que Claire estava absorvendo as informações novas, preparando-se para saber lidar com elas, Jean sabia que ela estava fechada para balanço, estava a caminho de sua plataforma, e que só conheceria realmente a reação dela tendo passado alguns dias. Não custou muito a chegar a resposta, na forma de carta, na casa de Jean:

Jean:

Tenho certeza (acho que já sabia, mas agora está mais forte) que ter vivido tanta coisa com você mudou, e está mudando, a minha vida. A maneira firme como você procurou resolver uma situação que não era a que você quer pra si me deixou mesmo de queixo caído, e me fez pensar no jeito como eu conduzo as coisas na minha vida. Você realmente possui a invejável característica de prezar pelo seu bem estar a qualquer preço, e faz isso sem passar por cima de outras pessoas, talvez eu precisasse mesmo de um pouco disso dentro de mim.

Adoro perceber sua preocupação comigo, com meu bem estar, isso me faz muito bem, mas sinceramente não espere muito dessas minhas mudanças, você pode se decepcionar. Nós realmente somos diferentes: você parece que organiza sem esforço seus sentimentos e isso pra mim parece um total absurdo, as coisas que eu sinto não são verbalizáveis, organizáveis. Acho que sei o que eu quero por ser o contrário do que eu não quero e tenho a consciência da confusão que isso pode causar em você. Enfim, não é tão fácil quanto parece e quando eu tento organizar acabo com a sensação de que isso tudo é uma verborragia inútil. Acho que estou confusa também, preciso de uns dias para colocar em ordem meus sentimentos, ou pelo menos tentar faze-lo. Não sei exatamente o que esperar de nós quando as coisas finalmente se esclarecerem para mim. Pode ser que demore muito, pode ser que eu simplesmente desista no meio desse processo, mas a verdade é que tenho mesmo dificuldade de encarar o fim, uma ausência que eu não possa interromper, Jean. Entretanto nossas conversas e tudo o que vivemos juntos me servem como bússola, estão ainda muito presentes, muito vivos em mim. Qualquer memória é parcial, mas não importa, porque eu sei que estas estão me fazendo bem. Portanto agora me retiro do campo real e me refugio nessas memórias até que tudo faça um tanto mais de sentido. Espero que você esteja aqui quando eu voltar, mas não espere por mim.
Um beijo,
Claire.

A resposta foi enviada no mesmo dia:

Claire:
Fico muito feliz em saber que pude de alguma forma te ajudar a rever coisas em sua vida, isso significa muito pra mim, me deixa orgulhoso, mas o mais importante é pensar que isso pode efetivamente melhorar a sua forma de lidar com seus problemas. Francamente não me interessa quem é responsável pelo seu processo de mudança, eu quero que você seja feliz, do fundo do coração. Se você precisa ver minha preocupação para medir o quanto gosto de você, que seja. Se suas mudanças são fogo de palha, só o tempo vai dizer, e prever não faz mais parte das minhas intenções. Se eu te pareço muito direto com essas frases que mais se assemelham a dizeres de livro de auto-ajuda é porque muitas vezes eu me sinto elucidando o óbvio.

Mas o que é óbvio pra mim não é pra você, e isso, minha cara, eu preciso aceitar. Se a vida me impõe essa barreira, ou eu tento pular o mais alto que consigo, ou eu meço a altura antes e desisto sem precisar passar pelo inconveniente de fracassar. Já bati com a cara no muro e, francamente, preciso manter meus dentes no lugar. Essas metáforas só servem para tentar encobrir de fantasia uma situação que pra mim dói de tão real; eu começo a disparar essas frases de efeito para tentar contaminar você com um pouco de faz-de-conta, porque para você, Claire, no fundo é tudo preto no branco. Por mais largo que seja esse lugar que você se supõem entre duas certezas, no fundo mesmo, pra você o que é é contrário do que não é. E eu acho que eu não sou. Parece-me que vou ter que aprender a lidar com o fato de que o jeito que você gosta de mim não é o que eu quero. Gostei de conversar com você da última vez, não me fez mal, estou sereno, contemplativo e consciente de que esse é o melhor jeito para ficar bem. Conversaremos quantas vezes forem necessárias, e quantas forem as que não me fizerem mal. Se você me permite, sendo ou não o responsável por suas mudanças, eu ainda sim me sinto orgulhoso de ser o gatilho, ou o dedo que dispara, tanto faz, quero te ver feliz, e eu sei que a felicidade urge sempre, mesmo quando você pensa que não. Minhas convicções eu ponho de lado agora, simplesmente porque as consigo colocar. A mim não importa mais o que é certo fazer, se eu puder fazer, se estiver ao meu alcance, eu faço.

Encontro-me rodando em pensamentos conflitantes, tudo que vivemos foi muito intenso e rápido, muito recente, e a impressão que tenho é que ainda está difícil de enxergar. Parece que preciso estar de fora para ver melhor. Esse tempo será importante para que nós dois avaliemos nossa condição. Gostaria de poder continuar participando desse processo, mas sinceramente não sei como. Eu só posso ficar do seu lado na medida que você quiser, permitir e que eu estiver me sentindo bem. Ao mesmo tempo só posso torcer, porque me parece que você tem que se mover sozinha. Não adianta que eu ache que sei o que é melhor pra você, as coisas só vão melhorar efetivamente quando você tomar consciência de que a vida é sua e a maior prejudicada é você própria. Bem, me incomoda um pouco ser só um flashback em sua vida, eu estou aqui e gostaria...Ah, não sei o que eu gostaria. Claire, eu estou aqui. Você sabe como me encontrar. Estarei torcendo.
Um beijo,
Jean

Com está troca de cartas foi selado um tempo de reflexão entre eles. E por muitos dias não souberam um do outro. As aulas na faculdade se encerraram e Jean entrou de recesso no trabalho. Sentia falta de Claire, queria saber como ela estava, mas sabia que era preciso esperar que algo acontecesse espontaneamente. Mais uma vez era o caso de confiar no destino ou fazer algo por ele. O mês de dezembro começou e o inverno era cada vez mais palpável; nos dias de neve Jean saía pelas ruas porque sempre se encantava com o manto branco que fazia tudo parecer sonho. Em sua cidade natal, no mediterrâneo, não neva e por isso ele adorava o inverno rigoroso de Paris. Algumas vezes ele passava pela frente do prédio de Claire e ficava apenas observando, sem coragem de bater em sua porta. Torcia para que ela saísse de casa e que se encontrassem, que ele pudesse ao menos vê-la, mas nunca aconteceu. Ele, que já havia lutado tanto contra esse sentimento, que tantas vezes já tentara se convencer de que devia esquece-la, dessa vez apenas aceitava a saudade que sentia e queria amenizar aquela dor da forma que fosse. Já não era mais possível passar o inverno sem Claire, Jean precisava ter-la ao seu lado naqueles dias tão bonitos. Resolveu dar uma mãozinha para o destino e satisfazer sua curiosidade, ligou para ela.

Claire atendeu o telefone surpresa porém sem grande euforia. Disse que aquele não era um dia bom, que havia passado todo tempo trancada dentro de casa, pensativa, e que Jean era a primeira pessoa com quem ela falava naquele dia. Começou a remoer suas maselas, a se queixar dos mesmos problemas de sempre, das mesmas dúvidas, e Jean procurava ser otimista, sentia que era preciso ajudá-la a se desafogar daquele mar de amargura. Parecia que Claire estava num daqueles dias de querer ser elogiada e paparicada, e Jean não se incomodou de desempenhar esse papel. A conversa se estendeu por um longo tempo e Claire parecia estar melhor, Jean então aproveitou para introduzir a pauta que mais o interessava:

-- E então, Claire, quando vamos nos ver novamente?
-- Não sei, ainda não tinha parado para pensar nisso, não estou com tanta saudade, apesar de você estar me convencendo de que seria bom.

Jean ficou mudo.

-- Ah Jean, me desculpe... Eu te magoei? Desculpe, hoje não está sendo um dia bom pra mim, não deveria ter falado isso.

Jean havia passado mais de uma hora no telefone com ela, tentando apontar os caminhos para a resolução de seus problemas, tentando enchê-la de otimismo, prestando-se a não responder suas provocações, a não notar sua falta de tato e a forma como foi recompensado por tamanha dedicação implicava em ouvir a fase mais insensível que já lhe disseram em toda sua vida:

-- Claire, não se diz a uma pessoa que não se está com saudade dela.
-- Eu sei, me desculpe.
-- Acho que por hoje já é suficiente. Pelo visto sua amargura é irreparável, vou desligar.

Claire ligou-o novamente:

-- Jean, eu gosto de você! Você me faz bem, me faz sorrir, cuida de mim. ¿ disse Claire numa tola tentativa de reverter a ofensa.
-- Isso não me basta, se não se importa vou desligar, não quero conversar com você agora.

Passaram-se alguns minutos e a raiva de Jean atingiu níveis inéditos. Ele começou a pensar em tudo que já havia se passado, em todas as vezes que Claire havia o decepcionado e percebeu que precisava dizer algo para que não explodisse. Ligou para ela novamente:

-- Quero dizer que você me faz me proteger de sentimentos bons e isso é um grande prejuízo. Se eu ainda me relaciono com você é porque tenho um problema de auto-estima, preciso de tratamento profissional. Você me faz mal, quero que suma da minha vida. Você não acredita na humanidade, não acredita em sentimentos bons, e isso me contamina como uma doença. Por favor, não me procure mais.

E desligou o telefone. A conversa em si não era tão relevante, mas servia como exemplo de como Claire se relacionava com tudo. A amargura, a insensibilidade, a falta de consideração, ele estava farto. Percebeu que nenhuma saudade adoçaria aquele coração, que nenhuma palavra que fosse dita a faria querer ser uma pessoa melhor, e se fizesse ainda sim não seria suficiente. Claire era um caso sem solução e Jean simplesmente se cansou, decidiu tirá-la de sua vida, definitivamente.






Segunda-feira, Abril 12, 2004
Jean divertiu-se imaginando qual seria a reação de Claire ao acordar sozinha. Sair da casa dela na calada da noite poderia até soar de alguma forma desrespeitoso, mas a verdade é que ele simplesmente não deseja correr o risco de ver nos olhos dela que era estranho estarem juntos novamente pela manhã. Dormiu bem em sua cama e acordou pensando em Olívia; agora era tempo de imaginar como seria revê-la depois de ter estado com Claire. No início da tarde estava de volta a faculdade e lá a encontrou sentada na primeira fila e não mais na terceira, como tinha sido costume nas últimas aulas. Isso poderia significar que tudo havia voltado ao normal ou que a moça sentia necessidade de estar mais próxima dele. É um fato quase que comprovado cientificamente que as mulheres pressentem a presença de outras mulheres e talvez alguma coisa em Jean, que nem ele mesmo sabia, denunciasse que ele tinha estado com Claire. Acabada a aula Olívia permaneceu sentada, como já era de se esperar, e os dois novamente conversaram:

-- E então, Olívia, como foi o seu final de semana?
-- Foi muito bom, Jean, estive com meus pais, viajamos para o interior. O clima do campo sempre me acalma, ameniza minhas angústias, meus pensamentos... e o seu final de semana, como foi?
-- Foi bom também, foi agradável -- respondeu Jean querendo mudar de assunto.
-- E então, podemos fazer alguma coisa agora?
-- Sim, podemos, vamos sair para jantar.

Jean estava bastante confuso. Respondeu que sim para Olívia impulsivamente, mas na verdade não tinha certeza que queria estar com ela. Convida-la para jantar parecia um reflexo de culpa por ter estado com outra. A noite com Claire havia sido muito boa, e o fez lembrar da intensidade de sentimentos que havia entre eles e de como aquilo tudo ainda significava bastante. Começou a sentir-se muito mal por estar com Olívia, porque não queria usa-la como contraponto, não queria transforma-la meramente numa resposta ao pouco caso de Claire, não era justo que a jovem servisse para preencher as lacunas que Claire deixava em sua vida. Mais do que isso, Jean sabia que Olívia nunca teria o seu amor e era claro que o mais sensato a fazer seria parar de encontrar com aquela moça. Jean percebeu isso no meio do jantar, enquanto Olívia contava o que havia ocorrido em seu final de semana no campo, ao lado da família. E ela era tão doce, falava da família com tanto carinho, parecia que tudo era tão certo em sua vida que Jean chegou a conclusão de que a moça não merecia ser envolvida numa história complicada como a que ele tinha com Claire. Terminaram de jantar e Jean levou-a até sua casa, Olívia imaginou que iriam para a casa dele, mas não fez perguntas e nem comentou nada. Beijou-o na entrada do prédio em tom de despedida, sabendo que provavelmente aquele jantar seria o último encontro dos dois. E Jean seguiu para sua casa com o peso tirado das costas.

Iniciava-se o mês de novembro e o inverno aos poucos chegava em Paris. A cidade escurecia, as pessoas se vestiam melhor, e isso combinava tanto com Claire, parecia que ela estava presente em todos os lugares, começava a sua temporada, o inverno era definitivamente sua estação. Esse era o último mês de aulas no curso em que Jean lecionava, outra turma viria e não seria mais necessário estar frente a frente com Olívia todos os dias, e isso o confortava. Seria melhor para os dois não se verem mais, principalmente para ela, porque Jean desconfiava que o envolvimento da moça havia sido maior do que deveria. Os dias se passavam e Olívia agia normalmente e de fato cabe destacar a maturidade da moça, que em momento algum relaxou o cuidado que tinha para não trazer problemas para Jean. A cada dia ela tornava-se mais apenas uma aluna, parecia ter entendido perfeitamente que o que havia entre eles não poderia ir muito além, e se conformava com isso. Claire ainda não havia comentado nada sobre a noite em que ele deixara sua casa sorrateiramente. Talvez porque essa fosse uma atitude que ela própria poderia ter tomado e no mais eles já estavam acostumados com os pontos de interrogação que permeavam a relação. Chegava até a irritar Jean a indiferença de Claire e o fato dela não ter solicitado maiores explicações sobre o que exatamente havia o motivado a sair de sua cama daquela forma, o que também o levava a concluir que essa tinha sido realmente uma decisão acertada.

Já fazia mais ou menos umas duas semanas que não se falavam e Jean percebeu que o próximo passo deveria ser dele, resolveu então ligar para Claire e marcar um encontro. Em poucas horas ambos estavam caminhando juntos na beira do rio Sena rumo a um restaurante onde jantariam e conversariam. A falta de intimidade que o tempo tratou de criar se desfez com o frio daquela noite, que os obrigava a estarem muito perto um do outro. O vento cortante parecia desestimular qualquer iniciativa de diálogo, mas Claire conseguiu transpor essa barreira e pôs-se a falar:

-- Jean, acho que estou mudando.
-- Sempre estamos mudando, o tempo todo, mas o que te leva a dizer isso?
-- Não sei, acho que nossa convivência e a forma como tudo se dá em nossa relação estão transformando minha maneira de ver o mundo. Mas pode ser que seja só impressão, pode ser que eu esteja querendo ver mudanças em mim que de fato não estão ocorrendo. É porque você o tempo todo me cobra que eu mude e eu posso apenas estar tentando te agradar, estar a altura das suas expectativas. A propósito, porque você deixou minha casa no meio da noite naquele dia?

-- Achei que você nunca iria perguntar! Eu pensei que você não gostaria de me ver na sua cama, ao seu lado, quando acordasse...
-- E o que te fez pensar isso?
-- Você mesma me disse que sentia falta de privacidade, que precisava ver-se sozinha para se sentir à vontade, preferi não forçar uma situação desnecessária. No entanto acho que sair da sua casa no meio da noite não se parece com uma atitude minha. Porque é frio, e é algo que poderia ter sido evitado com uma conversa. Acho que estou abrindo mão de conversar, de expor meus pontos de vista, e penso que isso se deve a convivência com você. Assusta-me porque não quero deixar de sentir as coisas do jeito que eu sentia, essa é uma lição que me recuso a aprender, você entende?

-- Entendo. Mas não impute a mim as coisas que mudam em você, nós dois escolhemos viver essa história, escolhemos estar aqui hoje, e isso pouco tem a ver com o outro, mas sim com nós próprios.
-- Claro. Existe um ditado que diz que só fazem conosco aquilo que nós mesmos permitimos. E, se às vezes eu tendo a pensar que você me causa sofrimento, sei também que este poderia ser evitado se eu realmente desejasse. Eu poderia me afastar em definitivo de você, por exemplo.
-- E porque você não faz isso? -- perguntou Claire já sabendo qual seria a resposta.
-- Porque eu sempre acredito que vamos nos entender, que as coisas vão melhorar. Já faz quatro meses que nos conhecemos e já passamos por muitas fases, por muitos estágios, por muitas sensações. Penso que em nome de tudo isso vale a pena continuar tentando. Mas é difícil. Porque somos pessoas muito diferentes e nossas diferenças pesam.
-- Sim, pesam. Desde nosso último encontro andei pensando e cheguei a conclusão que você é muito diferente de mim e de meus amigos. Existem certos assuntos que não posso conversar com você.
-- Meu Deus, como isso é estúpido! Claro que existem assuntos que você não pode conversar comigo, assim como eu também tenho assuntos que não te interessariam ou sobre os quais você não saberia opinar! E é pensando nisso que você considera que não encaixamos? Como se nossa relação fosse uma ciência exata ou um quebra-cabeça? -- disse Jean claramente irritado -- porque sinto que quando ficamos juntos um tempo, quando é bom, você começa a me julgar e a reparar em todos os meus defeitos. Quando você percebe que começo a fazer mais parte de sua vida é com se eu precisasse ser testado severamente para que você saiba se eu sirvo ou não. Mas quando o teste se inicia a relação se tenciona, piora, e então você acaba concluindo que não temos muito em comum. Você não consegue perceber que essa é uma forma implacável de auto-sabotagem? Quanto mais eu me aproximo mais perigoso eu me torno. Claire, eu não quero ser uma ameaça, porque você insiste em me ver assim?

-- Jean, essa é minha forma de agir, eu te disse que eu era complicada, na primeira vez em que estivemos juntos, porque você não acreditou? Pode ter a ver com minhas outras relações, pode ter a ver com você especificamente, não sei.
-- Por que você não me deixa fazer parte da sua vida?
-- Porque não sei se eu quero, eu não sei o que eu quero na verdade.
-- Nossa, às vezes me parece que você gosta de ter problemas, como é possível saber tão pouco sobre suas próprias vontades?
-- Já estou acostumada a viver assim, não creio que seja possível mudar isso.
-- Acho que você gosta de viver mal, só não sei porque. Viveria muito melhor se derrubasse esse muro que te separa do mundo real. Você fica do outro lado, olhando tudo como se estivesse numa trincheira, se defendendo de um possível ataque, como se as pessoas pudessem ou quisessem te fazer mal. Quando temos um problema específico com alguém é sempre melhor se aproximar, resolver, ao invés de criar um abismo, porque à distância as palavras se perdem.
-- Talvez você realmente tenha razão.

O momento de vulnerabilidade de Claire inspirou-o a contá-la sobre Olívia. Porque foi exatamente a distância que Claire insistia em manter o que o jogara nos braços de outra mulher. Contá-la que havia se envolvido com outra pessoa não se tratava de um ato de crueldade, mas sim uma forma eficiente de mostrá-la o que estava em risco, o que poderia se perder diante de tamanha falta de certezas. Jean encantou-se com Olívia porque precisava estar com alguém que acreditasse no amor, o pessimismo de Claire fazia-o mal. Fazia-o mal também viver numa relação de regras pouco claras, e essas regras nunca mencionaram o envolvimento com terceiros. A verdade é que nunca tiveram um compromisso oficial, mas mesmo assim Jean achou justo que Claire soubesse a verdade:

-- Claire, eu me envolvi com outra pessoa -- disse Jean com firmeza e em tom de lamento.



Quarta-feira, Abril 07, 2004
-- E então, Jean, o que diz? -- perguntou Théodore com a curiosidade de quase uma semana.
-- Diz que Claire precisa falar comigo -- respondeu secamente Jean
-- E você? Não precisa falar com ela?
-- Não sei. Tanto já foi dito, tenho sempre a impressão de que é preciso viver ao invés de teorizar. Claire me parece sincera ao dizer que sentiu minha falta, e isso é positivo porque normalmente ela perde muito tempo investigando as sensações e não percebe o caráter volátil que essas possuem. Parece-me uma evolução também dizer que sofreu por minha causa, porque ela dificilmente deixa transparecer qualquer coisa relativa ao coração. Tenho que encontra-la, vai ser importante para nós dois.

Jean sentia que queria encontrar Claire novamente. Era difícil, porém, perceber nele um desejo de compara-la a Olívia. Parecia-lhe um sentimento mesquinho, mas era absolutamente compreensível que depois de se relacionar com Olívia ele pudesse perceber Claire de uma outra maneira. No mais sentimentos mesquinhos não lhe chocavam tanto depois que voltara de Nova York, talvez fosse mais justo referir-se a eles como sentimentos humanos. E repleto de humanidade Jean foi encontrar Claire. Tocou a campainha de sua casa fazendo a mesma surpresa que já fizera tantas outras vezes. Dessa vez a moça atendeu a porta mais contida, era possível perceber um certo receio em seu olhar, como se o que fora vivido entre eles estivesse passível de nova regulamentação:

-- Olá Jean, até que enfim você apareceu. Entre.
-- Se você não se incomodar prefiro conversar num lugar público, um bar talvez.
-- Como quiser. Está com medo de alguma coisa? -- perguntou Claire ironicamente
-- Não, quem costuma ter medo é você, só não me sentiria bem de ter essa conversa com você na sua casa agora, prefiro um lugar neutro.
-- Lugar neutro? Trata-se de uma batalha?
-- Sempre...
-- Vejo que você está rancoroso...
-- Conversemos sobre isso no bar.

E os dois partiram para um bar muito próximo a casa dela, até porque o clima de funeral não poderia se estender até a próxima quadra. Sentaram no bar e puseram-se a desatar o nó:

-- Pois bem, você me chamou e aqui estou -- disse Jean acomodando-se na cadeira como quem se prepara para ouvir um longo discurso.
-- Nossa, você está diferente, não parece o Jean que conheci.
-- Esse é o ponto, o Jean que você conheceu não existe, faz muito tempo. Esse novo Jean pensa e age diferente.
-- Olha Jean, eu não vim aqui para brigar. Quero conversar com você, estou surpresa com sua reação, você está agressivo.

Jean percebeu que não contribuía muito para a situação implicar com Claire, decidiu tentar agir naturalmente, sem rancor, e esperar que a conversa se encaminhasse sozinha. Porque sabotar era uma atitude infantil. Se ele não suportava mais a moça era melhor que não estivesse ali, e ele sabia que não era o caso. Claire percebeu a brecha que teve e começou seu show; sabia que era momento de reconquistar Jean, e ela normalmente era muito competente nessa função.
Só que dessa vez Jean estranhava tudo, inegavelmente ter conhecido Olívia mudara sua forma de ver a si mesmo naquela situação. Claire falava sobre artes plásticas, cinema, literatura, música, arquitetura, política e relações pessoais com a mesma petulância e inteligência que o encantavam, mas era tão densa e tão cheia de si. E isso que um dia já chegou a ser um atributo hoje o incomodava. Claire segurava um cigarro na ponta dos dedos e bebia, discursava com tanta propriedade, vestida de preto, parecia tão fechada para o mundo exterior, tão indisposta a absorver. Jean lembrava de Olívia e seus olhos brilhantes, seus braços abertos em paralelo dispostos sobre a mesa da sala, sua cabeça levemente inclinada, querendo ouvir tudo, querendo saber de tudo, querendo abraçar o mundo com as pernas, fazer parte dele. Claire não queria fazer parte do mundo, queria ter o seu próprio, onde estivesse salva das pessoas, dos julgamentos e dos sentidos.

Ela continuava a falar e pedia a opinião de Jean, que já não conseguia prestar atenção no que era dito e sim na forma como era dito. Claire pareceu-lhe chata, dissertando sobre suas crises, sobre suas angústia, Jean sentia que sua energia era sugada pouco a pouco naquela mesa de bar. A sua alegria e o seu otimismo eram insuficientes para os dois e sempre fora assim, ele constatou. O tempo passava e Jean agora só queria sair dali, precisava absorver tantas mudanças ocorridas nele próprio. Claire percebia que dessa vez seus truques precisariam melhorar, sentia-se impotente com o não envolvimento de Jean:

-- Vamos pedir a conta -- disse ele.
-- Está bem, vamos embora.

E os dois caminharam novamente em silêncio até a porta da casa de Claire:

-- Então até logo, Claire -- ela permaneceu parada e sorriu, como se não acreditasse que Jean desejasse realmente ir embora.
-- Você quer mesmo ir embora Jean? Tem certeza que não quer entrar? -- disse Claire com a cara mais inocente e despretensiosa que conseguira fingir.
-- Sim, é melhor que eu vá...-- nesse momento Claire foi se aproximando dele, olhando o nos olhos e abraçou-o. Jean manteve-se inerte, sem retribuir o abraço. Claire então partiu para o último recurso que lhe restava, o beijo. A essa altura Jean já se esforçava muito para manter-se firme, mas depois do beijo isso se tornou impossível e ele acabou entrando na casa de Claire.

Dessa vez, no entanto, estar com ela pela primeira vez tinha um sabor de derrota. Jean sentia que havia fraquejado, que o certo seria ter seguido dali para sua própria casa e dormir sozinho aquela noite, mas o que acabou acontecendo fora imposto por seu desejo. Abrir mão de convicções para saciar desejos faz parte dos tais sentimentos humanos, mas o perigo é quando estamos à mercê deles. Porque quem vive em função de satisfazer suas próprias vontades não tem tempo para plantar o que julga ser certo. E os desejos são insaciáveis, são fragmentos incompletos, insuficientes e sempre é preciso ter um pouco mais. Jean sabia que o melhor para sua vida era estar longe de Claire, isso agora era uma certeza, mas o difícil é efetivamente cumprir o que decide a razão. Porque a razão é distante, fria, não tem manejo com as palavras, não tem senso de oportunidade, é como um conselho de um parente chato. O coração é burro, irresponsável, e sabe que precisa de uma retórica emocionada para se fazer constante no campo das decisões. Foi o coração quem levou Jean para dentro da casa de Claire, a razão o esperava do lado de fora, para cobra-lo a consciência de seus atos ao sair pela manhã. E ela não se importa em esperar o tempo que for para proferir sua argumentação e convencer-nos que o melhor é investigar antes mesmo de sentir. Apesar das questões morais estar com Claire, fisicamente, havia sido bom como sempre. E enquanto tentava dormir Jean pensava no tênue equilíbrio que existe entre as forças, entre os pólos, entre os pensamentos e os sentidos. Estar ao lado de Claire numa cama já tinha sido seu paraíso e agora era seu purgatório. Jean preferiu sair no meio da noite e dormir em sua própria casa, porque se lembrara de que a moça costuma sentir falta de privacidade ao acordar. A cama era outra mas a pergunta era exatamente a mesma em sua casa: quem sairia vitorioso dessa vez? A razão ou o coração?



Segunda-feira, Abril 05, 2004
O problema era que não se tratava mais de uma escolha, a decisão já havia sido tomada. E mesmo que dessa vez a razão o condenasse Jean novamente aceitou a vida: decidiu abrir-se com Olívia. Era uma segunda-feira e ele passara todo o final de semana pensando na moça, convenceu-se que o melhor seria aborda-la depois da aula. Contava que ela daria um jeito de estar com ele a sós, como costumava fazer sempre, e dessa vez ele tentaria levar a conversa para longe do ambiente universitário. Findada a aula Olívia previsivelmente dirigiu-se a sua mesa:

-- Muito boa aula, Jean. Pena que não consigo desenhar nada convincente -- disse Olívia esperando receber um elogio.
-- Que isso Olívia! Seu estilo é suave, mas tem personalidade. Tenha um pouco de paciência porque o tempo a fará mais talentosa, porém menos condescendente com sigo mesma. -- disse Jean atendendo a solicitação.
-- Gostaria de fazer o tempo passar logo, me falta paciência para iniciar, para ver as coisas se desenvolverem, quero estar pronta logo, usufruir.
-- Acho que esse é um ímpeto comum a sua idade, em poucos anos você aprenderá a lidar com isso. E talvez nunca aprenda a amenizar essa sensação, eu, por exemplo, sou um pouco mais velho do que você e ainda sou assim. Podemos continuar conversando sobre isso em outro lugar...
-- Claro, Jean, onde você quiser...

Jean sentia que já não falavam mais da disciplina que lecionava e sim sobre eles próprios. Apesar disso sentia-se um patife por usar da condição de professor para levar Olívia para fora da faculdade. Era como um pecador que esconde a cruz para afastar os olhos de Deus de seus atos. Por mais tolo que parecesse Jean sentia culpa em abordar Olívia, principalmente dentro da sala de aula. Pesava a diferença de idade, a condição que os envolvia, a questão ética, mas tudo era também extremamente excitante. Jean carregou sua cruz até um bar e lá se sentou com Olívia, que alternava momentos de parecer saber do interesse dele e de não saber de coisa alguma. Talvez aquilo fosse só um jogo, talvez Olívia soubesse que a condição de aluna a fazia duas vezes mais interessante e se aproveitava disso para neutralizar a culpa de Jean. No bar a conversa fluía muito bem e a condição hierárquica que os envolvia já não pesava tanto. O que havia ali era um homem e uma mulher na iminência de se tocarem, buscando os caminhos que os levariam mais rapidamente ao corpo um do outro. Entretanto existia uma barreira, um impedimento, que era a consciência de Jean. Depois de algumas horas e algumas bebidas -- nesse dia Jean até bebera para aliviar a autocrítica -- nada de significativo havia acontecido e Jean decidiu que o bar já tinha cumprido sua função naquela noite. Saíram juntos ainda sem saber para onde ir e novamente o tempo estava jogando contra, Jean sabia que se não tomasse nenhuma atitude logo o constrangimento da situação levaria a moça embora, e tanto sua angustia quanto sua iniciativa teriam sido em vão. Andaram alguns minutos sem nada falar quando ao longe ouviram música:

-- Está ouvindo? -- perguntou Jean
-- Sim, parece música ao vivo, uma orquestra talvez.
-- Sim, de certo é uma orquestra. Boa música...

Mais a frente perceberam que tratava-se de um clube onde uma orquestra tocava animadamente. Havia muito movimento na porta e aquele lugar de repente tornou-se um oásis no meio da cidade.

-- Vamos dançar? -- perguntou Jean
-- Claro, vamos entrar!

E assim Jean ganhou mais tempo. O lugar não poderia ser mais propício: casais enamorados na pista de dança, meia-luz, músicas românticas para dançar junto. Jean e Olívia juntaram-se aos demais na pista e dançaram graciosamente. Apesar de não ser um grande dançarino, os pés de Jean moviam-se muito naturalmente quando olhava dentro dos olhos quase verdes de Olívia, parecia que estavam sincronizados pelos olhos. Era fácil saber o que fazer, o que viria em seguida, como se estivessem num filme, tudo em volta conspirava a favor deles. As preocupações, a cruz, o peso, nada do que o atormentara combinava com a poesia daquele momento. Os corpos colados, os olhos nos olhos, beijaram-se.

E a noite acabou na casa de Jean. O destino, que o trouxera para Paris por causa de Claire, pregou-lhe uma peça e fez Olívia ser a primeira mulher a deitar-se em sua nova cama. Ela preferiu não dormir por lá, foi embora no meio da noite, o que de certa forma até deixou Jean aliviado; seria um pouco constrangedor acordar com a aluna ao seu lado. No dia seguinte os dois se encontraram na faculdade, dessa vez Olívia sentou-se na terceira fila e não na primeira como de costume, e isso por si só já era muito esquisito. Jean passou todo tempo da aula pensando como seria quando esta acabasse. Será que Olívia ficaria para conversar dessa vez? Como se deve agir numa situação dessas? Como separar o homem do professor? Como não deixar que os outros percebessem o que estava acontecendo? E essa foi a maior aula do semestre. Jean retardou o término pelo quanto pode, não queria ter que enfrentar a situação de hesitação que viria com o fim da aula. Ao mesmo tempo preocupava-se em como Olívia se sentiria, não queria que a moça pensasse que a noite não significara nada pra ele, que ela fora usada, ou que ele tinha o costume de levar alunas para sua cama.

A aula teve que acabar e Olívia permaneceu sentada em sua cadeira, deixou que todos os alunos fossem embora. Jean manteve-se também na sala olhando para seus papéis, demoradamente arrumando sua pasta, esperando que ela tomasse a iniciativa do contato:

-- Bela aula, Jean, um tanto longa, talvez -- disse Olívia divertindo-se com o evidente constrangimento do professor.
-- É, hoje eu me excedi um pouco mesmo. Mas e você como vai?
-- Vou bem, e você?
-- Estou bem também. Interessaria-lhe um outro encontro?

Olívia instintivamente olhou para a porta da sala que estava fechada.

-- Sim, me interessaria um outro encontro -- respondeu Olívia sorrindo, provavelmente achando graça na formalidade de Jean.
-- Percebo que você também se incomoda com nossa condição aqui dentro.
-- Me incomoda porque incomoda a você, sei que é uma situação delicada.
-- Então vamos sair daqui, porque lá fora não devemos nada a ninguém.

E os dois novamente saíram juntos. Passearam pela beira do rio vendo a noite cair e a cidade se acender. Sentaram-se em uma ponte e por lá ficaram conversando, vendo os barcos e as pessoas passarem por horas. O tempo voava quando estavam juntos, a conversa era tão leve, tão relaxada, não havia aquele clima de apreensão e incertezas presentes nas conversas com Claire. A semana passou e estiveram juntos quase todos os dias. Olívia era absolutamente transparente, era possível enxergar através dela, e não havia nada a temer, a não ser o crescente interesse da moça por ele. Ela esteve algumas vezes mais em seu apartamento, e um dia acabou dormindo por lá. Acordaram abraçados, como um casal, e isso o assustou profundamente.

Por mais que Olívia fosse uma moça encantadora, Jean sabia que o que tinham até agora dificilmente apontaria para um relacionamento. Tudo que o encantava em Olívia era exatamente o que o afastava dela, porque Jean não mais conseguia ver o mundo com os olhos que ela via. Sua clareza cristalina, sua transparência, seu brilho lhe doíam a vista. Sentia falta das sombras. O Jean pós-Claire e pós-Nova York havia acostumado-se com as sombras, com a falta de certezas, sentia falta do jogo, da angustia que o remexia por dentro. A verdade é que Olívia nunca chegaria até seu coração, e isso era realmente uma pena. Jean olhava-a dormir, linda e provavelmente sem consciência da crise que lhe atingia. Decidiu que deveria reduzir o contato com a moça, para o próprio bem dela e no fim de semana resolveu passar na casa do amigo Théodore:

-- Como vai amigo?
-- vou bem, e cheio de novidades como sempre. Sente-se que já te conto tudo -- respondeu Jean
-- primeiro eu, então -- Théodore abriu uma gaveta e puxou uma carta -- tome, é para você, deixaram aqui há uns cinco dias. Decidi não te falar nada. Sei que você está tentando reconstruir a sua vida e talvez o conteúdo dessa carta incida sobre isso. Esperei que viesse me procurar para entrega-la a você, aí está.

Pela letra no envelope tratava-se de uma carta de Claire, Jean rasgou o envelope e seu coração se acelerou:

Querido Jean:

Pelo visto nosso último embate causou conseqüências maiores. O fato de não sermos mais namorados não significa que não sinto a sua falta, ou que seja possível tira-lo de minha vida de uma hora para outra só porque isso é o mais prudente a ser feito. Você mesmo me disse que a prudência era uma palavra que não combinava com nossa situação e por isso mesmo agora sou imprudente ao te escrever. Não sei mais o que se passa em sua vida, faz semanas que não nos falamos. Hoje é meu aniversário e passei o dia em casa, chorando e bebendo, pensando em minha vida e nas coisas que me impedem de ser feliz. Gostaria de ter falado com você hoje, mas ninguém atendeu na casa do seu amigo, nem sei se você ainda está aí ou em Marseille. No seu apartamento ninguém atende também, onde você está? Resolvi te escrever porque não vejo outro jeito de dizer que sinto que precisamos conversar. Por favor, quando receber essa carta entre em contato comigo.
Um beijo,
Claire.



Sábado, Abril 03, 2004
Já era de costume que Jean se surpreendesse com as atitudes de Claire, mas dessa vez, por mais otimista que fosse, não poderia imaginar tal situação; Claire havia o pedido em namoro. Isso contrariava todas as crenças dela, todas as expectativas dele, todas as regras estabelecidas, ele mesmo se prometera nunca mencionar essa palavra. Porque palavras e termos têm o dom de estragar o que na prática funcionam bem. Dizer que a relação deles funcionava bem talvez fosse um pouco de exagero, mas de certo não precisavam de mais problemas. Era preciso ser otimista, a iniciativa de Claire fora admirável e era possível que a partir disso ela pudesse se permitir mais, no entanto era fundamental acreditar. Jean guardou a carta e partiu imediatamente para a casa dela:

-- Olá namorado -- disse Claire ao abrir a porta. Ela já o esperava e sorria como timidez, como quem fizera algo de reprovável.
-- Então quer dizer que somos namorados? -- perguntou Jean abraçando-a.
-- É, acho que sim.
-- E agora, sendo namorados, o que fazemos?
-- Vamos consumar nosso namoro!

Os dois partiram para o quarto e essa vez foi melhor do que todas as anteriores. É incrível a força de transformação que uma palavra pode adquirir, mas o simples fato de Claire ter baixado sua guarda e ter se permitido perder o controle da situação já fazia tudo ser muito mais prazeroso. E eram ótimos os dias como namorados. Jean dava suas aulas pela manhã e a tarde fazia outros trabalhos, não pelo dinheiro, mas sim porque era necessário manter-se presente no mercado e, por mais prazer que tivesse em lecionar, lhe fazia falta o desafio da antiga profissão. Ele continuava estabelecido na casa de Théodore entretanto às vezes dormia na casa de Claire.

Aos poucos se sentia mais confiante em ser professor e a verdade é que vinha desempenhando um bom trabalho. Os alunos eram muito interessados e sua intuição tratava de preencher qualquer lacuna do aprendizado em Nova York. Aos poucos se estabelecia também uma rotina com Claire: almoçavam juntos, passeavam a tarde, havia dias que não se viam devido aos compromissos dela, e assim se passaram duas semanas. Apesar da melhoria que a oficialidade trouxera à relação, eles ainda tinham seus problemas, Claire era uma namorada diferente das outras que Jean havia tido. Ela tinha muita dificuldade em demonstrar sentimentos e por vezes transparecia o esforço que estava fazendo para adaptar-se a nova condição. Jean fingia que não via para dar-lhe o tempo necessário, talvez ela nem quisesse falar sobre suas questões, bastaria o tempo passar para que tudo ficasse bem, e dessa forma algumas brechas se abriram no muro que pretendiam construir juntos. Jean acompanhava o que acontecia calado, quando muito confiava ao amigo Théodore um desabafo e este lhe dizia para ter paciência. Mais alguns dias se passaram e os silêncios começaram a incomodar, era nítido que precisavam conversar, mas Jean esperou que Claire tomasse a iniciativa. Uma manhã acordou no apartamento subterrâneo e ela o observava dormindo, seus olhos queriam dizê-lo alguma coisa, Jean antecipou o assunto:

-- O que foi Claire? Não quer mais brincar disso? -- ela respondeu positivamente com a cabeça.
-- Jean, não me sinto preparada para desempenhar esse papel de namorada. Sinto-me obrigada a agir de uma determinada maneira, a ter hábitos que não quero ter, obrigações, não gosto dessa palavra.
-- A que obrigações especificamente você se refere?
-- Sinto que é conveniente que nos vejamos todos os dias e às vezes eu simplesmente quero estar sozinha ou sair com minhas amigas...
-- Claire, foi você quem me pediu em namoro. Eu mesmo havia me prometido nunca propor nada semelhante porque sei que você teme qualquer palavra que pertença a esse grupo. Francamente o nome que nossa relação tem não me interessa, e os termos para nada servem a não ser justificar algo para quem não importa e quase nada para os verdadeiros envolvidos.
-- Pois então me sinto mais confortável sem o status de namoro. Eu sei que fui eu mesma quem inventou tudo isso, eu estava tentando, mas não consegui.
-- Está certo, não somos mais namorados a partir de agora, mas somos o que então?
-- Não sei, Jean. O que éramos antes disso?
-- Não sei também. Talvez seja melhor que nos afastemos para conseguirmos enxergar a situação de fora. Eu preciso ir a Marseille, vou pedir uns dias no trabalho, pois não estive lá desde que voltei de viagem. Quando eu voltar nós conversamos de novo, está bem assim?
-- Sim, está bem, eu acho...

Jean saiu da casa de Claire e passou na faculdade para pedir dois dias de dispensa. Juntando com o final de semana teria ao todo quatro dias para organizar sua vida em Marseille. Partiu de trem e chegou no mesmo dia, no final da tarde. Seu antigo apartamento estava bastante sujo e cheirava a mofo. Jean começou então a fazer uma grande faxina e aos poucos constatava a pouca relação que tinha com aquele lugar, que sua vida estava enraizada em Paris e que estar de novo naquele apartamento, quase dois meses depois, parecia uma volta ao passado. Era possível também perceber que sem sua grande mala, que ficara na casa de Théodore, poucos bens lhe restavam. Alguns objetos de decoração, poucos móveis, um resíduo de objetos pessoais, nada que fosse de fato relevante. Jean sentiu que sua vida, que sua história, agora pouco tinha a ver com o que estava ali dentro.

No dia seguinte acordou cedo e levou tudo que pode de uma só vez para a casa dos pais, o que achou que ainda poderia precisar colocou dentro de uma mala e levou de volta para Paris. Porque não havia reflexão nenhuma a ser feita em Marseille, era tempo de olhar pra frente e seu futuro decididamente não estava mais ali. Voltou nesse mesmo dia para a casa de Théodore e no dia seguinte mesmo já procurava um lugar só seu em Paris. Com algum custo conseguiu encontrar um apartamento bastante agradável, ali mesmo em Châtelet. De certo não era grande, mas comportava bem seus pertences. Havia janelas do teto até o chão por onde entrava bastante luz e isso era fundamental para desenhar. Uma pequena sala, um quarto menor ainda, era mais do que suficiente. Fechou negócio com a corretora, pegou suas coisas na casa do amigo e a partir desse momento tinha um lar em Paris. Olhando para o apartamento praticamente vazio Jean deu-se conta de que aquele era um desses raros momentos na vida onde é possível reconsiderar, repensar a trajetória, começar de novo, era nítido que outra etapa se iniciava. Ver aquele espaço livre de qualquer atributo que o definisse remetia a ele próprio e ao que poderia ser feito com sua vida.

Na compra dos móveis, na decoração da nova casa, na cidade que escolhera para morar, estaria estampado o novo Jean, aquele que voltara de Nova York consciente de si mesmo, aquele que havia percebido que o melhor e o pior da vida caminham lado a lado e que agora sabia que precisaria abandonar o passado em nome de suas novas convicções. Naquele novo apartamento não haveria mais lugar para a angustia, pelo menos a que fosse causada por Claire. Que viessem novas angustias então, essas seriam aceitas, mas a grande meta, o grande objetivo a ser atingido, era andar para frente, e não mais para o lado. Na semana seguinte dedicou-se integralmente a ocupação de sua nova morada: comprou móveis, decorou as paredes, ocupou os armários, todos os espaços, os cantos, comprou plantas e o resultado ficou bastante satisfatório. Paralelamente seguia dando aulas e não mais temia a condição de professor.

Passada a apreensão inicial do primeiro mês era possível agora interagir com os alunos, trocar experiências, contar casos, e as aulas tornaram-se ainda mais prazerosas. Era possível para ele agora até perceber o interesse especial de uma certa aluna, seu nome era Olívia. Recobrando a memória, Jean lembrou-se de que desde os primeiros dias de aula ela se sentava na primeira fila, sempre fazia perguntas interessadas, sempre continuava na sala depois do término das aulas. Por mais que outros alunos também fizessem o mesmo, ela se destacava. O professor cedeu lugar então ao homem e Jean constatou o óbvio, o que não quis ver durante todo o tempo: Olívia interessava-se por ele e não por suas aulas.

Nos dias que se seguiram a essa constatação foi impossível não notar a moça. Jean preocupava-se, entretanto, em não deixar transparecer sua curiosidade para os demais alunos, não desejava nem que Olívia percebesse que se tornara o centro de suas atenções, a ética não permitia. Mas a moça era inegavelmente encantadora; devia ter no máximo vinte e dois anos, e a pouca vivência estampada em seu rosto tornava seu olhar irresistível. Olívia de certo não sabia o que podia despertar num homem, não podia saber, porque sua candura era absolutamente natural e por isso extremamente envolvente. A forma como cruzava as pernas, como se vestia, o olhar permeado de inocência e interesse, se Olívia tinha noção do que ocorria era fato que conhecia muito bem suas armas de sedução. As conversas depois das aulas assumiram uma outra conotação, sim, Olívia sabia do interesse de seu professor. E enconstava em seu braço, exagerava no perfume, debruçava-se sobre a mesa, desrespeitava a distância sugerida pela condição de aluna, falava de perto com seus longos cabelos estirados sobre a mesa, Jean estava absolutamente envolvido.

Por mais que ainda sentisse alguma coisa por Claire aquela moça era tão leve, tão feliz, tão harmoniosa que era impossível não fazer comparações. Olívia talvez ainda não tivesse sofrido o suficiente, não trazia no rosto as marcas da vida e por isso era tão bela. Certamente desconhecia as artimanhas do amor e a gama de sentimentos e sofrimentos que só a idade e as experiências são capazes de trazer. A sua companhia lembrava-o daquele antigo Jean e, por mais que soubesse que não era possível voltar atrás, que nem queria e nem poderia ser o mesmo de antigamente, Jean via com ternura o que um dia fora e reconhecia em Olívia as mesmas convicções, as mesmas dúvidas e as mesmas certezas que um dia tivera. E era bom sentir-se assim porque ele havia se afastado um tanto daquela deliciosa inocência. As experiências vivenciadas com Claire certamente o fizeram uma pessoa mais preparada para enfrentar o mundo, e isso era bom, mas também era bom não ter tantas certezas como Olívia ou como o Jean do passado. E quanto mais conhecia a moça mais se encantava, mais se interessava e mais a desejava.

Comparativamente não era possível saber qual das duas, Claire ou Olívia, era a mais bela. Até nisso essa experiência era fascinante; Olívia representava a beleza pueril, suas formas eram perfeitas, seu rosto tinha traços delicados, vestia-se de uma forma alegre porém discreta. Era risonha, bem humorada, carinhosa, esbanjava satisfação pela vida, olhava tudo por uma perspectiva otimista. Claire possuía uma beleza sedutora, seu rosto tinha traços fortes, vestia-se com sobriedade, cores escuras, elegância. Era irônica, inteligente, intrigante, uma companhia instigante porque sua sedução estava nas palavras, nas ausências, no conhecimento. Eram muito diferentes as duas. Mas o fato é que Jean se cansara dos atributos de Claire, esses ele já conhecia bem, agora era tempo de vivenciar o novo, e o novo estava representado por Olívia. Mas como se livrar da culpa, da reprovável situação de estar interessado por uma aluna? Havia ainda Thierry e a última coisa que Jean desejava era trazer problemas para o amigo que o ajudara tanto. E se todos soubessem de seu caso? Como ficaria seu futuro profissional, que marcas aquilo traria para Olívia?

Jean passou os dias seguintes tentando evitar contato com a moça, mas havia uma força, algo como um campo gravitacional, na primeira fila de cadeiras da sala de aula que quase podia ser percebido no ar. Olívia olhava-o lascivamente cobrando dele uma atitude, uma iniciativa e Jean agora mal conseguia se concentrar no que dizia: perdia-se no meio das explanações, repetia o que acabara de ser dito, deixava perguntas sem resposta, alguns alunos nitidamente percebiam que algo estava errado com o professor. Sua conduta profissional estava seriamente ameaçada porque o desejo por Olívia o consumia de forma tal que a qualidade de suas aulas inegavelmente já não era a mesma. Então a escolha que tinha a fazer era muito clara: ou Jean tratava de esquecer a moça ou cedia aos seus encantos e aceitava as conseqüências.